sexta-feira, 7 de setembro de 2012



Osimbu handi ka pali olombongo, omunu olanda eci ayongola lapako akwete – nda eci alima, nda eci atekula. “Tô-la-tô” oyo yasyata onjongo. Ocisungo twanena cayumwe olisyõsyõla. Tupatekeli okuti o “c” oyo o “c” tuyitanga /t∫h/. Cakwavo ceci okuti, kUmbundu, evi ololetala ndeti vipopelwa olonjanja vyosi vwanyunlu: B (mb), G (ng), D (nd). O R kwenda o Z ka tuvikwete kUmbundu.
Foto: Blog Dorium

“Onanga ya papai 
ka yambalele
Cambala osanji yange
Yekondombolo
Nda sa kwatele osanji
Yekondombolo
Onanga ya papai 
nda sa yimwinle”

Enquanto não houver dinheiro, a pessoa compra o que pretende com os bens que possui – quer do cultivo, quer de criação. “Cheio-por-cheio” (permuta unidade por unidade) é a medida mais comum. A canção que trazemos é de alguém que lamenta. Vamos lembrar que a letra “c” é sempre lida /t∫h/ (quanto a isso, não há excepções). Outra coisa é que, em Umbundu, as seguintes consoantes são sempre nasaladas: B (mb), G (ng), D (nd). O R e o Z não existem em Umbundu.

"O pano do meu pai 
não me doeu (custou)
Doeu-me o meu galo
Se não tivesse galo
não teria visto o pano
Do meu pai".

terça-feira, 4 de setembro de 2012

No bairro da minha mãe, vive-se uma onda de assaltos a residências. Os moradores dormem de sobreaviso. Nestes casos, justifica-se a expressão idiomática que vamos hoje aprender.

- Walale?
- “Wangombe, apamba lilu”

- Como passaste a noite?
- Ao jeito do boi, os chifres virados para cima.


Vamos hoje aprender uma expressão idiomática, usual quando a pessoa não está propriamente doente mas nem por isso a saúde está completa (ou mesmo a disposição).

- Ndati uhayele?
- “Wambwa, kwatwín kuliwa”

- Como vai a saúde?
- “Ao jeito do cão, as orelhas sendo roídas” (ou seja, assim, assim). 

Sali po ciwa! - Fiquem bem.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

domingo, 26 de agosto de 2012

Corresponde a: "se a barba alheia arde, põe as tuas de molho".
Tradução literal: se os  animais comem/destroem lavra de outrem, não hesites em enxotá-los, pois quando derem cabo de tudo, tua lavra não escapa.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Tradução livre:
Dizemos "agarra a outra ponta", quando sabemos q temos alguém do outro lado, ou seja, o fardo, quando partilhado, pesa um pouco menos).

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A política, do jeito que é feita em Angola, se não tivermos cuidado, pode funcionar como aquelas donas de casa que não criam união no lar. Viva a paz. Saudações!

domingo, 29 de julho de 2012


Em 116 páginas, o livro de bolso "não pretende ser um ensaio filosófico sobre a filosofia Bantu, mas sim uma pista, uma referência para os cultores da língua Umbundu; e é sobretudo uma demonstração para aqueles que recorrem à adopção de nomes estranhos sem qualquer contexto histórico nem cultural do protagonista", lê-se na introdução.

Da pág. 7 à pág. 30, Yambo discorre sobre pressupostos sobre os quais assenta o nome tradicional entre os Bantu, quase sempre proverbial como se sabe. 


Já da pág. 31 em dianteo autor entra propriamente para a descrição dos nomes, uns grafados de acordo com a ortografia convencional Bantu aprovada pelo CICIBA (Centro de Investigação das Civilizações Bantu), outros apresentados também com a corruptela resultante da conhecida por “grafia Católica”, aquela instituída pelo regime colonial português – esta última é a que predomina nas instituições de registo civil e outras oficiais, sem que no entanto a pronúncia “aportuguesada” (porque determinados sons não encontram correspondente em português) tenha relevância alguma no meio de origem.

Mas como obviamente não podem caber aqui todos, vamos dar uma amostra apenas, começando com o primeiro nome da lista:

Bongue – deriva de Mbonge:
1.      Uma planta medicinal que cresce nos morros fazendo alusão à autoridade estabelecida.
2.      Lugar elevado e ao qual tudo se submete.
3.      Por extensão, Fortaleza, Administração colonial.
4.      Como nome de criança, talvez tenha nascido num momento em que o pai se encontrava detido na administração do Posto ou enviado como contratado para os serviços forçados, longe dos seus. Convém assinalar que este nome não se registou no período pré-colonial.

