terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O rio, em Umbundu e demais línguas e dialectos da região, até mesmo para as etnias Vakwisi e Vakwandu, chama-see Kupolôlô/ com as vogais das três últimas sílabas abertas. Não é nem nunca será "coporólo, como se teima em mantê-lo registado."


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Fiquei na dúvida sobre a moral de uma fábula, ou ao menos do essencial que me foi contado, se a atitude do personagem é para ser vista pela positiva ou pela negativa.

A narrativa é atribuída ao escritor Uanhenga Xitu (cujo pseudónimo seria a conversão para a língua Kimbundu de um adágio Umbundu, qualquer coisa como “wayenga ositu olonyi vyukwãyi”, ou seja, aquele que prepara a carne é seguido por moscas).

Havia uma assembleia de animais, com representatividade de todas as espécies. Devia ser grande a despesa, estou mesmo a imaginar, tendo em conta a logística que geralmente caracteriza grandes encontros, muitas vezes, como cantou certa vez um amigo, gastando nos comes e bebes muito mais do que o necessário para resolver o problema analisado. Bom, eu já é que estou a aumentar. O outro contou apenas que o encontro levava umas boas horas de conversa (nunca faltando uns que ressonam, já cientes de que só por milagre lhes seria concedida a palavra). Aí, discussão maus discussão, começa a chover. Chuva mesmo de gotas de um litro, o quase, impondo dispersão.

Cada animal saiu dali a correr para o conforto do seu pequeno mundo, aquilo a que os biólogos chamam de habitat, quase sempre acolhidos por generosas árvores ou arbustos, não esquecendo os das tocas e cavernas. Tudo isso, para escapar da chuva, não molhar. O jacaré também, aliás no mesmo instante que os demais, foi a correr para o rio.

Voltando à dúvida. O jacaré teria sido movido por solidariedade, ou seria a negação si mesmo, para assumir identidade alheia, nessa busca de status? Vamos ao debate.

"É azar/ é azar/ o sapo pediu-me tabaco/ disse/ ó Burity/ deixa-me fumar um pouco do teu cigarro"

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Nova Gazeta:Acha que angola está a perder as raízes culturais?

Abel Dueré (à esq.): Totalmente! Por um lado, há jovens que preservam a cultura, o tradicional a todo custo, mas existe uma atenção muito maior de um tipo de música que de certa forma não é a da nossa sanzala, mas é a do guetto, que é influência americana e brasileira. O próprio Ku-duro está a virar funk brasileiro. Lembro-me da maneira como se dançava e hoje já vejo as pessoas a passar a mão nos órgãos genitais. Isso não é angolano, mas sim dos outros. A nossa dança sempre foi sensual, e ela, hoje, é sexual.

Jornal Nova Gazeta, edição Nº 83, 30 Janeiro 2014, pág. 30

Foto ilustrativa apenas (reporta um encontro na praça Tereza Batista, Salvador da Bahia, durante a 6ª Bienal de Jovens Criadores da CPLP)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014


Enquanto vinha para o serviço esta manhã, servia-me de companhia a emissão matinal da Rádio Mais. Entre um tema e outro, surge a voz de Diabick, o nosso lobitanga que se encontra adoentado em Luanda. A música "Ene a manu" adopta também a animação "Sakatindi", do cancioneiro Ovimbundu, grupo etnolinguístico angolano de origem Bantu.

Sakatindi é uma dança tradicional com toques sensuais, umbigada, mais ou menos como na dança rebita, onde os integrantes da roda a dado momento se encontram aos pares (homem/mulher). A palavra Sakatindi, não me ocorrendo por enquanto sinónimo, diria que funciona um pouco como interjeição. Mas por que carga d'água venho agora com esta ladainha?

Ora, há uma passagem da canção que sempre me soou a ruído. E todos os artistas que adoptam a canção, e olha que não são poucos, caem no "erro" de pronunciar "ukãyi wanjepele, ukãyi wanjepele, ulume ocitende". Traduzindo, "a mulher da Isabel, a mulher da Isabel, o marido é parvo". Não faz muito sentido, já que Njepele é Isabel em Umbundu. Foi daí que certo dia interpelei meu avô paterno e xará, que disse tratar-se de uma degeneração de uma máxima Umbundu. O certo seria "ukãyi ka endi epenle, ukãyi ka endi epenle, ulume ocitende", que em português corresponde a "se a mulher sofre nudez, se a mulher carece de roupa, é porque o marido é parvo".

