"Nda wafulile, nyomõlã; mwenle a kambamba
weya" (cantarolar Umbundu) - se estiveres a pisar (transformar bagos de
milho em fuba, ou farinha), põe-te já a recolher. O dono da rocha em que
trituras chegou.
sábado, 30 de agosto de 2014
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
terça-feira, 26 de agosto de 2014
domingo, 24 de agosto de 2014
"POKUPITINLÃ OCO OCILEMO CILEMA PO
VALI" - (é quando estamos a chegar ao destino que o peso que transportamos
parece mais pesado ainda)
Palavras de um
proverbial Umbundu do meu pai, num distante dia em que carregávamos lado a lado
(já não recordo bem com quem) uma grade de bebidas a pé, idos da praça da
Kalumba. É a sensação que me atravessa, quando parece estar cada vez mais perto
o salto a que me propus e conquistei (pela única forma que sei, juntando forças
e ideias) no sentido de juntar prazer ao ganha-pão. Está-se próximo da meta,
que parece cada vez mais distante.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
O conto MINHA MÃE É HORTELÃ, pág. 15, que abre o meu livro FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, que vem a público no final deste ano, é uma ficção baseada numa trama real por mim testemunhada na adolescência. Só estes dois parágrafos são reais:
« O Sô Padre ainda não tinha percebido o que se passava na fazenda dele. Queria livrar depressa a cabeça do susto pelo boi que por pouco não morreu. O boi, também ainda ninguém sabia porquê, caíra para dentro da cacimba. A sorte é que esta estava seca. E o Sô Padre, que até era homem de muitas letras e de grossa inteligência, não conhecia a arte de socorrer um boi assustado. Então aprendeu o quê nas escolas, se na fazenda não rende nada, só dá ordens? Graças aos analfabetos que se safou. Nós, os piós, disparatávamos por dentro esses homens que não percebiam que criança gosta de carne. Que custava deixar o boi morrer?!
Mas isso tinha sido de manhã e o problema já estava resolvido. Até o tal boi já só coxeava bocadinho. O problema agora era o Kanjaya. Esse Kanjaya, eu até não sei quem lhe manda refilar muito quando não tem forças, acabou por levar uma boa tareia (…) Só que o Kanjaya também não se deixou ficar assim. Apanhado ali mesmo com as mangas na mão, Ndulu foi desafiado a comer cocó de boi. Acho que ia ser o primeiro na família, porque cocó de boi nunca foi coisa de ir à boca. Se era salgado, se era amargo, ou se mesmo cuiava, primo Ndulu ainda não sabia. Comer ele não queria, negar também não podia. Era só vexação mesmo o que o mafiador alugado pelo Kanjaya queria para se vingar. Dizia-se que ele podia matar e não saía nada. Que tinha breve. Que só um soco dele podia arrancar alguns dentes e deixar a boca como baliza de futebol.»
Gociante Patissa, Luanda 22 Agosto 2014
"Olohombo kepya/ kepya/ olomalanga vimbo/ Aci fu/ Aci mbê/ Avoyo/ twendainda ndeti"
Este trecho do cancioneiro popular Umbundu é de
uma dança folclórica em roda de mãos dadas, girando aos pulos num sentido, que
logo é invertido mediante o sentido da canção, quando se disser
"twendainda ndeti" (que significa: o normal é procedermos assim).
Conforme explicado pelo Duo Canhoto, compilador da rapsódia intitulada "Omboyo", que ganhou maior
visibilidade depois de a cantora Pérola lhe dar uma roupagem mais comercial, a
essência da parábola resume-se no seguinte:
Numa comunidade em guerra, os paradigmas funcionam de maneira inversa, ou seja, literalmente, os cabritos (animais domésticos) na lavra, as palancas (animais da selva) na aldeia. Trata-se, portanto, de mais uma manifestação dos nossos antepassados contra a desordem que é inerente a lutas e conflitos.
Ovilamo! (Saudações!)
Gociante Patissa, Luanda 22 Agosto 2014terça-feira, 19 de agosto de 2014
quinta-feira, 31 de julho de 2014
«Nós muitas vezes acusamos “o outro” de nos ter colonizado. Portanto, o
nosso discurso quase sempre faz referência à colonização portuguesa, mas nós
nos esquecemos do “colonialismo” de nós próprios. Hoje há mais repressão aos
curandeiros do que no tempo dos portugueses. Hoje, há mais assimilação da
cultura do “outro” do que no tempo de Portugal. A libertação nacional ou a
libertação espiritual é um processo que deve continuar.» - Paulina Chiziane, escritora
moçambicana ao programa A Páginas Tantas, canal TVM de Macau, disponível no
Youtube
domingo, 27 de julho de 2014
"Eci cakala osimbu, polonambi pali uloño
volombangulo. Kaliye, volupale, omãlã vainda ponenle, vakaimba ovikanda.
Cisapeliwa ka vacilete, pwãi cimwe ndaño eci calya omunu ka vaci."
