segunda-feira, 22 de setembro de 2014

para kú-duro (que advém de cu), usamos a letra K

para kwanza-Sul, bem como para Kwando-Kubango (que provém dos rios Kwanza, Kwandu e Kuvangu) somos obrigados a usar C

NÃO HAVERÁ ALI ALGO A CORRER MAL?


Numa aldeia muito distante do nosso tempo, no contar do meu avô, havia espaço para tudo, menos para a felicidade de pessoas com deficiência. Acreditava-se que a limitação motora seria praga dos deuses por eventual erro dos ancestrais.

Lumbombo, cujo nome na língua Umbundu quer dizer raiz, na típica essência proverbial dos nomes africanos, era visto como um ser frágil. O próprio nome advinha do facto de nascer doentio, ficando a sua sobrevivência a dever-se a medicações à base de raízes e preces. Em meios rurais, onde são pelo trabalho as pessoas notadas, não era bem o tipo que povoava fantasias. Não se lhe via beleza nem valentia para sustentar uma mulher.

Diz-se que quem nasce com a deficiência tem maior probabilidade de lidar com a baixa auto-estima do que aquele que a adquire depois de ter uma cosmovisão já construída. Na hipótese de ter sido, de facto, assim, Lumbombo não andava por aí a fazer da sua condição uma canção. Para a família, ele nem era assim tão inútil. Passava o dia em casa e cuidava dos animais domésticos, muitas vezes usados como moeda de permuta com produtos da loja do único comerciante, português oriundo do Norte, segundo as más-línguas, sem fundos para a passagem de regresso à Europa.

Romântico inconfesso, Lumbombo não sossegava enquanto não bolasse uma estratégia aparentemente desinteressada de atrair simpatia feminina. Foi então que aprendeu a esculpir pentes de madeira, ciente de ser a vaidade a primeira amiga de uma mulher. Nem foi preciso sequer um ano para o quintal do homem andar apinhado de beldades, perdoem-me aqui algum exagero. Tantas vezes amou, outras foi amado, ainda que às escondidas, dado o preconceito que julgava contagiosa a deficiência. E com as suas poupanças passou o mestre Lumbombo a investir na criação de gado. De frágil a prodigioso, cativava beldades e acumulava bens sem sair do lugar, sem conhecer o caminho da lavra e do rio sequer, já que só se podia mover arrastando-se.

Certo dia, foi um amigo pedir-lhe um boi emprestado para optimizar a sua lavoura. Lumbombo, cordato, conhecido mais pelos seus silêncios do que pelas palavras propriamente ditas, cedeu. Uma semana depois, vinha o recado por terceiras mãos de que o boi havia morrido na lavoura. «Eu, pagar o boi do paralítico? Nunca!», refilava o ajudado. «O que é que pode ele fazer para me agarrar, por acaso vai correr?» A repreensão dos demais aldeãos era automática, tendo em conta que é sobre a honestidade e honradez que se constrói uma nação. Aquele teimava em não ressarcir.

Um ano depois, veio a notícia de grande desalento. Uma lasca de madeira havia adentrado um dos olhos do mestre dos pentes. Ter-se-ia alojado atrás da córnea. Não havendo hospital convencional, cabia aos homens ir soprar-lhe pela boca o olho. Turnos de dois, duas vezes ao dia. E como o trabalho voluntário é, em boa verdade, rotativo e obrigatório, foi o doente consultado se permitia o vigarista soprar-lhe também, ao que anuiu, garantido que nos momentos de doença e morte, a dívida podia esperar.

Chegada a vez, o devedor curvou-se para soprar. E era impecável. Mas quando menos esperava, o doente envolveu-o num grampo de braços pelo pescoço, cortando-lhe assim a respiração, ao ponto soltar gazes. «Daqui só sais com o meu boi de volta!» Os demais ainda tentaram de tudo para arrancar dos braços de Lumbombo o vigarista, não faltando quem derramasse óleo de palma, na vã tentativa de aligeirar a separação. Só horas depois, com a presença do boi, Lumbombo soltou-o. E estava aprendida a lição. Se deve, paga! Não é com as pernas que corremos, é com o pensamento. Como diz o provérbio, «una olevalisa eye onjaki» (aquele que empresta é que é o briguento).

Gociante Patissa, Aeroporto Internacional da Catumbela, 22 Setembro 2014
(*) Adaptação de um curto conto contado pelo meu avô e xará Manuel Patissa

sábado, 20 de setembro de 2014

Texto- Jornal de Angola (20/09): De acordo com Rosa Cruz e Silva, que presidiu a cerimónia de abertura do III Congresso Internacional de Língua Portuguesa, em Luanda, por essa via, os angolanos tornaram a língua portuguesa mais adequada aos contextos culturais do país.

A língua portuguesa em Angola fez uma trajectória de afirmação do património partilhado, na medida em que desde os primórdios, até ao período mais crítico da sua história, os angolanos transformaram-na na principal arma da luta contra o sistema opressor, afirmou quinta-feira, em Luanda, a ministra da Cultura.

“Nessa medida, a língua portuguesa alcançou estatuto, tal como versa a Constituição angolana. Ela vai merecer melhor tratamento dos estudiosos para que o seu ensino se revele cada vez mais apropriado, bem como o seu conhecimento. Esse exercício deverá ser feito em paralelo com as demais línguas nacionais com que convive e que lhe deram a força que adquiriu hoje”, adiantou.

Rosa Cruz e Silva considera imperioso que se conheçam os principais entraves que se assiste em relação a língua portuguesa para que não se comprometam os objectivos preconizados, nomeadamente na transmissão do conhecimento e dos valores civilizacionais da modernidade. Enquanto meio de comunicação para os mais diversos fins, salientou, não se deve pôr em causa a importância da memorização da língua portuguesa, a par das demais línguas nacionais, que por força dessa luta deverá colocar-se ao mesmo nível de importância e utilização de todos os interlocutores do país.