Breve nota biográfica do autor

Francisco Xavier Yambo, nasceu no Dundo (Lunda-Norte) em 1945. Fez os estudos secundários no Colégio de St. André (Tshikapa, junto dos Frères de Tilbourg, Bélgica) e especializou-se em ciências Antropológicas e Técnicas Documentais (Biblioteconomia, Museologia, e Arquivologia) na Universidade de Lumbumbashi – República Democrática do Congo, em 1973.

Trabalhou na Recuperação do Museu Regional do Planalto, do qual foi director de1979 a 1997, foi colaborador do núcleo do ISCED (Huambo), na cadeira de História de Angola e Professor de Antropologia Regional (Cultura Bantu) no Seminário Maior do Cristo Rei (Huambo).

É ainda autor do Dossier Ngangela – Motivo Suficiente para um Estudo Científico de Etnonímia Angolana (INALD, Luanda, 1997).

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Calomboloka okuti: nda watambula ukombe, utata ciwa, omo akuti henla na henlana wenda ale. Nda wotata lãvi, noke wiya oyeva osõi eci eye ainda.

Quer dizer que: quando receberes visita, trate-a bem, porque visita é passageira como a núvem. Se a tratas mal, depois te arrependes quando não mais estiver em tua casa.

quinta-feira, 26 de julho de 2012


"Lembro-me de um episódio interessante com uma amiga do Ghana. Ela perguntou-me qual era a língua africana que eu falava e eu disse que nenhuma. Ela perguntou qual era a nossa língua e eu disse português. E ela disse: “Sim, sim, mas isso é a língua oficial. Mas depois existem as línguas de Angola. Qual é a língua que tu falas?” E eu respondi que nenhuma. E ela disse: “Como é que tu queres ser africano? Só porque nasceste lá?” Eu quis justificar que nós, em Angola, procurámos destribalizar, dar uma noção de unicidade, de identidade comum. Mas, ao mesmo tempo, não podia negar que era prejudicial relegar as nossas línguas ao esquecimento e não termos aprendido mais esse elemento cultural que nos identificasse. Senti-me um bocado diminuído perante os meus colegas africanos."
Luaty Beirão, in «Maka Angola»


Nota Ombembwa: Essa desculpa de unicidade para justificar a negligência institucionalizada (e também individual) relativamente ao investimento no estudo/estruturação/ensino e aprendizagem das línguas nacionais é uma mentalidade que não devíamos ensinar às crianças. Triste, só reflecte a visão domi(alie)nante. Os namibianos, que têm quatro línguas nacionais por aí, a par do Inglês, são mais ou menos unidos por isso? Por que o haveria de ser em Angola, só porque os movimentos de libertação tinham como base de apoio as regiões geográficas e étnicas da sua fundação?

segunda-feira, 9 de julho de 2012

- Pirão/funji de/com lombi e peixe (fresco grelhado). Bom apetite ao almoço.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Devagar, devagar, está indo

domingo, 1 de julho de 2012

"é na forma de fazer a cama que se nota quem é desajeitado ao dormir"

sábado, 9 de junho de 2012

Tradução literal: não é de deixar o piolho dentro da trança, quando for ela a trançar o cabelo a alguém.
Explicação: Não leva desaforos para a casa.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

domingo, 13 de maio de 2012

  - Minha interpretação (1), é sempre um limite quando dependemos de outrem para exprimir voz, (2) Não manipules a boca de outrem quando quiseres exprimir algo.

sábado, 5 de maio de 2012

domingo, 29 de abril de 2012

sábado, 28 de abril de 2012



SOCORRO: Alguém me ajuda a desactivar janelas pop-up involuntárias nos meus Blogues http://angodebates.blogspot.com e http://ombembwa.blogspot.com?

Como geralmente uso google chrome, não me tinha dado conta. Fui advertido por um leitor e parceiro, o que vim mais tarde a confirmar usando windows explorer. Pelos transtornos, até o problema ficar superado, as minhas sinceras desculpas. 


terça-feira, 24 de abril de 2012


“Tio” Zé Katchiungo é dos cantautores dos prantos da nossa gente e também dos nossos valores culturais. Na canção dele, “Ngeve”, encontramos o relato de amores desfeitos enquanto os rapazes tiveram de cumprir o serviço militar obrigatório.

