quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

1) "Onambi ya papai ka yambalele, cambala osanji yange yekondombolo; nda sa kwatele osanji yekondombolo, onambi yapapai nda sayimwinle"
(Proposta de tradução: O óbito do meu pai não me doeu, doeu-me mais foi o meu galo. Se eu não possuísse um galo, o meu pai não teria um óbito condigno (eu não iria a tempo de me despedir do meu pai))

2) "Onanga ya papai ka yambalele, yalanda osanji yange yekondombolo; nda sa kwatele osanji yekondombolo, onanga yapapai nda sayimwinle"
(Proposta de tradução: Os panos do meu pai não me custaram tanto; adquiri-os em troca pelo meu galo. Se eu não possuísse um galo, seria incapaz de regalar o meu pai com panos)

Se você conhece outra versão ou tem uma tradução melhor, sinta-se convidado a contribuir neste exercício de preservação da nossa língua/cultura.

Ndapandula/Obrigado

Gociante Patissa
www.ombembwa.blogspot.com

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O alarme acusativo do pórtico de rastreio era-
lhe mais do que familiar. Não olhou o mínimo que fosse atrás como seria em jeito de mea culpa perante os seguranças.

 A entrada, sua e da respectiva caixa de ferramentas, não só era autorizada, como também necessária para dar vida aos vários andares da unidade produtiva. Daí que a birra do alarme ilustrava bem a quantas o aparelho andava assim com modos de Luanda, onde cumprir ou não a palavra... dá no mesmo. 

Caminhou em direcção à porta que a automação do elevador indicara. Exprimiu com clareza a saudação ao senhor que já ali se encontrava e contentou-se com o último lugar na ordem de prioridade. É chato ser o último, é verdade, mas não se podia queixar, afinal não faltará neste país gente em pior posição. Ser o último de dois não pode ser de todo desesperador.

E lá chega, sem pressa nenhuma, o elevador. O técnico, quase a trintar de velas bafejadas, embarca sem no entanto deixar de reclamar. O nosso elevador é aquele de monta-cargas. Não é isso?... - cortou logo, na dúvida se trataria o interlocutor por doutor ou engenheiro. Tinha noção do quão ofensivo era tratar certas personalidades pelo diminutivo título de senhor. Sim - anuiu para retribuir a cortesia.

É verdade, meu chefe, desde manhã até à hora presente, não conseguem só pelo menos consertar o elevador de serviço? Ah está avariado? Sim, doutor. Quando nos vê aqui a se misturar com os clientes, nós e os da limpeza, é porque o nosso não está bom. Ok, não tinha pensado até ali.

E lá parte o elevador em ascensão. Qual é a actividade da vossa empresa? Nós é manutenção. Isso de substituir lâmpadas, reparação eléctrica, aplicar pladur. Tudo é co... - ia dizer connosco mas aí o elevador parou, entraram outros inquilinos, homens e mulheres trajados a preceito de executivos. Fez-se silêncio. Depois fechou-se a porta. Foi o último som.

Do terceiro andar, a estação seguinte viria a ser o nono onde as portas laminadas se abriram para a saída dos executivos. Fez-se de novo silêncio. A comitiva de fatos e gravatas de fino corte desapareceu dos olhares pelos labirintos. Nenhum deles olhou para trás. Fechou-se a porta.

 Viste só, meu chefe, o comportamento dos doutores? Pois vi. Nada, eh!!!, é mesmo já assim?! - exclamou o operário. Do jeito como entraram é do jeito como saíram, indignou-se. Nem já um boa tarde. Enfim... Parece que se tornou ilegível a mecânica do elevador como metáfora da vida, onde podemos hoje subir mas descer amanhã. Ainda era só isso. Obrigado.