Eis então a letra e tradução livre para o português:

Onguya yange ndasile posamwã (Deixei fora a minha agulha)
yokutunga olonanga (de coser panos/tecidos)
Onguya yange ndasile posamwã (Deixei fora a minha agulha)
yokutunga olonanga (de coser panos/tecidos)

ukãyi ka endi epenle (se a mulher não tem roupa)
ukãyi ka endi epenle (se a mulher não tem roupa)
ulume ocitende (é porque o homem é parvo)
ulume ocitende ongandu yuñwatele (já que é parvo, que o jacaré o ataque)
Sakatindi! Sakatindi! Sakatindi!

Esta é a versão de meu avô Manuel Patissa, que me parece muito mais perto de fazer sentido. Se você tiver outra, não hesite em partilhar.

Gociante Patissa, aeroporto da Catumbela, 11de Maio de 2011

"Ufeko ndalota, lomenle ndomõlã"
Alguém arrisca na tradução?

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Kanjala - pequena fome
Canjala - relacionado à fome; propriedade da fome.
Ou seja, o nome de cada localidade conta uma história. Graças ao novo registo do MAT que visa ressuscitar a corruptela colonial, acabar-se-á com a memória da toponímia.

Q1: Se temos um país que é um conjunto de nações, o tal mosaico etnolinguístico e cultural, de onde é que tiramos a ideia de que o semba é a bandeira musical angolana?
 
Hipótese: "A capital geográfica do poder é também o centro dos padrões" (autor desconhecido). Nesta óptica, se a capital angolana estivesse no Leste, muito provavelmente seria o ciyanda a música/dança com maior investimento oficial e visibilidade.

Um olhar para lá do exótico: a dança, quase sempre associada à canção e ritmo peculiares está, na maioria das etnias africanas bantu e pré-bantu, associada à vivência dos povos, desde a celebração da caça, combate ou colheita sazonal, à súplica aos deuses. Naturalmente, tendo em conta que cada povo vive conforme a sua idiossincrasia, o semba poderá não significar rigorosamente nada, excepto algo que deve merecer o respeito pela cultura "do outro", vá lá, para outros povos do território angolano.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014


À parte o lado triste que geralmente é a base dos encontros familiares, vale a riqueza da tradição oral. Hoje ouvi um aforismo que me fez rir, tal é a teatralidade imagética que encerra.

"Olusoko wenene, eteke limwe osokola una okuvinda."

Explicação: olusoko vem de okusokola, que é falar mal de alguém na sua ausência. Okuvinda é fazer tranças ao cabelo de alguém, tarefa em que, na maior parte das vezes, quem executa as tranças fica sentada atrás da beneficiária.

Agora vem a tradução: de tanto hábito de falar mal de quem não está presente, qualquer dia, tu falas mal de quem está precisamente a fazer tranças ao teu cabelo.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Em conversa no facebook, o meu amigo Isidoro Natalício colocou-me a questão da grafia dos nomes de origem bantu (topónimos e antropónimos). Referia-se o amigo Isidoro que a TPA tem-nos escrito de forma diferente àquela que eu uso na grafia dos "nossos" nomes.
 Luciano Canhanga, in http://mesumajikuka.blogspot.com/

Tendo em conta a importância do assunto, ainda que o debate e as conclusões sejam superficiais, julguei oportuno partilhar as ideias que defendi nesta página que é menos volátil ao tempo.
1º - Os topónimos obedecem, para além da atribuição da designação, a um registo. Esse registo é válido até que o topónimo mude de designação ou se corrija a grafia. Para exemplificar, devo dizer que nos cadastros, a província angolana a sul ro rio Kwanza está registada erroneamente como "Cuanza-Sul" em vez do que seria expectável, Kwanza-Sul. O mesmo se pode aplicar ao meu nome Canhanga que devia grafar-se Kanhanga para obedecer ao alfabeto convencionado pelo CICIBA (Centro de Investigação das Civilizações Bantu). 
2º - As regras do CICIBA para a ortografia das línguas bantu diz que a letra C tem o fonema de TCH, TX, TSH. Exemplos: Cikala-Colohanga, Cindjendje, Citembu, Civingiru, Citende Cya Zango, Cipalavela, etc.
Sempre que as vogais I e U estejam  junto de outras, as primeiras devem mudar para Y e W. Exemplo: "muanha" (sol) deve grafar-se correctamente "mwanha); "dinianga" (abóbora) deve grafar-se "dinyanga"; "kizua"=kizwa, etc.  