Ocisungo casonehiwã ndomo - Eis a letra

Ongeva onjivaluko (saudade é recordação)
omunu lokimbo lyaye (a cada um a sua terra)
nda likasi ocipãla (se está longe)
ojongole yokutyukila (o desejo é regressar)
eh mama we (oh mãe)

Ongeva onjivaluko (saudade é recordação)
omunu lu valisole (a cada um o seu amor)
nda valitepatepa (se estão separados)
onjogole yokulisanga (desejo é o reencontro)
eh mama we (oh mãe)

Ame nda kucipopya siti (eu te disse)
Kolela (que aguentasses)
ovita ndopo vipwa (a guerra logo cessaria)
tulisanga a Ngeve (eu voltaria para ti)
Ame okwimba ko ekosi (mal dei as costas)
vo mablãu sa pitilinle (sequer tinha subido no avião)
ove Ngeve wakwela Njuaki (tu, Ngeve, casaste o Joaquim)
Kwa ñwatisile a Ngeve (não me ajudaste, ó Ngeve)
Ngeve, Ngeve (Ngeve, Ngeve)

Ove okasi no Wambu (Voce que está no Huambo)
lamisa po Ngeve (faça chegar cumprimentos à Ngeve)
Love okasi Ko Mbalundu (Você do Bailundo)
tuma ovilamo ku Ngeve (cumprimentos meus à Ngeve)

A Ngeve, Ngeve (Para Ngeve, Ngeve)
Ka lupukile wasala (Quem não correu perdeu a viagem)


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Quem te atira a bola é porque deu conta que consegues agarrá-la (adágio Umbundu)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

"Quem te tira o fardo poupa-te da maçada de o levantar" (Adágio Umbundu)

domingo, 8 de abril de 2012


 Recém-nascido
 Já são dois. O do fundo fica para a Cristina Galhardo Amado. Ela que se atreva a resmungar o tamanho do abacaxi, nunca mais lhe dou nada. Quem está longe, fica sempre com os sobejos heheheh
 Ligação umbilical entre mim e a fruta. Monte Belo é a comuna que nos pariu a ambos.
  Colhendo "utombo" (mandioca)
 A mana, o sobrinho, o velho Kambuta-comunal e eu.
 A preguiça da chuva
 O maboqueiro para a amiga Dulce Tavares Braga
 "Ocipundo"
 Ponte sobre o rio Kailumba, basicamente um chassis anônimo com mais de três décadas. É um inegável monumento longe dos holofotes.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Cristina Galhardo Amado, como sempre oportuna, passou-me a versão digital de uma gramática Umbundu. É antiga, da época colonial, e não garanto que não tenha imprecisões e até visões dominantes da época, mas também não deixa de ser um material valioso para o que se chama "arqueologia" pelos livros. Grato, sweety! Aqui vai, a quem possa interessar.
http://scans.library.utoronto.ca/pdf/5/22/grammaticadoumbu00pereuoft/grammaticadoumbu00pereuoft.pdf

quarta-feira, 28 de março de 2012

A parte inclinada serve de oportunidade para o cágado pastar (máxima Umbundu).

sexta-feira, 16 de março de 2012

A nossa terra/Angola/está doente/buscamos/com ajuda de Deus/pelo remédio. (Trecho da canção dos Kafala Brothers)

quarta-feira, 7 de março de 2012

O pedaço que cortares da cobra é que é teu.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Advinha!...Tenho um jindungueiro na minha horta, mas não posso colher nenhum. O que é?

Fonte: Grupo ETUMBULUKO LYE LIMI LYUMBUNDU (grupo no facebook)



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Não tenho mais que me preocupar em pentear o cabelo, estou de férias no serviço, para aproximadamente um mês. "O burro, quando se cansa, morde".

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Adágio Umbundu (Se te comprometes a herdar o casaco do Rei, herdas os piolhos nele contidos)

"Angola é a colónia mais aportuguesada, aquela em que as culturas autóctones mais foram reprimidas. É o país onde menos se falam línguas africanas nas ruas, então há uma hibernação do aspeto étnico-tradicional, mas que funciona depois nas manipulações, entre quatro paredes." (Marcolino Moco, In «Club-k», 08 FEVEREIRO 2012)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Elombolwilo: Komwenyo kuvala; cimwe, una nda wasesamenla eye kakwete. Ndeci ño pana pasiata owangu uwa, ongombe ka yipo.

