1. Do enquadramento
Foi lançado em nome do Blog Ombembwa Angola um concuro de
tradução baseado em aforismos e provérbios da língua Umbundu/recordados na
música «Latchimwe» do Trio Semba da Katombela». Esperava-se uma tradução que
levasse em conta o enquadramento contextual e não apenas a mera conversão de
palavras. O vencedor escolherá entre receber um mosquiteiro tratado, um
exemplar do livro ALMAS DE PORCELANA ou uma garrafa de amarula.
2. Do enunciado
2.1. "U longa, longa, ka tava; wutatamenlã kohita / Wutatamenlã kohita /
eye wenda kimbo lyavo"
2.2. "Mãi wanduka lyahuka / omõla ka tava okulonga"
2.3. "Waveta etemo posi / waivalwisa olongunja"
2.4. "Ombinja yukwene / ndaño oco yafina ndati / ka yukupi epenle"
2.5. "Vapikaila u okuta / valongaisa una ukuyeva"
3. Dos concorrentes
Apenas o amigo Felisberto Ndunduma Sakutchatcha arriscou na tradução, pelo que reclama
a legitimidade do troféu. O parecer da organização é que o seu empenho vale
pela metade, pois o que se pretende com os provérbios é, fundamentalmente,
enquadrá-los no contexto sócio-antropológico. Respondeu ele da seguinte forma:
«1. Se a tanto conselho não aceita, educa-lhe no prato (na comida) e voltará
para a sua terra de origem; 2. Sou chamado "teimoso" pela minha minha
mãe, por mim ser difícil demais de aconselhar; 3. Quem bate a enxada no chão
faz lembrar aos camponeses o trabalho de cultivo; 4. Por mais linda que seja a
camisa de outrem, ela não te tira da carência de vestuário; 5. Cozinha-se para
quem se farta e aconselha-se quem ouve.»
4. Da nossa interpretação
2.1. "U longa, longa, ka tava; wutatamenlã kohita / Wutatamenlã kohita
/ eye wenda kimbo lyavo" - Se tu aconselhas, aconselhas e ela não
muda; então rejeita a comida dela/ Rejeitada a comida, ela abandona o lar e
regressa à procedência. (Trata-se de uma das lições transmitidas a partir dos
ritos de passagem aos futuros maridos, já que em termos de divisão de tarefas,
as refeições são a cargo da esposa e socialmente um indicador para aferir a boa
educação, hospitalidade e harmonia no lar. Logo, se o marido não come em casa,
é um desprezo passível de separação.)
2.2.
"Mãi
wanduka lyahuka / omõla ka tava okulonga" - A minha mãe
alcunhou-me "Traquinas", o filho que não ouve conselhos. (Em
sociedades tradicionais, onde os mecanismos de responsabilização e sanção operam
pela via verbal, o conselho dos pais enquanto molde moral têem um valor
universalmente enorme.)
2.3.
"Waveta
etemo posi / waivalwisa olongunja" - Quem bate a enxada no chão
reaviva a memória dos camponeses. (Estamos em presença da celebração do gesto,
por um lado, e do enaltecimento de uma ferramenta que representa muito na
economia rural.)
2.4.
"Ombinja
yukwene / ndaño oco yafina ndati / ka yukupi epenle" - A camisa de
outrem, por mais linda que seja, não te supri da carência. (Quer isto dizer que
é preciso conquistar as coisas passo a passo e não cultivar a cobiça, que
normalmente é parcial)
2.5.
"Vapikaila
u okuta / valongaisa una ukuyeva" - Há que confeccionar alimentos
para aquele que sabe o que é estar saciado; há que aconselhar quem sabe ouvir.
(Aqui parece escusado o enquadramento).
5. Do resultado
Ponderadas as questões numa relação de expectativa-resultado, o
prémio é entregue ao único concorrente, Felisberto Ndunduma Sakutchatcha, COMO
FORMA DE ESTIMULAR A EXERCITAÇÃO DA NOSSA TRADIÇÃO ORAL. Terá ele dois dias
para confirmar o que deseja receber, entre um mosquiteiro, um exemplar do livro
ALMAS DE PORCELANA ou uma garrafa de amarula.
Gociante Patissa