Para obtermos o fonema equivalente em Português a "C" devemos grafar "K". Kanhanga, Kambundi-Katembu, Kalulu, Kahála.
Não sou telespectador atento da TPA e não sei dizer se grafam de acordo aos registos portugueses ou se de acordo ao alfabeto das língua bantu. De uma coisa, porém, tenho certeza: É preciso corrigir urgentemente os registos dos nossos topónimos (calculo que o MAT- Ministério da Administração do Território-  tenha já um projecto nesse sentido) e passar-se a exigir que haja uma grafia correcta dos topónimos de origem bantu. 

Não se pode aceitar que a nossa moeda seja Kwanza e o rio que lhe dá o nome ainda se designe Cuanza. O que se passa hoje é que não há rigor. Cada escreve como bem entende. Eu que sou adepto da grafia segundo a originalidade dos nomes, tenho grafado como será no futuro. Para o presente, pode ser que alguém considere o meu procedimento errado.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014



sexta-feira, 17 de janeiro de 2014


UMBUNDU: Upi wokufula (okusula) osema yepungu kwenda akuluwela vutombo, pwãi ukwete vo esilivilo kokusopola efwanga (eswanga); Olwiko wokupika ohita kwenda ekela, pwãi olonjanja vyalwa ukwete esilivilo lyo kukangisa una walweya; ohunya yokuliteywila ale oku kangisa. Pwãi, okutala ciwa, ovikwata evi vya syata vimwe olonjanja okukangisa lavyo omanu kwenda ovinyama.

PORTUGUÊS: Dois destes três artefactos pertencem ao processo de confecção de alimentos, sendo que o "upi" traduzido como "piso", usado para triturar bagos de milho ou mesmo porções de mandioca, na produção de farinha, mas serve também na preparação das folhas de mandioqueira (prato conhecido pelos nomes de kizaka ou sacafolha); "Olwiko", geralmente conhecido como muxarico (na parte norte), remo ou lemo (na região sul) serve para confeccionar pirão/finji e também papa. Já a "ohunya", moca, dispensa explicações. No pior dos usos, todos estes objectos alguma vez na vida já tiveram parte na tortura física humana e não só.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Uma das questões que inquietam quem acompanha os serviços de informação radiofónica reside na prática cada vez mais comum: os locutores de línguas nacionais (de matriz africana), a quem designamos de jornalistas, são em boa verdade meros tradutores da edição em português. O que é pior, a tradução/interpretação é feita a quente, de improviso, sem texto, com os tropeços e deturpação que se podem imaginar. Um exemplo é peixe seco ser traduzido como "ombisi yomukaku" (quando "mukaku" significa assado). Enfim, se jornalismo é recolha, tratamento e difusão de informação, os nossos locutores em Umbundu não passam de vítimas da subalternização, onde a língua oficial segue como factor de auto-negação identitária. Na realidade Umbundu que domino, caso das províncias de Benguela e Huambo, a Rádio Mais do planalto é a única que experimenta um serviço autónomo, onde os noticiários incluem registo sonoro dos interlocutores em Umbundu. Como até somos dados a imitações, não custava seguir-lhes o exemplo.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Foto de autor desconhecido
Como a estação chuvosa tinha sido fraca, a aldeia vestia-se de carência. Pirão de milho ou de bombó à mesa? Quanto luxo! O povo comia mesmo era pirão de batata-doce, jocosamente conhecido por alcatrão, dado o tom castanho torrado.

Para piorar as coisas, o frio tem o hábito de tornar a rama (folhas de batateira) amarga, de sorte que pouco sabia para conduto. Infelizmente, o caudal do rio andava perto de seco, tornando impossível a pesca continental. O talho do velho Mango até tinha alguma carne, mas só para os ricos, nada tendo de valor os aldeões comuns com que permutar.