“Sem qualquer mácula, deve permanecer o diálogo, já que a diversidade linguística do país constitui a sua grande riqueza na validade e diversidade cultural”, frisou.

Na sua intervenção, a ministra da Cultura fez um resumo histórico da importância que os soberanos do Reino do Congo e do Ndongo já atribuíam ao conhecimento e domínio da língua portuguesa, com destaque para Nzinga Nkuvu, Nzinga Yemba (dom Afonso I) e Njinga Mbandi. Estes soberanos, recordou, preocuparam-se com a instalação de escolas em que deveriam, os meninos e meninas do Congo, aprender a ler e a escrever o português.

Noutras circunstâncias, enfatizou, solicitaram a vinda de mestres, professores e missionários, que se encarregaram do ensino da língua portuguesa, multiplicando-se as escolas e enviando-se jovens para os conventos em Lisboa, fazendo assim surgir de forma acelerada os mestres, que continuariam a obra pelos séculos seguintes.

"KOPITULE, OCO WOLALEKELE" (adágio Umbundu) - passar por casa de alguém para com este caminhar, é porque houve convite prévio.

TENTATIVA DE ENQUADRAMENTO: A consideração e a confiança, que nos permitem incondicionalmente contar com alguém, cultivam-se.

Salipo ciwa (passem bem)

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

PROPOSTA DE TRADUÇÃO: Ao fraco desempenho na lavra, vá questionar a aldeia.
ENQUADRAMENTO: É à aldeia que vamos buscar a justificação do fraco desempenho na lavra

terça-feira, 16 de setembro de 2014

"OHOMBO YACITA UTEKE, OCIVALO TUTALA LOMENLE" - (adágio Umbundu) - pariu a cabra de noite, é pela manhã que descortinamos a aparência do filhote).

Enquadramento: geralmente, é um apelo à paciência em caso de dúvida, no sentido de que a verdade vai, mais tarde ou mais cedo, emergir.

domingo, 14 de setembro de 2014

"Ku citenlã, ku cupi ongangu; nda ku teka, sanga otunguka" (adágio Umbundu) - Se não sabes, não te ponhas a imitar; se não quebras, ainda deslocas o osso.

O serão é o momento cultural mais formal entre os ovimbundu. É praticamente um dogma, só de noite é permitido contar estórias e adivinhas. Diz-se mesmo que quem o fizer durante a luz do dia corre o risco de lhe nascerem chifres (nada relacionado com o sentido de traição). Cá por mim, julgo que será uma estratégia de o entretenimento não prejudicar o horário do labor. Alguém então propõe, por exemplo:

"Alupolo!" (minha adivinha!)
"Wiye!" (Venha!)
"Nditãi kesinya, ndinyanyomõlã alensu." (Encontro-me na outra margem a abanar lenços.)
"Ina yukwene, nda enda epenle, ku koyole." (Se a mãe de outrem está em carência de vestuário, não te rias dela)

E a roda do diálogo gira com tudo o que de metafísico se reveste, vista a tendência de serem os mesmos contos e fábulas cantados, adágios e adivinhas, mas que, entretanto, não perdem o poder de suscitar o mesmo respeito, medo, fantasia e vontade de voltar a ouvir.

Bom domingo a todos, que o meu começou já com a panela de arroz doce queimada ao lume, enquanto escrevia esse bocado aqui.

Ovilamo! (cumprimentos)
Gociante Patissa, Benguela 14.09.2014

sábado, 13 de setembro de 2014

De acordo com a Angop (11 Setembro), Os 170 delegados ao V encontro de Línguas Nacionais (LN), decorrido em Menongue, no Kwandu Kuvangu, recomendaram quarta-feira a necessidade dos topónimos de origem africana serem escritos de acordo com a grafia bantu estabelecida pelo A.F.I. (Alfabeto Fonético Internacional).

Defendem em comunicado final que as direcções provinciais da Cultura devem aprofundar os estudos investigativos sobre o mapeamento linguístico das suas províncias, com a supervisão do Instituto de Línguas Nacionais, bem como estabelecer uma parceria técnico-científico com instituições nacionais e estrangeiras afins. Do Instituto de Línguas Nacionais espera-se o incremento da cooperação com os utilizadores das línguas nacionais e apelam ao bom senso das instituições superioras, no sentido de inserirem nos seus currículos mais línguas nacionais.

Incrementar e apoiar as publicações em línguas nacionais, criar prémios em línguas nacionais, bem como a necessidade das demais línguas nacionais serem estudadas com a máxima urgência, mereceu igualmente recomendação. Os representantes das 18 províncias do país recomendaram igualmente a recolha da tradição oral a fim de se produzirem textos didácticos.

Pela harmonização, recomendam que as igrejas e as entidades privadas sigam as regras da grafia Bantu, trabalhando em conjunto com o Instituto de Línguas Nacionais para o efeito e solicitem aos governos provinciais para colocarem placas de identificação das localidades, instituições, ruas e outros serviços em línguas locais.