(Tentativa de tradução do Umbundu: No nosso tempo, antigamente, colhia-se sabedoria nas conversas de um óbito. Hoje, nas cidades, os mais novos isolam-se para jogar cartas (sueca), não seguem o que se conversa, às vezes mal chegam a saber a causa da morte) - Alfredo Gociante, tio meu materno
(Tentativa de tradução do Umbundu: No nosso tempo, antigamente, colhia-se sabedoria nas conversas de um óbito. Hoje, nas cidades, os mais novos isolam-se para jogar cartas (sueca), não seguem o que se conversa, às vezes mal chegam a saber a causa da morte) - Alfredo Gociante, tio meu materno
sábado, 26 de julho de 2014
Pelos becos do bairro benguelense que cada vez
mais se vê tentado a desistir do sonho alcatroado, o ancião deu um instintivo
salto para escapar, iminente que se fazia o atropelamento por esses triciclos
motorizados com carroçaria, conhecidos como kaleluya. "Omanu vaindela
posi, ene olomoto wuvivolisa", reagiu com repulsa o ancião, a quem
aborrecia menos o risco de atropelamento nos becos do seu próprio bairro do que
aquilo que via na carroçaria: uma moto delop empoeirada, com ares de degradação
por falta de uso, muito provavelmente a caminho de ser descartada. "As
pessoas andam a pé, e vocês entregam as motorizadas ao apodrecimento".
domingo, 20 de julho de 2014
Oratura: ACEITAMOS «OKUPOKIWA» EM DIAS DE CARÊNCIA?
Em outubro de
2005, visitei zonas recônditas no Sambo, comuna do município da Cikala
Colohanga, no Huambo. Fiz parte do grupo de pesquisadores a grupos focais ao
serviço da inglesa «Save the Children». Os alvos eram crianças órfãs e
vulneráveis na Ombala de Ciyaya, capital tradicional de cinco aldeolas de
refugiados provenientes da Zâmbia, cerca de oito quilómetros da comuna de
Samboto. A povoação ressentia-se do fim da assistência do Programa Alimentar
Mundial, agência humanitária da ONU.
Mesmo que o código
de conduta da «Save» não proibisse gratificações de ordem material daqueles
aldeões que ensaiavam a readaptação, finda a guerra que um dia os afugentou, o
quadro crítico de penúria dizia bem que nada tinham para oferecer. Para se ter
ideia, ainda aos nove anos, várias crianças andavam na produção de carvão
vegetal para sustentar pais e avós, muitos dos quais dependentes de aguardente
artesanal.
A recolha de
dados ficou concluída com êxito em uma semana, conforme o plano. O que,
entretanto, não esteve previsto foi a tensa conversa com o Soba grande da
Ombala na hora da despedida. Fazia questão de nos regalar com duas galinhas,
dois quilos de feijão e alguma batata-doce. E agora, o que havíamos de fazer?
Receber, ou não?
Uma comissão
reuniu-se no cantinho, tendo como interlocutora a mais-velha do grupo.
Primeiro, era-nos enorme a empatia pelo sofrimento, não fazendo grande sentido
despenderem do já tão pouco. Segundo, o código de conduta proibia-nos, pois não
estávamos ali em visita, mas a trabalhar sob pagamento. O Soba, que sabia ao
mesmo tempo ser cordato mas intransigente, considerou de improcedente a nossa
visão. Não é «nosso», sublinhava, terminar uma visita sem «okupokiwa»,
símbolo de hospitalidade!
Como o leitor terá
já percebido, cá estamos com mais um estudo, outra vivência para abordarmos
aspectos da tradição oral do grupo etnolinguístico Ovimbundu. O verbo «okupoka»
(regalar) ou «okupokiwa» (ser regalado) refere-se a bens alimentares
para a boa hospitalidade, genericamente servidos como refeição, donde se
destacam a «ocisangwa» (bebida feita à base de farinha ou rolão de
milho, conhecida pelo seu aportuguesado quissângua) e a galinha. A norma do bom
acolhimento assenta no adágio de que «ukombe elende; ndopo yaco lipita» (o visitante
é nuvem; passa logo).
Quanto às regras
de confecção, é certo que cada grupo entre os Bantu do território de Angola tem
particularidades próprias. No essencial, a galinha é guisada e servida com
todas as partes que a integram, reservando-se ao visitante
a primazia de abrir a mesa e escolher
das porções que bem entender. Não devem faltar o coração, as tripas, as coxas,
as patas, as asas, a moela e por fim o rabinho. Dado o risco de o visitante levar à risca o direito que lhe cabe,
e daí apossar-se da tigela inteira, outras iguarias não tão especiais
complementam a ementa para os anfitriões, tais como o feijão e as verduras. Daí
que esta praxe exija dos anfitriões uma preparação das crianças, por não ser
propriamente frequente para consumo o abate de animais de criação.
Julgo não estar
muito longe da verdade se afirmar que os Ovimbundu levam muito mesmo a mal
qualquer gesto passível de ser interpretado como desprezo ou colocar alguém na
condição de mendigo. É óbvio que nem tudo é linear. A vida na cidade é cara,
aliás bem eloquente é o aforismo: «ohombo yilya opapelo, omunu olya olombongo» (cabrito come papel, pessoa come
dinheiro). Tal não é, porém, a herança ancestral de povo camponês, criador de
gado e caçador, como dá a entender a máxima «casupa oco catenlã» (se sobrar, é
porque satisfez), ou ainda «nda cipwa, cipwe;
ocipa ha nanga ko» (se gastar, que gaste; pele de animal
não é tecido de algodão).