Entretanto, é em tempos difíceis que os actos de bravura mais se evidenciam. E para desafiar a crise, lá os homens todos da aldeia decidiram realizar a caça colectiva. Uns ateavam fogo ao capim, outros agitavam os animais escondidos, enquanto os demais empunhavam flechas e azagaias, ajudados por cães – cujo tributo não passava de osso limpo e míseras tripas, quando sobrassem. A carne devia ser repartida em iguais porções. Festejava-se cada regresso, não tanto pela quantidade, mas porque a aldeia via na caça uma escola de transmissão de valores e costumes entre gerações.

Mas houve alguém que achava que, caçando só, mostraria mais valentia. Além do mais, como não teria que dividir a carne, mesmo que abatesse um só coelho, bem chegaria para uma refeição com a família. Chamava-se Kameia. Foi então que, em mais um dia de caça, Kameia foi espreitar na sua “etambo” (cubata dos espíritos) para agradecer aos antepassados. Deixou lá ficar uma bola de pirão e, já cumprido o ritual, seguiu.

A mata estava mais calma do que o habitual, só os pássaros ofereciam a sinfonia natural ao vento. Não se viam borboletas. De repente, Kameia ouve um barulho, olha à sua volta e vê um tigre. O bicho procurava escapar da perseguição de um leão que estava decidido a matar o inferior hierárquico para não morrer a fome. O caçador, em pânico, não acabasse ele em ementa para os bichos, agarrou-se à mais alta das árvores ali perto. O tigre, desesperado, fez o mesmo. Só depois de atingir o topo, o tigre notou que um pouquinho abaixo estava um homem agarrado a um galho. Como o leão não podia trepar, deitou-se ao pé da árvore, certo de que o cansaço e a fome fariam a presa descer.

Depois de se acalmar, o tigre concluiu que, fazendo cair o homem, o problema do leão estaria resolvido. E começou a pisá-lo na cabeça, cada golpe mais violento que o outro. Mas o homem tinha o medo para resistir. Enquanto isso, o leão, sem pressa, já lambia os bigodes antecipadamente, imaginando o bom apetite que teria ao degustar o tigre.

Cada vez que olhasse para baixo, o tigre empurrava com mais força ainda o caçador que, em retaliação, cortava o galho onde estava pendurado o tigre. A cena repetiu-se até que o galho cedeu. Caíram o galho, o tigre e o Kameia para o chão. Tão grande foi o estrondo da queda, que o leão julgou tratar-se do fim do mundo. Inconsciente, desatou a fugir. Mas não fugiu só ele, fugiram também o tigre e o caçador.

Moral: Para cada corajoso, o seu medo.

Adaptação de Gociante Patissa, recolha de Amós Patissa. Publicado inicialmente no Boletim “A Voz do Olho” Veículo Informativo, Educativo e Cultural da AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade). Lobito, Dezembro/2007

quarta-feira, 27 de novembro de 2013


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

EPISTEMOLOGIA ARTERIAL

Um dia questionamos
o sentido dos sentidos
se algum sentido faz
apregoar a irreversibilidade do tempo
quando pouco menos tem de espaço
para manobras
o ponteiro
senão a circunferência do quadrante.

Um dia questionamos
o sentido dos sentidos
se algum sentido faz
baixar a guarda ao sentimento
na mesma direcção
quando quem madrugou
não soube voltar.

Um dia questionamos...

Gociante Patissa, Benguela 13 Novembro 2013

a sua pré-adolescência e juventude, à parte a militância política, foram marcadas por uma conduta mais ou menos insólita, tratando-se de uma aldeia com predominância cristã. Quando os demais se divertiam praticando o futebol, ele e um primo seu passavam o dia a vestir, ensaiar e sobretudo animar com batucadas características na dança do "Ocinganji", feitos agentes culturais, esquecendo o mundo à sua volta, o que incluía o horário das refeições. Mergulhavam de toda a alma. Estamos a falar do meu pai, pelo que a minha militância pela tradição oral, mesmo tendo deixado o meio rural aos sete anos, está explicada! hahahah


terça-feira, 22 de outubro de 2013

"Cananga mo ceci: olongombe vipokola komunu; omunu ka pokola kwisya yaye" (O que me complica é que o boi é obediente ao ser humano; o ser humano desobedece ao próprio pai) - da música "Nakalngu" de Kupeletela.