Recomendaram também a criação de condições para a colocação das novas tecnologias de comunicação e informação ao serviço dos estudos sobre as línguas nacionais, assim como solicitam à Televisão Pública de Angola (TPA) o aumento de mais línguas nacionais na sua grelha de programação e mais tempo de emissão.

sábado, 6 de setembro de 2014

"Vakwene vayelela/ yelela twende/ kakele kacimbamba/ osala posi/
a humbi-humbi yange/ yelela/ yelela/ twende/ kakele kacimbamba/ osala posi"

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Nos festejos do segundo aniversário da Mediateca de Benguela, Gociante Patissa foi convidado a palestrar sobre "A Salvaguarda do Valor Literário" para uma plateia de cerca de 40 directores escolares do município de Benguela. O evento teve lugar na sala de conferências, a 4 de Setembro de 2014 (21 minutos de áudio)

sábado, 30 de agosto de 2014

"Nda wafulile, nyomõlã; mwenle a kambamba weya" (cantarolar Umbundu) - se estiveres a pisar (transformar bagos de milho em fuba, ou farinha), põe-te já a recolher. O dono da rocha em que trituras chegou.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

"hoje em dia, nas igrejas, o coração só está no balaio" (tudo gira em torno da arrecadação de dinheiro)

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Agora o simples domínio da língua portuguesa passa a ser condição para se adquirir a nacionalidade angolana? Ainda não li a lei, nem estudei Direito, mas parece que assim fica cada vez mais difícil sermos "nós mesmos".

domingo, 24 de agosto de 2014

"POKUPITINLÃ OCO OCILEMO CILEMA PO VALI" - (é quando estamos a chegar ao destino que o peso que transportamos parece mais pesado ainda)

Palavras de um proverbial Umbundu do meu pai, num distante dia em que carregávamos lado a lado (já não recordo bem com quem) uma grade de bebidas a pé, idos da praça da Kalumba. É a sensação que me atravessa, quando parece estar cada vez mais perto o salto a que me propus e conquistei (pela única forma que sei, juntando forças e ideias) no sentido de juntar prazer ao ganha-pão. Está-se próximo da meta, que parece cada vez mais distante.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O conto MINHA MÃE É HORTELÃ, pág. 15, que abre o meu livro FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, que vem a público no final deste ano, é uma ficção baseada numa trama real por mim testemunhada na adolescência. Só estes dois parágrafos são reais:

«O Sô Padre ainda não tinha percebido o que se passava na fazenda dele. Queria livrar depressa a cabeça do susto pelo boi que por pouco não morreu. O boi, também ainda ninguém sabia porquê, caíra para dentro da cacimba. A sorte é que esta estava seca. E o Sô Padre, que até era homem de muitas letras e de grossa inteligência, não conhecia a arte de socorrer um boi assustado. Então aprendeu o quê nas escolas, se na fazenda não rende nada, só dá ordens? Graças aos analfabetos que se safou. Nós, os piós, disparatávamos por dentro esses homens que não percebiam que criança gosta de carne. Que custava deixar o boi morrer?!

Mas isso tinha sido de manhã e o problema já estava resolvido. Até o tal boi já só coxeava bocadinho. O problema agora era o Kanjaya. Esse Kanjaya, eu até não sei quem lhe manda refilar muito quando não tem forças, acabou por levar uma boa tareia (…) Só que o Kanjaya também não se deixou ficar assim. Apanhado ali mesmo com as mangas na mão, Ndulu foi desafiado a comer cocó de boi. Acho que ia ser o primeiro na família, porque cocó de boi nunca foi coisa de ir à boca. Se era salgado, se era amargo, ou se mesmo cuiava, primo Ndulu ainda não sabia. Comer ele não queria, negar também não podia. Era só vexação mesmo o que o mafiador alugado pelo Kanjaya queria para se vingar. Dizia-se que ele podia matar e não saía nada. Que tinha breve. Que só um soco dele podia arrancar alguns dentes e deixar a boca como baliza de futebol.»

Como não podia tratar o personagem pelo nome real do primo, inventei “Ndulu”. O segredo agora já não faz sentido, pois o primo Raul Kafundanga, do bairro Nossa Senhora da Graça, em Benguela, partiu hoje, por doença. Vai amanhã a enterrar. Lala po ciwa, a upalume wange! (Dorme bem, ó primo meu!)

Gociante Patissa, Luanda 22 Agosto 2014

"Olohombo kepya/ kepya/ olomalanga vimbo/ Aci fu/ Aci mbê/ Avoyo/ twendainda ndeti"

Este trecho do cancioneiro popular Umbundu é de uma dança folclórica em roda de mãos dadas, girando aos pulos num sentido, que logo é invertido mediante o sentido da canção, quando se disser "twendainda ndeti" (que significa: o normal é procedermos assim). Conforme explicado pelo Duo Canhoto, compilador da rapsódia intitulada "Omboyo", que ganhou maior visibilidade depois de a cantora Pérola lhe dar uma roupagem mais comercial, a essência da parábola resume-se no seguinte: 

Numa comunidade em guerra, os paradigmas funcionam de maneira inversa, ou seja, literalmente, os cabritos (animais domésticos) na lavra, as palancas (animais da selva) na aldeia. Trata-se, portanto, de mais uma manifestação dos nossos antepassados contra a desordem que é inerente a lutas e conflitos. 
Ovilamo! (Saudações!)
Gociante Patissa, Luanda 22 Agosto 2014

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Ongeva onjivaluko (saudade é recordação)
omunu lokimbo lyaye (a cada um a sua terra)
nda likasi ocipãla (se está longe)
ojongole yokutyukila (o desejo é regressar)
eh mama we (oh mãe)

Zé Katchiungo, trecho do tema em Umbundu intitulado "Ngeve". Tradução nossa

quinta-feira, 31 de julho de 2014

«Nós muitas vezes acusamos “o outro” de nos ter colonizado. Portanto, o nosso discurso quase sempre faz referência à colonização portuguesa, mas nós nos esquecemos do “colonialismo” de nós próprios. Hoje há mais repressão aos curandeiros do que no tempo dos portugueses. Hoje, há mais assimilação da cultura do “outro” do que no tempo de Portugal. A libertação nacional ou a libertação espiritual é um processo que deve continuar.» - Paulina Chiziane, escritora moçambicana ao programa A Páginas Tantas, canal TVM de Macau, disponível no Youtube

domingo, 27 de julho de 2014

in «Não Tem Pernas o Tempo» (novela), União dos Escritores Angolanos, Luanda, Angola, 2013.