Tão sagrada é a
boa hospitalidade que, ainda hoje, é quase uma questão de arte o papel de bom
visitante lá onde os anfitriões estejam conglomerados por laços familiares ou
de forte afinidade. Como se desenvencilharia o caro leitor se cinco lares, na
razão de uma galinha por cada, lhe fizessem chegar à mesa o prato? Ora, o
segredo está em comer um bocado de cada lar. De outro modo, fica a mágoa de
quem vir a comida rejeitada.
Regressemos,
pois, ao dilema do Soba grande de uma aldeia de refugiados em extrema carência
mas que exigia que aceitássemos a oferta de bom hospitaleiro. Ora, entre a
ética positiva de base ocidental e a costumeira africana, onde os anciãos são
por vocação uma entidade, tivemos de arranjar um meio-termo. Não era prudente
afrontar uma autoridade tradicional, quando se iria caminhar cerca de dez
quilómetros em mata cerrada. Foi então que juntamos o que sobrou da nossa
logística, se bem me lembro uma lata de leite, grade de gasosa, uns cinco
quilos arroz, massa, óleo alimentar, sal, sabão, peixe seco, entre outros, que
não ficaria por menos dez mil kwanzas.
Para terminar a
reflexão de hoje, diríamos que «okupoka» é um gesto simbólico de boa
hospitalidade, geralmente ligado a géneros alimentares, que tanto podem ser
consumidos durante a estadia, ou levados como lembrança.
Gociante Patissa,
Luanda, 12 Julho 2014
segunda-feira, 14 de julho de 2014
É
frequente ouvir-se a referência ao “tempo de caprandanda” (grafia errada, pois
não temos “R” em Umbundu e o “C” tem pronúncia diferente de “K”). Quando foi e
o que houve?
A
minha adolescência foi marcada por um quadro complexo no Lobito, onde a
residência se confundia com dependências das administrações comunais da
Equimina e Kalahanga, uma alguns anos depois da outra. Como as deslocações de
pessoas e bens eram mediante as guias de marcha, “trabalhei” também como
dactilógrafo do meu pai, na sua condição de Comissário Comunal, mas sobretudo
como pombo-correio da correspondência familiar entre Lobito, Catumbela e
Benguela, na maioria destes casos até… a pé.
A
exposição à propaganda despertou cedo o meu interesse de observador da
política. Evidentemente, havia familiares que (às escondidas) não alinhavam com
o Mpla. Estamos a falar entre 1988 e 1991. Calhava encontrar este ou aquele a
ouvir a Vorgan, rádio da Unita, com o volume baixinho. Foi assim que certo dia retive
um trecho dolente do cancioneiro Umbundu num gingle: “Kapalandanda walila / walilila ofeka yaye/ kapalandanda walila/
walilila ofeka yaye” (Kapalandanda chorou / chorou pela sua Terra/
Kapalandanda chorou / oh/ chorou pela sua Terra). Mas quem foi e chorou porquê?
GP
NOTA
DO BLOGUE OMBEMBWA: Segue-se, com pequena adaptação, o contributo de Carlos
Duarte, in «Jornal o Chá», da Chá de Caxinde, Nº 10 - 2ª série, Abril/Maio 2014:
“Kapalandanda era sobrinho do Soba Kulembe, da Catumbela. Ia ser
Soba. Agiu de 1874-1886. Adolescente, ganhou fama por
ter morto sozinho um leopardo que andava a comer as cabras (…) Ainda jovem, inconformado
com a passagem e estadia de caravanas de (…) comércio, levando panos e sal para
o Huambo – Bailundos – e trazendo borracha, cera, mel e marfim – sem pagamento,
pediu uma audiência ao Soba, seu tio, e aos sekulus, onde tentou convencê-los a
que fosse cobrada uma taxa – «Onepa» - a essas caravanas. O Soba, acomodado e
com medo da reação dos colonos, não concordou. Kapalandanda então reuniu um grupo de
guerreiros e foi para o mato, armar emboscadas e assaltar as caravanas, cujo
produto, confiscado, era em parte distribuído pelos kimbos do sobado.
Quando os colonizadores
tomaram conhecimento, foram falar com o Soba para que tomasse providências e
acabasse com essa resistência. O Soba reuniu os melhores guerreiros e
ordenou-lhes que fossem pegar Kapalandanda. Mas o resultado foi o
contrário do previsto. O grupo de Kapalandanda dominou e derrotou fácil os
guerreiros de Kulembe. Os colonizadores resolveram então fornecer armas de fogo
o Kulembe, acreditando que, com essa vantagem, acabariam com o grupo
guerrilheiro.
Mas Kapalandanda, agindo como um Robin Hood angolano, tinha já
granjeado a simpatia de grande parte dos kimbos do sobado; então, emissários
dos kimbos saíam para avisá-lo da movimentação das forças de Kulembe, o que lhe
deu condições de espera-las para o confronto, em local que lhe era propício,
anulando assim a vantagem das armas de fogo.