Chama-se Kupeletela a voz emergente mais popular na música nos palcos do município do Bocoio, Benguela. O nome, adoptado de uma parábola que na língua Umbundu ilustra a dialéctica da vida, resume-se no seguinte significado: Se vou dormir, perco o convívio; se fico no convívio, perco o sono. Enquanto os apoios não chegam, Kupeletela segue mostrando o que faz e pode vir a fazer, fazendo circular no restrito meio do município e aldeias o seu carisma. é certamente uma voz a ter em conta no que se refere a temas de recolha e divulgação de hábitos e costumes da etnia Ovimbundu, sem perder de vista a observação social de todo um país. Sem variar muito de temática, Kupeletela busca versatilidade de estilos, praticando sungura, o afro house e algum ku-duro. Olhemos para este emergente talento, que é certamente um limão com muito sumo ainda por dar. gociantepatissa@hotmail.com


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Chama-se Kupeletela a voz emergente mais popular na música nos palcos do município do Bocoio, Benguela. O nome, adoptado de uma parábola que na língua Umbundu ilustra a dialéctica da vida, resume-se no seguinte significado: Se vou dormir, perco o convívio; se fico no convívio, perco o sono. Enquanto os apoios não chegam, Kupeletela segue mostrando o que faz e pode vir a fazer, fazendo circular no restrito meio do município e aldeias o seu carisma. é certamente uma voz a ter em conta no que se refere a temas de recolha e divulgação de hábitos e costumes da etnia Ovimbundu, sem perder de vista a observação social de todo um país. Sem variar muito de temática, Kupeletela busca versatilidade de estilos, praticando sungura, o afro house e algum ku-duro. Olhemos para este emergente talento, que é certamente um limão com muito sumo ainda por dar. gociantepatissa@hotmail.com

Chama-se Kupeletela a voz emergente mais popular na música nos palcos do município do Bocoio, Benguela. O nome, adoptado de uma parábola que na língua Umbundu ilustra a dialéctica da vida, resume-se no seguinte significado: Se vou dormir, perco o convívio; se fico no convívio, perco o sono. Enquanto os apoios não chegam, Kupeletela segue mostrando o que faz e pode vir a fazer, fazendo circular no restrito meio do município e aldeias o seu carisma. é certamente uma voz a ter em conta no que se refere a temas de recolha e divulgação de hábitos e costumes da etnia Ovimbundu, sem perder de vista a observação social de todo um país. Sem variar muito de temática, Kupeletela busca versatilidade de estilos, praticando sungura, o afro house e algum ku-duro. Olhemos para este emergente talento, que é certamente um limão com muito sumo ainda por dar. gociantepatissa@hotmail.com

sábado, 12 de outubro de 2013

O topónimo BIÓPIO, comuna do agora município da Catumbela, é corruptela de “VIHÔPYÔ”, nome Umbundu para uma espécie de parasita veluda que resulta da coabitação entre humanos e animais domésticos, muito comum nos lares rurais. Outra curiosidade, a localidade é também chamada de “KAMBUNDU” pelos naturais (ou nativos, para usar aqui designação da época colonial referente a populações não assimiladas), sendo “kambundu” neste contexto uma espécie de infecção que se assemelha à sarna e que afecta o couro cabeludo. Portanto, deve haver peste na origem do Biópio (Vihôpyô).

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O regime colonial, que tanto mal às nossas línguas e à estrutura familiar dos nossos avós fez, manteve o "K" de Katombela, talvez por reconhecer que se trata de palavra com origem em outro idioma de matriz Bantu (não forçosamente latina). Quando somos já soberanos, em pleno século 21, ouvimos falar de um projecto de lei do Ministério da Administração do Território em "dizimar" o "K", "Y" (e porque não o "W") na toponímia. Assim, o KK de Kwandu-Kuvangu passa para o museu, que o que manda mesmo é o "C", tal como em Kanjala. Como digo, de tão iguais que nos esforçamos enquanto herdeiros da assimilada civilização, perdemo-nos. Para que serve o esforço no ensino das línguas nacionais no sistema formal, se aos poucos se legitima oficialmente a aniquilação da memória destas? Segue-se uma matéria sobre o assunto

Nova toponímia do MAT é ilegal
23-09-2013 | Fonte: Jornal OPAÍS
A nova toponímia da divisão político-administrativa de Angola, lançada recentemente pelo Ministério da Administração do Território (MAT), ainda não tem qualquer suporte legal para a sua implementação, segundo declarações prestadas a O PAÍS pelo director do Centro de Documentação e Informação (CDI), deste órgão, Antunes Guanje.