"Eci cakala osimbu, polonambi pali uloño volombangulo. Kaliye, volupale, omãlã vainda ponenle, vakaimba ovikanda. Cisapeliwa ka vacilete, pwãi cimwe ndaño eci calya omunu ka vaci.
(Tentativa de tradução do Umbundu: No nosso tempo, antigamente, colhia-se sabedoria nas conversas de um óbito. Hoje, nas cidades, os mais novos isolam-se para jogar cartas (sueca), não seguem o que se conversa, às vezes mal chegam a saber a causa da morte) - Alfredo Gociante, tio meu materno

sábado, 26 de julho de 2014

Pelos becos do bairro benguelense que cada vez mais se vê tentado a desistir do sonho alcatroado, o ancião deu um instintivo salto para escapar, iminente que se fazia o atropelamento por esses triciclos motorizados com carroçaria, conhecidos como kaleluya. "Omanu vaindela posi, ene olomoto wuvivolisa", reagiu com repulsa o ancião, a quem aborrecia menos o risco de atropelamento nos becos do seu próprio bairro do que aquilo que via na carroçaria: uma moto delop empoeirada, com ares de degradação por falta de uso, muito provavelmente a caminho de ser descartada. "As pessoas andam a pé, e vocês entregam as motorizadas ao apodrecimento".

domingo, 20 de julho de 2014

Oratura: ACEITAMOS «OKUPOKIWA» EM DIAS DE CARÊNCIA?


Em outubro de 2005, visitei zonas recônditas no Sambo, comuna do município da Cikala Colohanga, no Huambo. Fiz parte do grupo de pesquisadores a grupos focais ao serviço da inglesa «Save the Children». Os alvos eram crianças órfãs e vulneráveis na Ombala de Ciyaya, capital tradicional de cinco aldeolas de refugiados provenientes da Zâmbia, cerca de oito quilómetros da comuna de Samboto. A povoação ressentia-se do fim da assistência do Programa Alimentar Mundial, agência humanitária da ONU.

Mesmo que o código de conduta da «Save» não proibisse gratificações de ordem material daqueles aldeões que ensaiavam a readaptação, finda a guerra que um dia os afugentou, o quadro crítico de penúria dizia bem que nada tinham para oferecer. Para se ter ideia, ainda aos nove anos, várias crianças andavam na produção de carvão vegetal para sustentar pais e avós, muitos dos quais dependentes de aguardente artesanal.

A recolha de dados ficou concluída com êxito em uma semana, conforme o plano. O que, entretanto, não esteve previsto foi a tensa conversa com o Soba grande da Ombala na hora da despedida. Fazia questão de nos regalar com duas galinhas, dois quilos de feijão e alguma batata-doce. E agora, o que havíamos de fazer? Receber, ou não?

Uma comissão reuniu-se no cantinho, tendo como interlocutora a mais-velha do grupo. Primeiro, era-nos enorme a empatia pelo sofrimento, não fazendo grande sentido despenderem do já tão pouco. Segundo, o código de conduta proibia-nos, pois não estávamos ali em visita, mas a trabalhar sob pagamento. O Soba, que sabia ao mesmo tempo ser cordato mas intransigente, considerou de improcedente a nossa visão. Não é «nosso», sublinhava, terminar uma visita sem «okupokiwa», símbolo de hospitalidade!

Como o leitor terá já percebido, cá estamos com mais um estudo, outra vivência para abordarmos aspectos da tradição oral do grupo etnolinguístico Ovimbundu. O verbo «okupoka» (regalar) ou «okupokiwa» (ser regalado) refere-se a bens alimentares para a boa hospitalidade, genericamente servidos como refeição, donde se destacam a «ocisangwa» (bebida feita à base de farinha ou rolão de milho, conhecida pelo seu aportuguesado quissângua) e a galinha. A norma do bom acolhimento assenta no adágio de que «ukombe elende; ndopo yaco lipita» (o visitante é nuvem; passa logo).

Quanto às regras de confecção, é certo que cada grupo entre os Bantu do território de Angola tem particularidades próprias. No essencial, a galinha é guisada e servida com todas as partes que a integram, reservando-se ao visitante a primazia de abrir a mesa e escolher das porções que bem entender. Não devem faltar o coração, as tripas, as coxas, as patas, as asas, a moela e por fim o rabinho. Dado o risco de o visitante levar à risca o direito que lhe cabe, e daí apossar-se da tigela inteira, outras iguarias não tão especiais complementam a ementa para os anfitriões, tais como o feijão e as verduras. Daí que esta praxe exija dos anfitriões uma preparação das crianças, por não ser propriamente frequente para consumo o abate de animais de criação.

Julgo não estar muito longe da verdade se afirmar que os Ovimbundu levam muito mesmo a mal qualquer gesto passível de ser interpretado como desprezo ou colocar alguém na condição de mendigo. É óbvio que nem tudo é linear. A vida na cidade é cara, aliás bem eloquente é o aforismo: «ohombo yilya opapelo, omunu olya olombongo» (cabrito come papel, pessoa come dinheiro). Tal não é, porém, a herança ancestral de povo camponês, criador de gado e caçador, como dá a entender a máxima «casupa oco catenlã» (se sobrar, é porque satisfez), ou ainda «nda cipwa, cipwe; ocipa ha nanga ko» (se gastar, que gaste; pele de animal não é tecido de algodão).

Tão sagrada é a boa hospitalidade que, ainda hoje, é quase uma questão de arte o papel de bom visitante lá onde os anfitriões estejam conglomerados por laços familiares ou de forte afinidade. Como se desenvencilharia o caro leitor se cinco lares, na razão de uma galinha por cada, lhe fizessem chegar à mesa o prato? Ora, o segredo está em comer um bocado de cada lar. De outro modo, fica a mágoa de quem vir a comida rejeitada.