Olusapo lwalisetahãla wowu: "Onyma yiwa ka yomonli omõla"

P O R T U G U Ê S

"Onde há capim, não há gado" (adágio Umbundu)
Explicação: A vida é complexa; Às vezes, aquele que merece não tem. É como lá onde há bom capim mas o gado não conhece.

Adágio relacionado: "Costas aconchegantes não vêem bebé"

sábado, 21 de janeiro de 2012

"Olopandu tu kwimbila (graças te rendemos)
a Suku (ó Deus)
Olopandu tu kwimbila (graças te rendemos)
a Suku (ó Deus)
Tu kemanya onduko yove (evocamos o teu nome)
omo lyovikomo walinga (por causa das tuas maravilhas)
Olopandu tu kwimbila (graças te rendemos)
a Suku" (ó Deus)


domingo, 15 de janeiro de 2012

Elombolwilo: Kolonele vyo ko Ndombe inene, vo luhumba wo Mbaka, ko Kalweke, okaimbo kamwe klisungue lo ko Munda-ya-Vaimbo, ndomo twasapwuilwa ko, kuli umwe owiñi wolonyitiwe vyo Ngola a kuti ovina vyo sikola ka va vilete ciwa. Cimwe ocisoko cetavo oko caindele, noke vatulombolwila ko nda mupi olonunga imbo vilete omwenyo (kulima wa 2011).


Omãla yo ka vaindi ko sikola, oku lilongisa?

- Omãla ka citava vatanga, u watanga okatela ovota. Etu omo akuti ka twatangele, ka tuteli ovota, tukasi ño cetu. Ovota va neniwa lava vatanga.

Oco nda ka wutangi, ndati utepisa onoleke, okuti unyamo wapwa kwenda wakwavo ufetika?

- Nda kwatekãva, oco mwenle kwiya kuca ale, ka tusukila oku kondala oloneke.

Cisukila nda utava kondaka ya Suku, ukwata onepa ko nembele.

- Pala nye? Mbi kwenda omãla, etu, twakulu, ka tusukila. Olongombe tukwete, ombela yiloka, eci tulima, tulya.

……………………….

P O R T U G U Ê S

Explicação: No território do Dombe Grande, província de Benguela, há uma povoação chamada Kalweke, próxima da localidade montanhosa de Munda-ya-Vaimbo, conforme chegou ao nosso conhecimento, onde há uma comunidade bastante conservadora em termos de visão do mundo, de tal modo que dispensam o ensino escolar. Um grupo cristão que tem ido ao local evangelizar partilhou connosco parte de um relato actual (2011)

Não seria importante criar condições para escolaridade das crianças?

- Não é bom que as crianças estudem, quem estudou inventará armas. Nós, que não andamos na escola, não fabricamos armas, vivemos a nossa vida ao nosso jeito. As guerras são-nos trazidas por pessoas formadas.

Então, se não têm escolaridade, como conseguem contar o tempo, dizer que um ano acabou e estamos noutro?

- Quando anoitece, sabemos logo que vai amanhecer. Não precisamos de contar os dias.

É necessário aceitar a palavra de Deus, participar na igreja.

- Para quê? Só se tiverem de ir crianças. Nós, adultos, não precisamos. Temos gado, a chuva cai, se cultivamos, comemos.


Gociante Patissa, Benguela 15/01/2012

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012


Tanga lonjanga, tala nda ku lipunduka komenla (Veja se consegue ler rápido sem se engasgar):

“Akwi atatu kwatatu, kwatatu atatu” (são 33 tatus (animal))





quarta-feira, 4 de janeiro de 2012


Tanga lonjanga, tala nda ku lipunduka komenla (Veja se consegue ler rápido sem se engasgar)

“Ava vavava avava a vava” - (Os que costumam oferecer asas são estes)


domingo, 1 de janeiro de 2012

 


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Quem atira coisas para a outra margem do rio espera atravessar (adágio Umbundu)


Ociluvyaluvya co vo (imagem da) Internet

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011



Velha-Mbali encontrava-se a repousar no cadeirão da varanda desde a sua chegada. Confundiam-se, no bocejar, os solavancos da viagem e os restos do sono de quem madrugou para apanhar o primeiro autocarro intermunicipal da SGO. As pausas prolongadas e a economia de palavras eram parte da recuperação do efeito dos vómitos. A anciã teve o incómodo já previsível de usar saco plástico para lançar, foram três vezes nesta viagem de setenta quilómetros para ser mais preciso, uma fatalidade que decerto não será digerida nesta encarnação.