Uma vez mais a tropa de
Kulembe foi derrotada, e Kapalandanda ficou melhor armado. Os
colonizadores resolveram então enviar uma companhia de tropa portuguesa,
comandada por um capitão de nome Almeida, para submeter Kapalandanda. O encontro deu-se no Sopé do Passe. O grupo de Kapalandanda saiu derrotado e ele levado preso, primeiro para o
Forte da Catumbela, e depois para S. Tomé.”
domingo, 13 de julho de 2014
quinta-feira, 3 de julho de 2014
Venho notando com satisfação o cada vez mais crescente
interesse pela partilha de sabedoria popular nas línguas nacionais de origem
africana. É de louvar, principalmente quando se trata de murais de gente mais
nova, se tivermos em conta a conotação de que a maior tendência nas redes
sociais recai para futilidades. Só me deixa aborrecido notar que quanto à língua Umbundu, não poucas vezes, algumas
almas mais não fazem do que ir copiar dizeres aos meus blogue www.ombembwa.blogspot.com e mural do
facebook, para colarem em seus murais ao pé da letra. Na minha ingenuidade,
acredito que a sabedoria popular é património imaterial colectivo, de qualquer
um que por ele tenha a mínima sensibilidade, mas que a tradução é de cunho
pessoal. E essa preguiça só pode multiplicar eventuais erros do tradutor
"imitado", até porque a Internet não pesquisa, não avalia, não
escreve e... não erra. Divulgar a nossa língua e cultura, sim, mas com o mínimo
esforço de honestidade intelectual.
Gociante Patissa,
3 Julho 2014
terça-feira, 1 de julho de 2014
domingo, 29 de junho de 2014
sábado, 28 de junho de 2014
Falar do futuro do português, o considerado quinto idioma mais popular no mundo, é evidentemente um assunto vasto. Enquanto recolector de tradição oral, interessa-me olhar para a realidade angolana e abraçar a vertente sociolinguística, visto o valor da língua como património cultural imaterial. A propósito, há quem defenda a existência de um tal português angolano. Temos? Sobre isso continuaremos mais adiante.
Não havendo grandes estudos oficiais no que se refere a políticas linguísticas na Angola independente, a partir dos quais teríamos indicadores para avaliar eventuais êxitos ou desvios na sua aplicação, resta assumir que qualquer exercício de previsibilidade do uso do português é ainda mais complexo. E já sabemos que nem valem a pena incursões ao passado, conhecendo como conhecemos a história da chegada da língua, que era até há bem pouco menos de 40 anos instrumento de aniquilação identitária dos povos das então colónias portuguesas, a coberto de uma tal expansão da civilização europeia.
Adoptado o português como idioma oficial, que é inquestionavelmente a língua materna de milhares de angolanos, a questão passa a ser a forma como esta dialoga com os demais idiomas de matriz africana, entre Bantu e não Bantu, nomeadamente o cokwe, fiote, helelo, khoisan, kikongo, kimbundu, ngangela, nhaneka-nkumbi, umbundu, oxindonga, oxiwambo, e o vátwa. E se o leitor nos permite problematizar um pouco sob o axioma de que cada língua veicula uma cultura, a questão seria: que cultura veicula a língua portuguesa numa sociedade multi-étnica e linguística? Bem, é em nome da cultura, que é por vocação um fruto da partilha, que teremos de evitar radicalismos e complexos, sejam eles de inferioridade ou de superioridade, pois as sociedades são dinâmicas e o fenómeno linguístico é inerente à interação dos povos.
Quando falamos do diálogo que deve existir entre as línguas, é tendo precisamente em conta o cuidado necessário para que o status dado a uma língua, que geralmente corresponde a determinado grupo social, não represente a subjugação de outros. Em tempos, um notável intelectual desabafava pelo que interpretava como sendo um sinal da subalternização institucional das nossas línguas nacionais. Não lhe pareceria, pois, razoável a prática de haver sempre um tradutor para estrangeiros que falem à imprensa ou ao parlamento e, entretanto, quando chega a vez de anciãos e autoridades tradicionais, terem de o fazer num português em que por vezes mal se expressam e compreendem, com todo o desconforto que isso implica.
Já existe o português angolano? Há quem defenda que sim, mesmo até com base na linguagem literária que incorpora cada vez mais termos e expressões tipicamente do nosso linguajar, como por exemplo, “é maka grossa me apanhar a pata”. Mas isto basta para legitimar a existência de uma variante angolana? Como caracterizar a pronúncia padrão dos locutores noticiosos, o sotaque europeu? O certo é que o português angolano não existe, tão-só porque não se estabeleceu uma norma própria, oficial.
O futuro do português, quanto a mim, passa por assumir de maneira integradora o seu papel de língua oficial relativamente às outras de matriz africana. Impõe-se um rigoroso trabalho de estudos linguísticos e antropológicos, de modo a valorizar a correcta grafia da toponímia e a essência proverbial dos nomes africanos. Insistir-se na substituição forçosa do “K” pelo “C”, mesmo quando se trata de algo tão representativo como o rio Kwanza ou a província do Kwando-Kubango, pelo magro argumento das confusões por a língua oficial ser avessa às consoantes “K, W, Y”, tão comuns nas línguas Bantu, só vai atrair ainda mais recalcamentos. O português tem de dialogar!
Gociante Patissa, Luanda 25 Junho 2014 (licenciado em linguística, especialidade de inglês)
sexta-feira, 27 de junho de 2014
segunda-feira, 23 de junho de 2014
Da casa de um primo seu fazendeiro no
Dombe-Grande, o meu pai voltara com arranhões e o bolso da camisa rasgado. A
saudade fora tão grande que, à chegada, partiu para um efusivo abraço, gesto que
o cão de guarda tomou por agressão ao seu amo, acostumado à regra de se sentar
primeiro e saudar depois. Assim é com os Va Cisanji.