Regressemos, pois, ao dilema do Soba grande de uma aldeia de refugiados em extrema carência mas que exigia que aceitássemos a oferta de bom hospitaleiro. Ora, entre a ética positiva de base ocidental e a costumeira africana, onde os anciãos são por vocação uma entidade, tivemos de arranjar um meio-termo. Não era prudente afrontar uma autoridade tradicional, quando se iria caminhar cerca de dez quilómetros em mata cerrada. Foi então que juntamos o que sobrou da nossa logística, se bem me lembro uma lata de leite, grade de gasosa, uns cinco quilos arroz, massa, óleo alimentar, sal, sabão, peixe seco, entre outros, que não ficaria por menos dez mil kwanzas.

Para terminar a reflexão de hoje, diríamos que «okupoka» é um gesto simbólico de boa hospitalidade, geralmente ligado a géneros alimentares, que tanto podem ser consumidos durante a estadia, ou levados como lembrança.
Gociante Patissa, Luanda, 12 Julho 2014

segunda-feira, 14 de julho de 2014

É frequente ouvir-se a referência ao “tempo de caprandanda” (grafia errada, pois não temos “R” em Umbundu e o “C” tem pronúncia diferente de “K”). Quando foi e o que houve?

A minha adolescência foi marcada por um quadro complexo no Lobito, onde a residência se confundia com dependências das administrações comunais da Equimina e Kalahanga, uma alguns anos depois da outra. Como as deslocações de pessoas e bens eram mediante as guias de marcha, “trabalhei” também como dactilógrafo do meu pai, na sua condição de Comissário Comunal, mas sobretudo como pombo-correio da correspondência familiar entre Lobito, Catumbela e Benguela, na maioria destes casos até… a pé.

A exposição à propaganda despertou cedo o meu interesse de observador da política. Evidentemente, havia familiares que (às escondidas) não alinhavam com o Mpla. Estamos a falar entre 1988 e 1991. Calhava encontrar este ou aquele a ouvir a Vorgan, rádio da Unita, com o volume baixinho. Foi assim que certo dia retive um trecho dolente do cancioneiro Umbundu num gingle: “Kapalandanda walila / walilila ofeka yaye/ kapalandanda walila/ walilila ofeka yaye” (Kapalandanda chorou / chorou pela sua Terra/ Kapalandanda chorou / oh/ chorou pela sua Terra). Mas quem foi e chorou porquê? GP

NOTA DO BLOGUE OMBEMBWA: Segue-se, com pequena adaptação, o contributo de Carlos Duarte, in «Jornal o Chá», da Chá de Caxinde, Nº 10 - 2ª série, Abril/Maio 2014:

“Kapalandanda era sobrinho do Soba Kulembe, da Catumbela. Ia ser Soba. Agiu de 1874-1886. Adolescente, ganhou fama por ter morto sozinho um leopardo que andava a comer as cabras (…) Ainda jovem, inconformado com a passagem e estadia de caravanas de (…) comércio, levando panos e sal para o Huambo – Bailundos – e trazendo borracha, cera, mel e marfim – sem pagamento, pediu uma audiência ao Soba, seu tio, e aos sekulus, onde tentou convencê-los a que fosse cobrada uma taxa – «Onepa» - a essas caravanas. O Soba, acomodado e com medo da reação dos colonos, não concordou. Kapalandanda então reuniu um grupo de guerreiros e foi para o mato, armar emboscadas e assaltar as caravanas, cujo produto, confiscado, era em parte distribuído pelos kimbos do sobado.

Quando os colonizadores tomaram conhecimento, foram falar com o Soba para que tomasse providências e acabasse com essa resistência. O Soba reuniu os melhores guerreiros e ordenou-lhes que fossem pegar Kapalandanda. Mas o resultado foi o contrário do previsto. O grupo de Kapalandanda dominou e derrotou fácil os guerreiros de Kulembe. Os colonizadores resolveram então fornecer armas de fogo o Kulembe, acreditando que, com essa vantagem, acabariam com o grupo guerrilheiro.

Mas Kapalandanda, agindo como um Robin Hood angolano, tinha já granjeado a simpatia de grande parte dos kimbos do sobado; então, emissários dos kimbos saíam para avisá-lo da movimentação das forças de Kulembe, o que lhe deu condições de espera-las para o confronto, em local que lhe era propício, anulando assim a vantagem das armas de fogo.

Uma vez mais a tropa de Kulembe foi derrotada, e Kapalandanda ficou melhor armado. Os colonizadores resolveram então enviar uma companhia de tropa portuguesa, comandada por um capitão de nome Almeida, para submeter Kapalandanda. O encontro deu-se no Sopé do Passe. O grupo de Kapalandanda saiu derrotado e ele levado preso, primeiro para o Forte da Catumbela, e depois para S. Tomé.” 

domingo, 13 de julho de 2014

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Venho notando com satisfação o cada vez mais crescente interesse pela partilha de sabedoria popular nas línguas nacionais de origem africana. É de louvar, principalmente quando se trata de murais de gente mais nova, se tivermos em conta a conotação de que a maior tendência nas redes sociais recai para futilidades. Só me deixa aborrecido notar que quanto à língua Umbundu, não poucas vezes, algumas almas mais não fazem do que ir copiar dizeres aos meus blogue www.ombembwa.blogspot.com e mural do facebook, para colarem em seus murais ao pé da letra. Na minha ingenuidade, acredito que a sabedoria popular é património imaterial colectivo, de qualquer um que por ele tenha a mínima sensibilidade, mas que a tradução é de cunho pessoal. E essa preguiça só pode multiplicar eventuais erros do tradutor "imitado", até porque a Internet não pesquisa, não avalia, não escreve e... não erra. Divulgar a nossa língua e cultura, sim, mas com o mínimo esforço de honestidade intelectual.