O documento, elaborado pela Direcção Nacional de Organização do Território (DNOT), que pretende devolver a toponímia antiga a várias localidades (municípios e comunas), só será aplicado depois de ser aprovado pelas autoridades competentes, mormente o Conselho de Ministros, segundo Antunes Guanje. “Ainda nada está oficializado, se calhar o documento carecerá de mais contribuições”, resumiu. 

Segundou apurou O PAÍS, os estudos feitos sobre a toponímia, basearam-se na uniformização da grafia sobre a divisão política e administrativa do país, segundo um documento enviado a este jornal em Julho do ano em curso pelo Centro de Documentação e Informação. De um total de 161 municípios que constituem a carta geográfica do país, à excepção da província de Luanda, a maior parte alterará a sua grafia actual.

Como publicou O PAÍS, na sua edição de 23 de Agosto, a nova grafia do MAT extinguirá letras como o “K”, que é usado na escrita do nome de vários municípios e comunas. Haverá também a aglutinação de vários nomes, que na actual grafia não se faz sentir. A maior parte destes nomes deriva de línguas nacionais.

Aliás, após à conquista da Independência Nacional, em 1975, muitas localidades que tinham nomes aportuguesados voltaram a ter os seus nomes originais um pouco por quase todo o país. A devolução de uns e a aplicação de novos nomes basearam-se em factores histórico-culturais e políticos de cada região do país. Como é o caso da legendária cidade de Mbanza Congo, que com a chegada dos portugueses passou a designar-se de São Salvador, o Soyo, como sendo Santo António do Zaire. Menongue (Venongue), Serpa Pinto, Nankova, ex-Vila Nova de Armada. 


(...) Certa vez, abriu a cabeça a uma pioneira, o que a fez passar à vítima. E como Ndulu era todo azares, as queixas caíram nas mãos do Camarada-professor-kambuta-comunal. Severino Paulino, de seu nome completo, chegava a ser severo a dar com pauzinho.
— Quero aqui a tua mãe amanhã, Ndulu!
— Não vai dar, camá-prussó.
— Não o quiêêê?
— Não vai dar. A mamã está incomodada. — mentiu, com cara de meter pena, esperando ser perdoado. Inventou a doença da mãe. Tinha vergonha de ser vista pelos colegas, por causa daquele problema do lixo nos dentes e só falar Umbundu. Mas o resultado lhe saiu pior que a emenda. O Camarada-professor-kambuta-comunal era mesmo duro.
— Então traz o papá, como é você então?!
— Não tenho, camá-prussó, a minha mãe é hortelã…

Uma rajada de gargalhadas ensurdeceu a turma. Ndulu quis dizer que a mãe era viúva, substantivo que, à semelhança de hortelã, em Umbundu se diz "ocimbumba". Mas viúva era palavra rara nos livros da primária, vai daí ser por ele desconhecida. A gargalhada prolongou-se com a cumplicidade do professor, deixando Ndulu acabrunhado. Depois, silêncio. Outra vez risadas. Ouviu-se do fundo da sala uma voz indisciplinada (...)

Gociante Patissa, trecho do conto MINHA MÃE É HORTELÃ, um dos 13 que compõem o livro de contos FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, já no prelo, com publicação provável em 2014

PS: a da foto é uma tia minha, nada tendo a ver com o texto, que é ficção pura.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

cana-de-açúcar, batata doce, maçaroca, mandioca

(...) Se dependesse da mãe, ele teria outro nome de registo, qualquer um que não fosse Virgulino Kaendangongo. A mulher sabia minimamente a função gramatical de uma vírgula, aquele pontinho arqueado para trás, que a tudo torna inconclusivo.Entrava também nos debates do casal o presságio em Kaendangongo, que na língua Umbundu significa eterno sofredor. Que mãe auguraria isso para o próprio filho? Seu marido, porém, tinha outra tese proverbial, a qual defendia com efusiva contumácia: «ka mwinle ongongo ka kolele» (quem não sofreu não amadureceu). Assim sendo, filho seu, porque talhado a singrar, faria do sofrimento parte de sua identidade. (...) - Gociante Patissa 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013