Num universo marcado pela exiguidade
bibliográfica na recolha da tradição oral, os rígidos preceitos científicos não
são propriamente a nossa tenção. Não abdicamos é de contribuir com vivências,
ainda que o façamos com a regularidade de um vaga-lume.
sexta-feira, 20 de junho de 2014
segunda-feira, 16 de junho de 2014
domingo, 15 de junho de 2014
sábado, 14 de junho de 2014
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Da casa de um primo seu fazendeiro no
Dombe-Grande, o meu pai voltara com arranhões e o bolso da camisa rasgado. A saudade
fora tão grande que, à chegada, partiu para um efusivo abraço, gesto que o cão de
guarda tomou por agressão ao seu amo, acostumado à regra de se sentar primeiro e
saudar depois. Assim é com os Va Cisanji.
Num universo marcado pela exiguidade
bibliográfica na recolha da tradição oral, os rígidos preceitos científicos não
são propriamente a nossa tenção. Não abdicamos é de contribuir com vivências,
ainda que o façamos com a regularidade de um vaga-lume.
Tornando à cena do visitante agredido. Passa-se
que tanto este como o anfitrião são de uma localidade culturalmente fronteiriça
entre os municípios de Balombo e Bocoio, encaixada administrativamente no
último. Dista cerca de 170 Km a nordeste da capital da província de
Benguela, território com predominância da etnia Ovimbundu e que se comunica na
língua Umbundu, representando 1/3 da população — estatísticas
avulsas —
e abrange as províncias do Kwanza-Sul, Benguela e Namibe (costa), Bié, Huambo e
Huila (planalto centro e sul).
Segundo Fernandes & Ntondo (2002), referidos
em Kavaya[1]
(2006: 54), formam o grupo os va Viye, Mbalundu, Sele, Sumbi, Mbwei,
Vatchisandji, Lumbu, Vandombe, Vahanya, Vanganda, Vatchiyaka, Wambu, Sambu,
Kakonda, Tchicuma, o maior etnolinguístico angolano (acima de 4.500.000
pessoas). Quanto à etimologia, Arjago[2]
(2002: 23) sugere que foram apelidados, “pelos povos encontrados, de vakwambundu, o que significa gente vinda
das zonas de nevoeiro, tratando-se do litoral”.
Nestes subgrupos, cada encontro, por simples
que seja, representa provavelmente uma oportunidade de inventariar a vida, sem preocupações
relativas à economia do tempo. «Okwimbwisa
ulonga», fazer a saudação, é um longo relato da situação familiar e
introduzir o motivo do encontro, desde o último contacto, cobrindo depois o social,
o económico e o político. A linguagem é coloquial e inevitavelmente proverbial.
Como veremos adiante, entre os Va Cisanji, a «ulonga» é ainda mais minuciosa. Podemos concluir esta fase
generalista com a certeza de que é ao bem-estar que se aponta.
Do Bocoio, a
minúcia da «ulonga» é norma nas demais quatro comunas:
Monte-Belo, originalmente Utwe Wombwa (cabeça de cão), Chila (de Ocila,
palco, pista), Cubal-do-Lumbo (de Kuvale Kwelumbu, Cubal Mágico) e Passe
(Epasi). O chefe do lar é o interlocutor exclusivo. Nos meios mais conservadores,
acomoda-se o hóspede sem diálogo quase nenhum, enquanto alguém vai buscar o
interlocutor. Na impossibilidade, é substituído pela esposa e, na ausência
desta, pelo descendente mais-velho. É sempre o mais-novo (inferior hierárquico por
idade, grau de parentesco, cargo) quem começa a contar o estado de saúde, sendo
facultativa a pergunta. Se o mais-velho começa a explicar, é sinal para o inferior
distraído o interromper.
Eis algumas passagens
de diversas «ulonga». (a) Dialéctica: “Etu
vo, mumosi haimo. Tulinga tuti vamwe vatokota, vamwe vapola. Apa mbi omãlã omo
vakulila, etu twakulu omo tukukila” (Connosco é igual. Uns quentes/doentes,
outros frios/com saúde. Se calhar é o jeito de nós, os mais velhos, envelhecermos
e os mais novos crescerem); (b) Fome: “Twalale,
omo mwenle apa omo… Etaili, okulikwata komenlã, oco okusuyako” (A noite passou-se,
enfim… Hoje, levar a mão à boca, só se for para coçá-la); (c) Insegurança: “Wangombe, apamba lilu” (ao jeito do
boi, os chifres em riste); (d) Aflição: “Wambwa,
kwatwim kuliwa” (ao jeito do cão, as orelhas sendo roídas).
Resumindo, «Okwimbwisa ulonga», a saudação a preceito, é uma instituição entre
os Ovimbundu, constituindo na tribo Ocisanji uma afronta ser questionado pelo
mais-novo sobre o estado de saúde, e como tal choque de cultura na interacção até
com povos vizinhos.