Gociante Patissa, 3 Julho 2014

"Uteke uwa,Suku tate akulave kwenda akusumunlwise.Ndeci a sumunlwisa Yovi." (Tenha uma boa noite, que Deus pai o cuide e abençoe. Tal como abençoou Job)

terça-feira, 1 de julho de 2014

"Kulya, eh, walya/ a fumbelo/ waliminlã ongamba/ okwambatelako elye/ ókulu?" (trecho de um canto de resistência do cancioneiro Umbundu) - comer, oh, comeu/ o latifundiário foi avarento para com o servo/ quem te há-de carregar os haveres/ ó velho?

"Sipiseko ka mãli ekwanyu; ve yamãle ka mãli umbumba". (Adágio Umbundu) - 'empresta-me o teu cigarro' não sacia a ânsia de fumar; marido alheio não preenche os vazios de solteira.

sábado, 28 de junho de 2014

O PORTUGUÊS TEM DE DIALOGAR

Falar do futuro do português, o considerado quinto idioma mais popular no mundo, é evidentemente um assunto vasto. Enquanto recolector de tradição oral, interessa-me olhar para a realidade angolana e abraçar a vertente sociolinguística, visto o valor da língua como património cultural imaterial. A propósito, há quem defenda a existência de um tal português angolano. Temos? Sobre isso continuaremos mais adiante.

Não havendo grandes estudos oficiais no que se refere a políticas linguísticas na Angola independente, a partir dos quais teríamos indicadores para avaliar eventuais êxitos ou desvios na sua aplicação, resta assumir que qualquer exercício de previsibilidade do uso do português é ainda mais complexo. E já sabemos que nem valem a pena incursões ao passado, conhecendo como conhecemos a história da chegada da língua, que era até há bem pouco menos de 40 anos instrumento de aniquilação identitária dos povos das então colónias portuguesas, a coberto de uma tal expansão da civilização europeia.

Adoptado o português como idioma oficial, que é inquestionavelmente a língua materna de milhares de angolanos, a questão passa a ser a forma como esta dialoga com os demais idiomas de matriz africana, entre Bantu e não Bantu, nomeadamente o cokwe, fiote, helelo, khoisan, kikongo, kimbundu, ngangela, nhaneka-nkumbi, umbundu, oxindonga, oxiwambo, e o vátwa. E se o leitor nos permite problematizar um pouco sob o axioma de que cada língua veicula uma cultura, a questão seria: que cultura veicula a língua portuguesa numa sociedade multi-étnica e linguística? Bem, é em nome da cultura, que é por vocação um fruto da partilha, que teremos de evitar radicalismos e complexos, sejam eles de inferioridade ou de superioridade, pois as sociedades são dinâmicas e o fenómeno linguístico é inerente à interação dos povos.

Quando falamos do diálogo que deve existir entre as línguas, é tendo precisamente em conta o cuidado necessário para que o status dado a uma língua, que geralmente corresponde a determinado grupo social, não represente a subjugação de outros. Em tempos, um notável intelectual desabafava pelo que interpretava como sendo um sinal da subalternização institucional das nossas línguas nacionais. Não lhe pareceria, pois, razoável a prática de haver sempre um tradutor para estrangeiros que falem à imprensa ou ao parlamento e, entretanto, quando chega a vez de anciãos e autoridades tradicionais, terem de o fazer num português em que por vezes mal se expressam e compreendem, com todo o desconforto que isso implica.
Como defendeu em 2003 a brasileira Eveli Sengafredo, na tese de pós-graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, “a língua constitui-se das mesmas forças políticas, sociais e culturais que produziram as diversas civilizações e culturas do mundo. Ela ocupa uma crucial posição na interacção social, sendo um agente importantíssimo de transmissão de valores sociais e culturais”.

Já existe o português angolano? Há quem defenda que sim, mesmo até com base na linguagem literária que incorpora cada vez mais termos e expressões tipicamente do nosso linguajar, como por exemplo, “é maka grossa me apanhar a pata”. Mas isto basta para legitimar a existência de uma variante angolana? Como caracterizar a pronúncia padrão dos locutores noticiosos, o sotaque europeu? O certo é que o português angolano não existe, tão-só porque não se estabeleceu uma norma própria, oficial.

O futuro do português, quanto a mim, passa por assumir de maneira integradora o seu papel de língua oficial relativamente às outras de matriz africana. Impõe-se um rigoroso trabalho de estudos linguísticos e antropológicos, de modo a valorizar a correcta grafia da toponímia e a essência proverbial dos nomes africanos. Insistir-se na substituição forçosa do “K” pelo “C”, mesmo quando se trata de algo tão representativo como o rio Kwanza ou a província do Kwando-Kubango, pelo magro argumento das confusões por a língua oficial ser avessa às consoantes “K, W, Y”, tão comuns nas línguas Bantu, só vai atrair ainda mais recalcamentos. O português tem de dialogar!

Gociante Patissa, Luanda 25 Junho 2014 (licenciado em linguística, especialidade de inglês)

sexta-feira, 27 de junho de 2014


TRECHO DA CANÇÃO DE CESAR KANGWE, DÉCADA DE 1980
"Vandivanja lolombweti/ pala okundiveta / mekonda lya yuna/ ndayongwile"

Ver tradução dos meus amigos via Facebook nos comentários

segunda-feira, 23 de junho de 2014


Da casa de um primo seu fazendeiro no Dombe-Grande, o meu pai voltara com arranhões e o bolso da camisa rasgado. A saudade fora tão grande que, à chegada, partiu para um efusivo abraço, gesto que o cão de guarda tomou por agressão ao seu amo, acostumado à regra de se sentar primeiro e saudar depois. Assim é com os Va Cisanji.
Num universo marcado pela exiguidade bibliográfica na recolha da tradição oral, os rígidos preceitos científicos não são propriamente a nossa tenção. Não abdicamos é de contribuir com vivências, ainda que o façamos com a regularidade de um vaga-lume.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