Qual sino de boas-vindas, o efeito acústico resultante do atrito entre a loiça e os talheres, enquanto punham a mesa, lisonjeava os ouvidos da hóspede. Chegava também com agrado a fumaça do peixe na grelha, que era a segunda paixão que Velha-Mbali guardava da cidade depois da família.

Velha-Mbali herdou da mãe uma beleza que compensava a estatura baixa do lado paterno. O rosto era a única vitrina para se lhe ver a pele semi-flácida, obra da idade. Usava panos compridos, de arrastar o chão, como manda a tradição. Os cabelos, maioritariamente brancos, salientavam a ligação entre o lenço e o quimone, ambos de tecido azulescuro de pintas brancas. A sorte de nascer imune à cárie era responsável pela capacidade de competir com os netos em matérias de mastigar, fosse o que fosse. Como é claro, empatava também na hora de palitar.

E enquanto a deixavam descansar sob a sombra da trepadeira, aguardava pelo almoço, calada, mas sempre atenta ao mínimo movimento no quintal. Era esta última a característica que os netos maisgostavam nela: ser fértil em análises dramáticas das makas da sua gente.

A fadiga da viagem não duraria muito, cedo seria suplantada pela emoção de rever os netos, agora bem crescidinhos. Bálsamo mais milagroso do que isso seria, aliás, impossível. Sentia-se inclusive rejuvenescida ao ver a neta caçula, sua chará por sinal, com mais de dez anos. E isso era suficiente para se dar conta da longa ausência na vida dos seus entes, pelo menos fisicamente. Mas para além do desconforto com as viagens por estrada, infelizmente a única via, Velha-Mbali considerava improcedente o convite de viver a beira-mar. E exigia que se respeitasse a sua posição, vontade que resultara com os adultos, mas não com os netos, que eternizavam o debate.
— Ó avó — rompeu o silêncio Waldemar, o primogénito —, a avó veio para ficar já, não?
— Não, kanekulu… Avó vem comer só natal!

E a conversa ainda continuou após o almoço. Para convencer Velha-Mbali a optar por uma vida mais relaxada, os netos esgotaram todos os argumentos de vantagem da cidade sobre o campo. Ao fim de várias horas de debate, por sua vez carregado de mimos no colo e paternalismos de vária ordem, sentenciou Velha-Mbali:
— Omwenyo Okulima, olohombo ovyo vilia opapelo.[1]
.
Convencidos de que a sua forma de ver a vida era a mais acertada, os netos matavam-se de rir aos exageros da avó que, por sua vez, também se divertia rindo, com agradável malícia, da ingenuidade deles. Mal cabia na cabeça da anciã que alguém maior de doze anos viva dependente dos pais, quando no campo seria capaz de gerir a sua própria lavrinha. Os netos, ajudados pelos pais, chegaram ainda a sugerir que, como meio-termo, a avó passasse também o reveillon. Mas ela era boa a refilar:
— O quê?! Se dia da família é dois dias após o natal, o ano novo é como?!

Era propositado o trocadilho, pois que lhe custava digerir as ausências dos chefes do lar, que andavam de prevenção, o pai na marinha e a mãe no controlo aéreo da aviação civil, só regressando ao lar no dia 27 de Dezembro. E no dia da partida, houve mais alegria do que tristeza. Com a presença da avó, o natal daquele ano foi diferente.

Todas as vezes que veio à cidade, Velha-Mbali se deparou com deselegantes surpresas, mas a desta vez, batia seguramente todos os recordes. A anciã chegou mesmo a tossir de choque ao cruzar com miúdo de doze anos apenas, não mais do que isso, girando a cidade para cima e para baixo com cuecas e sutiãs de mulher adulta no ombro a gritar: «arreou, arreou no negócio, é a última zunga do ano!!!»

E como a ousadia é a alma do negócio na zunga, o rapaz abordou-a insistentemente, para não dizer chatamente:
— Minha mamoite[2], arreou na tanga; olha “mónica”; táqui surtião… Velha-Mbali ainda tentou fingir indiferença, mas não aguentou.

Arremessou, com toda a violência, o galo de raça contra a cabeça do adolescente:
— Vai faltar respeito na tua mãe, que não te deu educação!!!

O zungueiro, que nunca vira tão intempestiva reação de potencial cliente, logo uma “mamoite”, meteu-se a correr. E no máximo da sua quilometragem!