UMBUNDU: "Akovi vaco votembo yilo okuti ka kuli ombela, olinga mwenle felule, felule, seti ofelula ekonjo". 
PORTUGUÊS: As couves desta fase da falha de chuvas, obrigam-te a ferver, ferver, como se fervesses pata [de quadrúpede].

quinta-feira, 26 de setembro de 2013


Desobedecendo-me a mim mesmo quanto a não mais viajar a passeio por estrada, dei por mim ao volante para o Chongorói. É certo que a sede do município não é lá tão fotogénica quando temos poucas horas para a desvendar, mas a boa condição do asfalto compensa, já que fisicamente o desgaste é pouco ao cabo de duas horas à velocidade mediana de 90km/h. 

Chongorói é o último município a sul da província de Benguela, por isso fronteiriço relativamente à Huila, que começa logo pelo vizinho município de Kilengues. À semelhança da toponímia dos municípios do MBalombo, Katombela e Kuvale (Cubal), vem de um rio o nome do município, no caso Congoloi [t∫ongolo:i].
 Ao longo da via, o turista logo percebe que a principal actividade da população é certamente agropecuária, o que recomenda algum cuidado ao volante, não fosse a berma o pasto de bois, ovelhas e cabritos. Quanto à produção agrícola, coloridas bacias de limão à beira da estrada convidam os bolsos, dos duzentos aos quinhentos kwanzas. Já na praça (entenda-se mercado informal), várias galinhas à venda reforçam o quadro.
Por falar em praça, os músicos e demais fazedores e amigos da arte que se identificam com o combate à pirataria podem ficar alegres, já que não se vendem discos, tal é o cerco da polícia económica. Discos originais também não se encontram à venda, o que ficará a dever-se ao relativamente fraco poder de compra, já que mil kwanzas não são bem um “troco sujo”. Mas pelo que constatamos, o resultado visível do combate à pirataria pode ser apenas sol de pouca dura, pois lá estão duas barracas (igual número de computadores portáteis) vendendo música digital via pendrives e cartões de memória para uso em telemóveis, viaturas e afins.
Crianças na escola e adultos no campo, no comércio ou no proletariado fazem jus ao dia produtivo.
Um abraço e até à próxima paragem!

Gociante Patissa, Chongorói 25 Setembro 2013

segunda-feira, 23 de setembro de 2013


domingo, 22 de setembro de 2013

"IMO LILIMÃILWA; OKULILANDELA, OSETEKO NÕ" (A barriga é por norma sustentada pelo cultivo; isso de viver, onde tudo tem de ser comprado, é provação) DIZERES em Umbundu DE UM ANCIÃO quanto a adaptar-se à vivência fora do campo. Recolha de Amos Chitungo Gociante Patissa

sábado, 7 de setembro de 2013


Obrigam-nos a panela (ombya), mais o "ongonjo", algo feito de pau para transportar agua e não só, mais "onungi yovava", recipiente de ágia. "Tucambata ndati?" Como vamos levar? É lamento do colonizado/explorado, de quem se esperava carregar tanto objecto. Daí a pergunta de retórica: Como podemos levar tudo isso?


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Contributo de Noely: "Kombya", na panela, "kongonjo", é algo feito de pau para transportar agua, "konungi yovava", algo construido com água, konungi, construído , yovava com água. "tucambata ndati?" como vamos levar? É um proverbio, a panela é algo metálica ou de barro ongonjo é feito de madeira ou seja pau. todos estes instrumentos servem para transportar agua, porém ongonjo não dá para ser posto ao lume. 

Afirmativo! É lamento do colonizado/explorado, de quem se esperava carregar tanto objecto. Daí a pergunta de retórica: Como podemos levar tudo isso?

quinta-feira, 29 de agosto de 2013


"Cakusanga vuti, linga eti ndimunu, ku kalinge eti ndi nde" (provérbio Umbundu) - Seja lá o que for que te encontrar na árvore, diz mesmo que és pessoa, nunca que és colmeia.

Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa 2015

Vídeo | Lançamento do livro A Última Ouvinte by Gociante Patissa, 2010

Akombe vatunyula tunde 26-01-2009, twapandula calwa!

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