"Olombongo vikola, vyakanjupile kumãi/ avoyo/ avoyo weh/ olombongo vikola"

É uma canção dolente, revolta pela impotência humana perante a obrigação de trabalhar para sobreviver. "O dinheiro tem poder, trouxe-me [da paz] da casa da minha mãe [para sofrer], oh, oh, o dinheiro tem poder"

segunda-feira, 16 de junho de 2014

domingo, 15 de junho de 2014


sábado, 14 de junho de 2014

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Da casa de um primo seu fazendeiro no Dombe-Grande, o meu pai voltara com arranhões e o bolso da camisa rasgado. A saudade fora tão grande que, à chegada, partiu para um efusivo abraço, gesto que o cão de guarda tomou por agressão ao seu amo, acostumado à regra de se sentar primeiro e saudar depois. Assim é com os Va Cisanji.
Num universo marcado pela exiguidade bibliográfica na recolha da tradição oral, os rígidos preceitos científicos não são propriamente a nossa tenção. Não abdicamos é de contribuir com vivências, ainda que o façamos com a regularidade de um vaga-lume.
Tornando à cena do visitante agredido. Passa-se que tanto este como o anfitrião são de uma localidade culturalmente fronteiriça entre os municípios de Balombo e Bocoio, encaixada administrativamente no último. Dista cerca de 170 Km a nordeste da capital da província de Benguela, território com predominância da etnia Ovimbundu e que se comunica na língua Umbundu, representando 1/3 da população estatísticas avulsas e abrange as províncias do Kwanza-Sul, Benguela e Namibe (costa), Bié, Huambo e Huila (planalto centro e sul).
Segundo Fernandes & Ntondo (2002), referidos em Kavaya[1] (2006: 54), formam o grupo os va Viye, Mbalundu, Sele, Sumbi, Mbwei, Vatchisandji, Lumbu, Vandombe, Vahanya, Vanganda, Vatchiyaka, Wambu, Sambu, Kakonda, Tchicuma, o maior etnolinguístico angolano (acima de 4.500.000 pessoas). Quanto à etimologia, Arjago[2] (2002: 23) sugere que foram apelidados, “pelos povos encontrados, de vakwambundu, o que significa gente vinda das zonas de nevoeiro, tratando-se do litoral”.
Nestes subgrupos, cada encontro, por simples que seja, representa provavelmente uma oportunidade de inventariar a vida, sem preocupações relativas à economia do tempo. «Okwimbwisa ulonga», fazer a saudação, é um longo relato da situação familiar e introduzir o motivo do encontro, desde o último contacto, cobrindo depois o social, o económico e o político. A linguagem é coloquial e inevitavelmente proverbial. Como veremos adiante, entre os Va Cisanji, a «ulonga» é ainda mais minuciosa. Podemos concluir esta fase generalista com a certeza de que é ao bem-estar que se aponta.
Do Bocoio, a minúcia da «ulonga» é norma nas demais quatro comunas: Monte-Belo, originalmente Utwe Wombwa (cabeça de cão), Chila (de Ocila, palco, pista), Cubal-do-Lumbo (de Kuvale Kwelumbu, Cubal Mágico) e Passe (Epasi). O chefe do lar é o interlocutor exclusivo. Nos meios mais conservadores, acomoda-se o hóspede sem diálogo quase nenhum, enquanto alguém vai buscar o interlocutor. Na impossibilidade, é substituído pela esposa e, na ausência desta, pelo descendente mais-velho. É sempre o mais-novo (inferior hierárquico por idade, grau de parentesco, cargo) quem começa a contar o estado de saúde, sendo facultativa a pergunta. Se o mais-velho começa a explicar, é sinal para o inferior distraído o interromper.
Eis algumas passagens de diversas «ulonga». (a) Dialéctica: “Etu vo, mumosi haimo. Tulinga tuti vamwe vatokota, vamwe vapola. Apa mbi omãlã omo vakulila, etu twakulu omo tukukila” (Connosco é igual. Uns quentes/doentes, outros frios/com saúde. Se calhar é o jeito de nós, os mais velhos, envelhecermos e os mais novos crescerem); (b) Fome: “Twalale, omo mwenle apa omo… Etaili, okulikwata komenlã, oco okusuyako” (A noite passou-se, enfim… Hoje, levar a mão à boca, só se for para coçá-la); (c) Insegurança: “Wangombe, apamba lilu” (ao jeito do boi, os chifres em riste); (d) Aflição: “Wambwa, kwatwim kuliwa” (ao jeito do cão, as orelhas sendo roídas).
Resumindo, «Okwimbwisa ulonga», a saudação a preceito, é uma instituição entre os Ovimbundu, constituindo na tribo Ocisanji uma afronta ser questionado pelo mais-novo sobre o estado de saúde, e como tal choque de cultura na interacção até com povos vizinhos.
Gociante Patissa, Benguela, 11 de Junho de 2014



[1] KAVAYA, M. 2006. EDUCAÇÃO, CULTURA E CULTURA DO ‘AMÉM’: Diálogos do Ondjango com Freire em Ganda,/ Benguela, ANGOLA. Rio Sul, Brasil: Pelotas.
[2] ARJAGO. 2002. OS SOBAS: Apontamentos Étno-linguísticos Sobre os Ovimbundu de Benguela. Edição do autor.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

"NDA OMÕLÃ OLILILA OMOKO YOPUTO, OVE UYAVELA! [ECI YUTETA, EYE MWENLE]" (adágio Umbundu) - Se a criança chora por uma navalha, dá-lha. [Quando se ferir, terá sido por ela mesma]

Explicação: Se o orgulho impede a pessoa de ouvir conselhos, há que deixá-la com as suas escolhas. O arrependimento vem mais tarde com as consequências.

sábado, 31 de maio de 2014

Segundo o jornalista Reginaldo Silva, "Mais projecções do INE sobre o estado da população angolana referentes a 2012..."