Gociante Patissa, Benguela, 11 de
Junho de 2014
quinta-feira, 5 de junho de 2014
"NDA OMÕLÃ
OLILILA OMOKO YOPUTO, OVE UYAVELA! [ECI YUTETA, EYE MWENLE]" (adágio
Umbundu) - Se a criança chora por uma navalha, dá-lha. [Quando se ferir, terá
sido por ela mesma]
Explicação: Se o orgulho impede a pessoa de ouvir conselhos, há que deixá-la com as suas
escolhas. O arrependimento vem mais tarde com as consequências.
sábado, 31 de maio de 2014
domingo, 25 de maio de 2014
quarta-feira, 21 de maio de 2014
Passam das 10 horas da manhã. É domingo. Pessoas
normais estarão a caminho da praia, a visitar parentes, ou na cama em ressaca,
não ligadas ao telefone fixo com discurso repetido para uma lista com mais de
80 nomes. Mas tem de ser, e é comigo:
"Aló",
atende-me uma voz feminina.
"Sim, bom dia. Ligo
da empresa X para confirmar se a senhora vai usar o serviço que reservou para
hoje. Falo com a senhora Wanda?"
Do outro lado da linha, a senhora não se
contém. Rebenta mesmo uma risada com sabor a sarcasmo. Estou calmo e deixo a
senhora rir-se às custas do meu ouvido. Instantes depois, satisfeita talvez por
lavar a alma, ela confirma, corrigindo:
"/Uanda/?! /Vanda/!!! Sim, sou eu.
Vou usar".
Não sou pago para discutir
sociolinguística com os clientes. Aliás, pouca utilidade há para pensar, de tão
autómatas que certas missões são, pelo que agradeço a atenção e deixo um até
logo.
Agora, no intervalo entre uma chamada e a outra,
quem ri sou eu. Sim, porque em Umbundu, língua nacional predominante no centro
e sul do país chamado Angola, e em particular em Benguela, "owanda",
ou simplesmente "wanda" [ua:nda], significa rede. É um nome que se dá
a crianças que surgem depois de o casal ter perdido outros filhos. É como
metáfora a dizer que a rede da morte poderá arrastar esse recém-nascido a
qualquer momento também. E a pessoa cresce com aquele nome. Para a minha
interlocutora, de certeza, só existe uma forma, Wanda que se lê com /v/.
Já lá vão uns três anos e não sei como fui
pensar logo hoje em ruídos na comunicação.
Gociante Patissa, Benguela, 08.12.2012
segunda-feira, 19 de maio de 2014
"Ame ndoco nda vakwa CENSO vandipulisile
nda ndikwete olusu vonjo, ame nda ndilinga mwenle siti si kwete. Eci ndifeta
olusu ndilila, omo okuti - ndapanga ale oviyaso, oloneke olusu yenda ovyo
vyalwa vali enene - ndifeta ño olusu yimwe okuti sa yimwinle".
TRADUÇÃO (português)
Se eu fosse
questionado pelo pessoal do Censo sobre a energia eléctrica em casa, eu diria
mesmo que não a tenho. Quando pago pelo consumo de electricidade, eu choro,
pois - já fiz os cálculos, os dias de falha são a maioria - tenho estado a
pagar por algo que não vi. (De um cidadão que falava ao programa Omenle
Yocinjomba, da Rádio Benguela, hoje)
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Quando em meados da década de 1990 do século 21 testemunhei a grande festa de efiko (ritual de iniciação feminina) entre os Vakwandu, grupo cultural pré-Bantu predominante no chamado território dos Vandombe, fiquei mais ou menos decepcionado. Estava de visita à comuna da Kalahanga, tinha eu pouco menos de 15 anos, e o meu pai, outro militante profundo pela tradição oral, cuidou de nos aproximar à manifestação cultural daquele povo. Como filhos do chefe (o velho era o administrador comunal), foi-nos granjeado um lugar privilegiado. A minha decepção nada tinha que ver com o ritual em si, ou com eventual diabolização infundada de que este tem sido vítima ao longo dos tempos, mas tão-somente pela forma como anciãos procuravam, digo mesmo compulsivamente, roubar um pedaço de carne ao lume e ir chupando o tutano, tão agarrados ao osso, sujeitando-se a pauladas do guardião da copa. Na minha concepção, como julgo ser na da maioria de outros Ovimbundu, o osso é a parte menos valiosa do animal. Temos um provérbio segundo o qual “u olya omuma ka litami losonde”(quem come o fígado não se suja com sangue). Subentende-se existir no fígado o maior prestígio, tanto assim é que, quando se prepara uma refeição para visitas ou pessoas relevantes, o fígado é das partes que não devem faltar. Outro provérbio diz que “u ka li po ombelela yaye akepa” (ao ausente, há o risco de sobrarem apenas ossos para conduto, mais concretamente o que seria acompanhante para o pirão de milho ou de farinha de mandioca, que é invariavelmente a base das principais refeições no meio rural). Bem, é certo que não seria pelo valor antropológico do osso que o estudante de origem Ovimbundu andaria aos pontapés com o conteúdo da anatomia, que atribui ao esqueleto o mérito do equilíbrio do corpo humano. Para terminar, partilho uma das várias lições indirectas que retenho da minha mãe, nesta máxima: “cimwe, nda tuyola, tuyolela ño apa kuti ovayo akepa” (às vezes, se é que nos rimos, só o conseguimos porque os dentes não passam de ossos). E aqui vai um poema que vem no meu livro GUARDANAPO DE PAPEL, pág. 15. NósSomos. Lisboa, Portugal, 2014:
REGISTO MAGNÉTICO DA MAMA
Calha às vezes filho
que o arco-íris pinta cantos farpados
no centro da mão do tímpano
Também calha filho
que o arco-íris traz cócegas à pétala
O músculo então cede
com a leveza da água
afinal
dentes são só ossos.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
Voltei ao bairro em que cresci e me deu as
dificuldades (para amadurecer) e as alegrias (para o necessário equilíbrio). É
uma sanzalita chamada Santa Cruz. Querem agora que a achemos no município da
Catumbela, mas o bom mesmo é que as ordens administrativas não comandam
memórias - logo, aquilo Lobito é. Morei lá entre 1987 e 2008. Mãe de um é tia
de todos, pai também, o mesmo com os irmãos. Também é colectiva a dor, a perda
ou, quando for o caso, a vergonha. Gosto de interagir com jovens, mas gosto
muito mais é de ouvir os mais-velhos, mergulhar em seus suspiros, diálogos, sem
deixar de estar atento às pragas rogadas, sejam abertas ou veladas. Em Umbundu,
quase tudo é por atalhos, servido na bandeja da metáfora, do fragmentado, da
inferência. Na saudação, um breve tema de conversa com uma vizinha (a
propósito, nós não temos isso em Umbundu, não dizemos o seu equivalente literal
"una tulisungwe", mas sim "ukwetu umwe tukasi laye kumwe",
ou seja, uma pessoa companheira). A mais-velha lamentava-se de vários óbitos em
dias seguidos, ao que se seguiu um profundo... "OSONGO YASENGA". No
contexto do diálogo, queria dizer que o bairro está sem graça. Mas
"osongo" pela mesma grafia e fonia pode também significar semente, ao
passo que com uma ligeira alteração na entoação pode significar espinho.
Gociante Patissa
Gociante Patissa
terça-feira, 6 de maio de 2014
"Si kaivale ko
okuti kilu lyeve ndukombe
ndipita ombamba
ndonelehõ yakala lomenle
kekumbi ka yi ko vali
yowuka lutanya
mwapita ombela
noke yaloluka"
TENTATIVA DE TRADUÇÃO
Que eu não me esqueça
de que sou hóspede na face da Terra
de efémera passagem
como a flor que sorriu de manhã
Já não existe de tarde
murchou com o sol
bateu a chuva
e ela ruiu.
okuti kilu lyeve ndukombe
ndipita ombamba
ndonelehõ yakala lomenle
kekumbi ka yi ko vali
yowuka lutanya
mwapita ombela
noke yaloluka"
TENTATIVA DE TRADUÇÃO
Que eu não me esqueça
de que sou hóspede na face da Terra
de efémera passagem
como a flor que sorriu de manhã
Já não existe de tarde
murchou com o sol
bateu a chuva
e ela ruiu.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Todas as vezes que
veio à cidade, Velha-Mbali se deparou com deselegantes surpresas, mas a desta
vez, batia seguramente todos os recordes. A anciã chegou mesmo a tossir de
choque ao cruzar com miúdo de doze anos apenas, não mais do que isso, girando a
cidade para cima e para baixo com cuecas e sutiãs de mulher adulta no ombro a gritar:
«arreou, arreou no negócio, é a última zunga do ano!!!»
E como a ousadia é
a alma do negócio na zunga, o rapaz abordou-a insistentemente, para não dizer
chatamente:
— Minha mamoite,
arreou na tanga; olha “mónica”; táqui surtião…
Velha-Mbali ainda
tentou fingir indiferença, mas não aguentou. Arremessou, com toda a violência,
o galo de raça contra a cabeça do adolescente:
— Vai faltar
respeito na tua mãe, que não te deu educação!!!
O zungueiro, que
nunca vira tão intempestiva reação de potencial cliente, logo uma “mamoite”,
meteu-se a correr. E no máximo da sua quilometragem! E devia ter uma cabeça
muito rija mesmo, o zungueiro, já que o impacto da pancada fez rebentar a corda
que imobilizava as patas do galo. Este, que não imaginava as fêmeas que por ele
esperavam para reprodução lá no kimbo, meteu-se em fuga no frenético trânsito
urbano em hora de ponta. Era ver o desespero da anciã diante do risco de perder
o animal. Isso é que nunca! Eis que arregaçou o espírito, e lá ia atrás do
galo, ela que também já não tinha lá muita juventude nas pernas. De repente… —
puapualakatá, pumbas! — acabava de ser atropelada por um kupapata, que vinha em
sentido contrário.
— Netele,
a njali, ndakapele okuteta onimbu… (É
desculpar, minha mãe, a intenção era fazer corta-mato...)
— Amõla
wange, watopa muele cokuti vetapalo omo oteta onimbu?! (És
tão parvo assim, meu filho, que queres corta-mato na estrada?!)
— Vangecele,
mamã…(Perdão, mãezinha…) — suplicava o
kupapata, enquanto se levantava do chão e inventariava os danos.
— Mbi
cakulimba okuti olikondakonda opitaela?! (Esqueceste que quem
contorna também costuma chegar?!)
