Gociante Patissa, Lobito 11 Janeiro 2013
Em
Angola, é comum usar o termo dialecto
para designar as línguas nacionais de origem africana, remetendo-as
implicitamente ao papel de subalternas da língua portuguesa. Por desconhecimento
ou por preconceitos, é ponto assente que tal fenómeno é, mais do que problema linguístico,
uma questão social e de políticas de Estado.
A
caminho de quatro décadas de independência, urge esbater tal herança pejorativa
da colonização portuguesa, de si célebre pelo investimento na fragilização da
identidade cultural dos indígenas de então. Como defende MCCLEARY, Leland (2007: 11), “a sociolinguística
não usa a palavra dialecto
nesse sentido pejorativo. Para a sociolinguística, dialecto quer dizer, simplesmente, uma variação regional”.
Observemos que,
segundo Fernandes & Ntondo (2002), citados
em KAVAYA, Martinho (2002: 54), formam o grupo Ovimbundu, os va Viye, Mbalundu,
Sele, Sumbi, Mbwei, Vatchisandji, Lumbu, Vandombe, Vahanya, Vanganda,
Vatchiyaka, Wambu, Sambu, Kakonda, Tchicuma, e este grupo corresponde ao maior etnolinguístico
angolano (acima de 4.500.000 pessoas) e comunica-se na língua Umbundu.
No
contexto de poligamia, partilhamos várias vezes o mesmo tecto com outras
mulheres de meu pai. Culturalmente, as “sepakãi” (rivais) são vistas como “irmãs
mais-novas” de nossa mãe, a primeira esposa (sendo isso mais determinante do
que a idade cronológica para o estatuto de “Ukãi
watete” ou “ndona yukulu”, a principal
do patriarca).
Se
no princípio tratávamos por “tias” as outras esposas, uma posterior reprimenda do
pai viria a fazer-nos mudar. (Não existindo designação correspondente a meio-irmão,
as crianças de outros lares seriam nossas primas?) Passamos a trata-las por “mãmã”
e a progenitora de “mãi”. Na verdade, não se tratou de invenção alguma nossa, pois
é “mãmã” qualquer prima ou irmã da nossa verdadeira mãe, como seria “papai”,
o nosso, e papa [pa:pa], seus primos e irmãos. Curioso é que mesmo que sejam do
primeiro grau, irmã ou prima do nosso pai é “tia”, bastando apenas que não
sejam do mesmo género.
Em
1992, a passar uma temporada na comuna do Monte-Belo, que dista cerca de cem
quilómetros a leste do Lobito, senti-me intrigado por uma resposta, quando
pretendia saber a ementa do jantar, mais concretamente o que seria acompanhante
para o pirão de milho, que é invariavelmente a base das principais refeições no meio rural. “A mãmã, tulya la nye?” (Com que
vamos comer?) A resposta foi: “Tulya mwenle lombelela”
(literalmente, vamos comer mesmo pirão com conduto).
Ainda
adolescente e com poucas noções de variações regionais, levei a resposta a mal,
vendo nela um corte rude, que em Umbundu dizemos “oku tesula”. Foi nessa
ocasião que passei a saber que a “tia”, oriunda da Chila, comunidade fronteiriça
entre Va Cisanji (Bocoio, província de Benguela) e Va Sele (província do Kwanza-Sul),
tinha percepção diferente, como adiante explica SAYANGO, Avelino:
Nas
áreas do Huambo, Bié e Kaluquembe, o termo ombelela é usado para
designar qualquer tipo de conduto que acompanha o pirão. Assim tanto serve para
designar carne de vaca ou de porco, de ave, como feijão, ervilha, ovos
preparados de várias maneiras, folhas de mandioqueira, de abóbora, cogumelos
etc. Nas mesmas áreas, o número oito diz-se “ecelãlã” e o número nove “ecea”. Pelo contrário, nas áreas Hanya, Cisanji e Cilenge, o
termo “ombelela” tem um sentido
restrito. Designa a carne servida com pirão. Não se estende aos legumes ou
verduras. Carne que se não come, não se designa por “ombelela”. Assim pode-se imaginar a decepção dum Cisanji, em casa
de bieno, a quem se anunciou um almoço suculento de “ombelela” ao encontrar na mesa um prato de pirão com simples
folhas de mandioca!
(Sayango, Avelino, 1997: 8)
Por outro lado, "sekulu yange" significa, em Benguela, meu marido, ao passo que no Huambo é normal um menino dizer "sekulu yange", pois estará simplesmente a referir-se ao seu avô. Ainda na senda das diferenças, podemos acrescentar outra que tem que ver com tabús. O município do Bocoio, dos Va Cisanji, situa-se no centro, tendo a oeste o Lobito, setenta quilómetros, e a leste o Balombo, também à mesma distância. Se
para os Va Mbalombo, a expressão “oku tutumunlã ketako” significa
sacudir a poeira da região das nádegas, já para os Vacisanji tal seria um
profundo disparate, porque interpretariam como sendo sacudir os órgãos genitais.
As barreiras
que ora abordamos são
de natureza semântica, susceptiveis que são de criar constrangimentos entre
falantes do Umbundu, do mesmo jeito que o fenômeno ocorre em qualquer outra língua
da humanidade.
Obras Citadas
Kavaya, M. (2002). Educação, Cultura e Cultura do ‘Amém’:
Diálogos do Ondjango com Freire em Ganda / Benguela / ANGOLA. Dissertação
apresentada ao Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal de
Pelotas, como requisito parcial à obtenção . Rio Sul, Brasil: Pelotas.
McCleary, L. (2007). Curso de Licenciatura em
Letras-Libras. São Paulo, Brasil: USP.
Sayango, A. (1997). O Meu Pai (Vol. 1). Luanda,
Angola: Barquinho – Livraria Evangélica.