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Passam das 10 horas da manhã. É domingo. Pessoas normais estarão a caminho da praia, a visitar parentes, ou na cama em ressaca, não ligadas ao telefone fixo com discurso repetido para uma lista com mais de 80 nomes. Mas tem de ser, e é comigo:
"Aló", atende-me uma voz feminina. 
"Sim, bom dia. Ligo da empresa X para confirmar se a senhora vai usar o serviço que reservou para hoje. Falo com a senhora Wanda?"

Do outro lado da linha, a senhora não se contém. Rebenta mesmo uma risada com sabor a sarcasmo. Estou calmo e deixo a senhora rir-se às custas do meu ouvido. Instantes depois, satisfeita talvez por lavar a alma, ela confirma, corrigindo:
"/Uanda/?! /Vanda/!!! Sim, sou eu. Vou usar".

Não sou pago para discutir sociolinguística com os clientes. Aliás, pouca utilidade há para pensar, de tão autómatas que certas missões são, pelo que agradeço a atenção e deixo um até logo.

Agora, no intervalo entre uma chamada e a outra, quem ri sou eu. Sim, porque em Umbundu, língua nacional predominante no centro e sul do país chamado Angola, e em particular em Benguela, "owanda", ou simplesmente "wanda" [ua:nda], significa rede. É um nome que se dá a crianças que surgem depois de o casal ter perdido outros filhos. É como metáfora a dizer que a rede da morte poderá arrastar esse recém-nascido a qualquer momento também. E a pessoa cresce com aquele nome. Para a minha interlocutora, de certeza, só existe uma forma, Wanda que se lê com /v/.

Já lá vão uns três anos e não sei como fui pensar logo hoje em ruídos na comunicação.
 Gociante Patissa, Benguela, 08.12.2012

"Powiñi wakuto, nda ka pakavi ava vafinya, pakava ava vafembula"
(no grupo dos que usufruem aos excessos a fartura, se não se cansam os que peidam, cansam-se os que têm de abanar com a mão o nariz torcido para minimizar o fedor).

segunda-feira, 19 de maio de 2014

"Ame ndoco nda vakwa CENSO vandipulisile nda ndikwete olusu vonjo, ame nda ndilinga mwenle siti si kwete. Eci ndifeta olusu ndilila, omo okuti - ndapanga ale oviyaso, oloneke olusu yenda ovyo vyalwa vali enene - ndifeta ño olusu yimwe okuti sa yimwinle".

TRADUÇÃO (português)
Se eu fosse questionado pelo pessoal do Censo sobre a energia eléctrica em casa, eu diria mesmo que não a tenho. Quando pago pelo consumo de electricidade, eu choro, pois - já fiz os cálculos, os dias de falha são a maioria - tenho estado a pagar por algo que não vi. (De um cidadão que falava ao programa Omenle Yocinjomba, da Rádio Benguela, hoje)

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Quando em meados da década de 1990 do século 21 testemunhei a grande festa de efiko (ritual de iniciação feminina) entre os Vakwandu, grupo cultural pré-Bantu predominante no chamado território dos Vandombe, fiquei mais ou menos decepcionado. Estava de visita à comuna da Kalahanga, tinha eu pouco menos de 15 anos, e o meu pai, outro militante profundo pela tradição oral, cuidou de nos aproximar à manifestação cultural daquele povo. Como filhos do chefe (o velho era o administrador comunal), foi-nos granjeado um lugar privilegiado. A minha decepção nada tinha que ver com o ritual em si, ou com eventual diabolização infundada de que este tem sido vítima ao longo dos tempos, mas tão-somente pela forma como anciãos procuravam, digo mesmo compulsivamente, roubar um pedaço de carne ao lume e ir chupando o tutano, tão agarrados ao osso, sujeitando-se a pauladas do guardião da copa. Na minha concepção, como julgo ser na da maioria de outros Ovimbundu, o osso é a parte menos valiosa do animal. Temos um provérbio segundo o qual “u olya omuma ka litami losonde”(quem come o fígado não se suja com sangue). Subentende-se existir no fígado o maior prestígio, tanto assim é que, quando se prepara uma refeição para visitas ou pessoas relevantes, o fígado é das partes que não devem faltar. Outro provérbio diz que “u ka li po ombelela yaye akepa” (ao ausente, há o risco de sobrarem apenas ossos para conduto, mais concretamente o que seria acompanhante para o pirão de milho ou de farinha de mandioca, que é invariavelmente a base das principais refeições no meio rural). Bem, é certo que não seria pelo valor antropológico do osso que o estudante de origem Ovimbundu andaria aos pontapés com o conteúdo da anatomia, que atribui ao esqueleto o mérito do equilíbrio do corpo humano. Para terminar, partilho uma das várias lições indirectas que retenho da minha mãe, nesta máxima: “cimwe, nda tuyola, tuyolela ño apa kuti ovayo akepa” (às vezes, se é que nos rimos, só o conseguimos porque os dentes não passam de ossos). E aqui vai um poema que vem no meu livro GUARDANAPO DE PAPEL, pág. 15. NósSomos. Lisboa, Portugal, 2014:

REGISTO MAGNÉTICO DA MAMA

Calha às vezes filho
que o arco-íris pinta cantos farpados
no centro da mão do tímpano

Também calha filho
que o arco-íris traz cócegas à pétala

O músculo então cede
com a leveza da água
afinal
dentes são só ossos.

Gociante Patissa, Catumbela, 16 Maio 2014 

Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa 2015

Vídeo | Lançamento do livro A Última Ouvinte by Gociante Patissa, 2010

Akombe vatunyula tunde 26-01-2009, twapandula calwa!

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