O kupapata de
imediato ligou para o serviço de bombeiros, que localizou a família e levaram
Velha-Mbali ao banco de urgência. Algumas horas mais tarde, estava aplicado o
gesso. O kupapata tinha muitos danos, a começar mesmo pela compra de outro galo
de raça — regressar de mãos a abanar é que Velha-Mbali não aceitava de modo
algum!
sábado, 3 de maio de 2014
Investi metade da tarde de ontem no centro da
cidade do Lobito, deambulando como exercício de "queimar tempo", um
pouco por incompetência de certa agência bancária, onde suportei longa fila até
ouvir que "o colega que atendia Western Union saiu para almoçar, passa
mais logo ou então amanhã". Procurei saber daquela simpática senhora que
me atendeu se o banco fecharia caso o colega estivesse doente, ao que respondeu, a contra-gosto,
que não. Bem, como discutir não me resolveria o problema, saí ao encontro da
celebração da vida que é no fundo o quotidiano, os diálogos fortuitos e a
observação de imprevisíveis fenómenos sociais. Numa rua da Zona Comercial,
passo por duas senhoras, nessa mania muito angolana de estorvar o passeio. Uma
era funcionária (em pé e de passagem), a outra a mendiga (sentada, encostada
entre a árvore e a parede). Era grande a empatia. A funcionária elogiava a bebé
de mendiga, num registo de diálogo coloquial e terno, na língua Umbundu, que a
seguir reproduzo, ciente embora da poesia que se perde com a tradução:
“Avoyo, mba wakula!” – Vejam como está grandinha!
“Oco,
wakula!” – É, está mesmo grande!
“Omõlã
mba ka vala!” – A criança não custa!
“Ocili,
omõla ka vala, civala ño imo” – É verdade, o que custa mesmo é a gravidez.
E lá continuei a caminhada com a certeza de que algum troco a funcionaria deixaria para a mãe da bebé, sem deixar de especular que o pai da criança, algures na cidade, aguardava pela esposa que faz da mendicidade o posto de ganha-pão.
domingo, 27 de abril de 2014
Há uma localidade chamada Longonjo, na província do
Huambo. Segundo uma fonte oral entrevistada recentemente pela Televisão Pública
de Angola, o nome vem de "olongonjo", que é o plural de
"ongonjo", utensílio que se resume em desbastar o tronco seco de uma
árvore até ter uma cavidade. O uso daquele instrumento está directamente
associado à era da escravatura ou a do trabalho forçado na Angola colonial,
uma vez que se caracterizava pelo seu transporte ao ombro, o que representava
um peso enorme (o do instrumento e o do material para obras de construção,
podendo ser sólido ou líquido). Há inclusivamente uma canção de revolta na
língua Umbundu, a qual destaca: "kombya, kongonjo, konungi yovava;
ndicambata ndati? (Dão-me a panela, o ongonjo e o reservatório de água; como
querem que leve tudo isso de uma vez?) Hoje, o "ongonjo" é usado para
outros fins, geralmente feito bandeja para a comida de animais domésticos
(porcos e outros) em criações de baixa renda. Resumindo, devia haver um tipo de
obra que deu a impressão de uso excessivo de "olongonjo", pelo que a
região ficou conhecida como "pimbo lyolongonjo" (aldeia dos
"olongonjo"). A fotografia foi captada em 2010 na fazenda de uma
pessoa amiga no município do Caimbambo, província de Benguela.
Gociante Patissa, Benguela, 27 Abril 2013
terça-feira, 22 de abril de 2014
"OCINIMBU WATETA KONYOHÃ OCO COVE"
(adágio Umbundu) - o pedaço que cortares da cobra é que é teu. Enquadramento:
sendo a cobra o bicho perigoso que é, devemos dar-nos por satisfeitos, por muito
pequeno que seja o pedaço que lhe conseguirmos arrancar. Em rara oportunidade,
todo o pouco serve.
A PROPÓSITO DO CURSO DE FOTOGRAFIA QUE TERMINOU
HOJE, MAIS CEDO DO QUE PREVISTO... como se diz em inglês, "too good, to
last" (bom demais, para durar). Ainda assim, prefiro o Umbundu da questão.
Cruzei há
dias, no mundo digital, com uma questão aparentemente simples, se vista nos
termos normativos da língua portuguesa: qual é a diferença entre “Onde” e
“Aonde”?
Conjecturando que a intenção era corrigir e apontar caminho, resolver-se-ia reafirmando que “onde” é usado para indicar lugar estático, ao passo que“aonde” enuncia movimento em relação a um local (para onde). Logo, dir-se-ia, pela bitola simplista muito mediatizada entre nós, que os angolanos usam errada e frequentemente o “aonde”. Mas porquê? Sendo infinito o inventário de causas, partilho a tese de que, em contexto bilingue, os erros, muito mais do que as coincidências tidas como correctas, nos podem abrir as portas à compreensão da coabitação do português com as outras línguas nacionais de matriz africana, na lógica de que os idiomas veiculam culturas.
É certo que a confusão entre “onde” e “aonde” não tem propriamente uma nacionalidade, o que não nos impede de analisar pequenos contextos e circunstâncias. Quanto à construção frásica, na minha língua materna, Umbundu, no mais das vezes, o complemento circunstancial de lugar fica no fim. “Ove okasi pi?” (estás onde?) Ora, temos aqui um som pouco musical, talvez por isso mesmo tenha sido "ajeitado" pela linguagem popular como em “wenda pi?” (vais aonde?). Julgo morar aqui a origem do uso indiferenciado do “onde” e “aonde” na linguagem informal. Como hipótese, podíamos dizer que se trata de uma interferência que se passa de geração em geração.
Um abraço de Gociante Patissa, Benguela, 22 Abril 2014-04-22
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