E devia ter uma cabeça muito rija mesmo, o zungueiro, já que o impacto da pancada fez rebentar a corda que imobilizava as patas do galo. Este, que não imaginava as fêmeas que por ele esperavam para reprodução lá no kimbo, meteu-se em fuga no frenético trânsito urbano em hora de ponta. Era ver o desespero da anciã diante do risco de perder o animal. Isso é que nunca! Eis que arregaçou o espírito, e lá ia atrás do galo, ela que também já não tinha lá muita juventude nas pernas. De repente… — puapualakatá, pumbas! — acabava de ser atropelada por um kupapata, que vinha em sentido contrário.
— Netele, a njali, ndakapele okuteta onimbu[3]
— Amõla wange, watopa muele cokuti vetapalo omo oteta onimbu?![4]
— Vangecele, mamã[5]… — suplicava o kupapata, enquanto se levantava do chão e inventariava os danos.
— Mbi cakulimba okuti olikondakonda opitaela?![6]

O kupapata de imediato ligou para o serviço de bombeiros, que localizou a família e levaram Velha-Mbali ao banco de urgência. Algumas horas mais tarde, estava aplicado o gesso. O kupapata tinha muitos danos, a começar mesmo pela compra de outro galo de raça — regressar de mãos a abanar é que Velha-Mbali não aceitava de modo algum!

Conscientes de que o pior havia passado, os netos partilharam com a avó a alegria de saber que, finalmente, passariam juntos o reveillon. E a velha ainda conseguia fazer troça da própria perna engessada:
— A maka é que na cidade metem perna branca!!!

Gociante Patissa, in «A Última Ouvinte», UEA&Gociante Patissa, 2010
PS: à memória da tia Adelina Mbali Manuel Patissa


[1] Viver é cultivar. Comer papéis — ou seja, dinheiro — é coisa de cabritos
[2] (calão) mãezinha
[3] É desculpar, minha mãe, a intenção era fazer corta-mato...
[4] És tão parvo assim, meu filho, que queres corta-mato na estrada?!
[5] Perdão, mãezinha
[6] Esqueceste que quem contorna também costuma chegar?!


A minha mãe partilhou connosco trecho de um cântico que costuma animar senhoras do grupo coral da sua igreja em cerimónias especiais, a exemplo de casamentos. O templo está situado no Morro do Alto-Niva, município da Catumbela. Suas colegas, que não ela, são predominantemente Vacisanji, subgrupo étnico (Ovimbundu) que habita a circunscrição administrativa do município do Bocoio, a 100 quilómetros da cidade de Benguela, capital da província como mesmo nome. A canção, de cuja letra completa a velha não recorda, agradou-me bastante, não só pela entoação, mas essencialmente pelo seu alcance poético:

“Kulo ka kuli akondombolo / Kucaca ndati?”

Traduzindo:

“Não há cá galos / Como tem amanhecido?”

Faz lembrar o papel universal do galo, o de anunciar o novo dia. Ora, na sua ausência, como saberemos que já amanheceu? Pode-se também interpretá-la no sentido de desmentir a inexistência de galos: se é o galo quem anuncia a madrugada, ora, e as madrugadas continuam a existir, logo, há galos.

Minha mãe, que não sabe dizer que despertador o galo usa para despertar os humanos, tem contudo uma certeza: madrugadas sem galo cantar são sem graça.

Recolhido por Gociante Patissa, bairro da Santa-Cruz, Lobito, 21 de Dezembro de 2011

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Aquele que empresta gosta de confusões. (máxima Umbundu)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Elomboloko: Olusapo wasyata pana okuti capopiwa ka cikoleliwa, cikasi ño ndo hombo, yina okuti owangu atakinla, noke te wapitulula lo kulukula.


Português: O que o cabrito mastigar não está bem triturado (máxima Umbundu).


Explicação: Diz-se de situações em que a palavra não é credível, daí o paralelismo com o cabrito, que precisa ruminar ao longo do dia.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Quando alguém fala, há que ouvir a voz por de baixo da língua (entrelinhas) - Máxima Umbundu

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O cágado não trepa (para) o tronco da árvore, é porque alguém o colocou lá (provérbio Bantu).

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Não é por deixarmos de ver as coisas que deixamos de as sentir (máxima Umbundu)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Onde a cabeça não passa, pior ainda o corpo (máxima Umbundu)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

(Traduzindo) Máximas Umbundu: "O outro não te ensina a ser parvo, é porque já o foste antes".

Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa 2015

Vídeo | Lançamento do livro A Última Ouvinte by Gociante Patissa, 2010

Akombe vatunyula tunde 26-01-2009, twapandula calwa!

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