À VENDA NOS SEGUINTES LOCAIS

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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Contos da nossa Terra │O preço de um milagre (*)

Depois de receber uma convocatória mais ou menos furiosa para comparecer no dia seguinte à residência do Rei, o aldeão, meio-jovem, meio-homem, era um turbilhão de ideias. Da boca do emissário, de tão telegráfico, podia-se muito bem inventariar a mensagem em quatro palavras: “Henlã kekumbi konjo yaSoma” (amanhã à tarde em casa do Rei). Nada mais acrescentou, nem era preciso. O assunto era grave. O convocado nada disse às pessoas com quem vivia. Tentou dormir. Foi assim que se lembrou da mais sábia das soluções, acreditava ele. Fez-se à residência do mestre sobrenatural. No escuro, manteve-se quieto, sem deixar de garantir estar fora do alcance dos cães, ao mesmo tempo guardas e caçadores, muito amantes de ossos (ele era muito magro).
“Tu por aqui?”, indagou o dono de casa que deu pelo intruso no momento em que ia atrás da árvore para aliviar a bexiga dos líquidos do dia anterior.
“Sim, mestre, nem deixei os galos cantarem. Fui chamado pelo Rei…”
“Queres que eu vá no teu lugar?”
“Não é isso, mestre, quero que me tires as culpas…A fama de bom curandeiro é grande. E se fama tem, solução também… Até porque o mestre também é feiticeiro, ou não é?
“Ó rapaz, cuidado, hã? Pelas tuas palavras tortas, você estragou coisa grande, não é?”
“Engravidei a filha do Rei, papá. Sem apresentação, sem alembamento, ainda por cima, sem profissão, sem herança, sem beleza…”
“Mas força de homem tens. Que mal te podem fazer?”
“O mestre esqueceu que Rei é sempre a Lei?”

A dado momento, a mulher do Rei interrompia para servir chá com batata-doce fervida.

 “Pago duas galinhas, um porco e um cabrito, mestre. Me tira só a chave. Faz Milagre”
“Que chave, rapaz?!”
“A cuspideira. Se quando eu for lá, eu alegar que não engravidei a menina, uma vez que a natureza não me deu o equipamento cuspidor de gravidezes, escapo…”
“E depois, quando a criança nascer e ficar parecida contigo?”
“Aí já passou o tempo, nervo do rei já envelheceu e também já criei condições.”

E lá foi apresentar-se ao Rei. A meio da reunião, que ia muito acalorada, o réu justificou-se inocente, já que não possuía testículos nem um pénis competente… Como se já não bastasse o desmaio, o Rei viu-se ainda obrigado a pedir desculpas ao incapacitado sexual pela alegada humilhação. Tinha resultado o poder do milagre!

Ao aproximar-se da casa do feiticeiro, o incapacitado sexual notou um aglomerado. Óbito. O doente deve ter chegado em fase terminal, pensou. Mas quando já se podiam ouvir com clareza os jograis típicos do choro africano, qual não foi espanto dos enlutados ao ver um desconhecido correr feito louco em direcção ao defunto. O feiticeiro estava inerte, vítima de uma cobra cuspideira a caminho da lavra. 
“Mestre, não faças isso comigo!!! O equipamento? Como fica a minha cuspideira de homem, mestre?!”

Moral: "Cakusanga vuti, linga eti ndimunu; ku kalinge eti ndi nde" (provérbio Umbundu) – Se algo te encontrar na árvore, diz mesmo que és pessoa; não colmeia.

(*) Adaptação feita por Gociante Patissa, Benguela, 29 Fevereiro 2016
www.ombemba.blogspot.com

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