Gociante Patissa | 16 Agosto 2019 | www.angodebates.blogspot.com (escrito com teclado de telemóvel ao terceiro dia sem luz em cada 🤣🤣🤣)

sábado, 10 de agosto de 2019

Recebendo o autógrafo da autora do DICIONÁRIO DE VERBOS CONJUGADOS EM UMBUNDU & PORTUGUÊS, Cesaltina Kulanda, o qual sua excelência eu apresentou no acto de lançamento que teve lugar hoje, 09 de Agosto, na União dos Escritores Angolanas, em Luanda (sob chancela da Chela Editora). Foi uma oportunidade lúdica de reencontro com as memórias e cultura umbundu, a par de reflectir sobre os empecilhos, alguns de natureza institucional, que influenciam o lugar político, cultural, académico e social das línguas nacionais de origem africana em Angola, fazendo com que pesquisar e dar eco a elas seja um acto de resistência, numa sociedade que elevou a língua portuguesa, que era suposto ser factor de coesão nacional, ao patamar de monstro que não dialoga com as demais já encontradas no território. Ainda era só isso. Obrigado

A imagem pode conter: 1 pessoa, em pé
(captação da imagem por Kiamba Uimgui)

sábado, 11 de maio de 2019

UMBUNDU: Usonehi Gociante Patissa wasapela lanoño youkuyevalisa asapulo Figueiredo Casimiro, catyamenla kekalo lyofeka lokwiya kwocela covaimbo, koputu vai eleições autárquicas, TPA1, 11.05.2019
PORTUGUÊS: Escritor angolano, Gociante Patissa, entrevistado sobre autarquias, noticiário em língua Umbundu TPA1, 11.05.2019, com o jornalista Figueiredo Casimiro.





terça-feira, 30 de abril de 2019


Passam das 10 horas da manhã. É domingo. Pessoas normais estarão a caminho da praia, a visitar parentes, ou na cama em ressaca, não ligadas ao telefone fixo com discurso repetido para uma lista com mais de 80 nomes. Mas tem de ser, e é comigo:
"Aló", atende-me uma voz feminina.
"Sim, bom dia. Ligo da empresa X para confirmar se a senhora vai usar o serviço que reservou para hoje. Falo com a senhora Wanda?"

Do outro lado da linha, a senhora não se contém. Rebenta mesmo uma risada com sabor a sarcasmo. Estou calmo e deixo a senhora rir-se às custas do meu ouvido. Instantes depois, satisfeita talvez por lavar a alma, ela confirma, corrigindo:

"/Uanda/?! /Vanda/!!! Sim, sou eu. Vou usar".

Não sou pago para discutir sociolinguística com os clientes. Aliás, pouca utilidade há para pensar, de tão autómatas que certas missões são, pelo que agradeço a atenção e deixo um até logo.


Agora, no intervalo entre uma chamada e a outra, quem ri sou eu. Sim, porque em Umbundu, língua nacional predominante no centro e sul do país chamado Angola, e em particular em Benguela, "owanda", ou simplesmente "wanda" [ua:nda], significa rede. É um nome que se dá a crianças que surgem depois de o casal ter perdido outros filhos. É como metáfora a dizer que a rede da morte poderá arrastar esse recém-nascido a qualquer momento também. E a pessoa cresce com aquele nome. Para a minha interlocutora, de certeza, só existe uma forma, Wanda que se lê com /v/.


Já lá vão uns três anos e não sei como fui pensar logo hoje em ruídos na comunicação.

Gociante Patissa, Benguela, 08.12.2012


segunda-feira, 29 de abril de 2019



(*) António Fonseca | Programa Antologia, Rádio Nacional de Angola | 27.04.2019

Muito já se falou sobre a questão das línguas nacionais e, a ela associada, sobre a questão da toponímia e da identidade nacional. Como o tema não está esgotado, aqui está, pois, o Antologia para trazer subsídios ao debate que se impõe em torno da questão. Para tal, importará talvez elencar os diversos aspectos que se levantam, de modo a que, sobre cada um deles, possamos ir emitindo o nosso ponto de vista e talvez contribuir para que se faça luz sobre a questão.

1 – Quanto à questão de definir o que são ou quais são as línguas nacionais, no caso angolano, dissemos no último programa que, por exclusão de partes, as mesmas só podem ser as línguas gentílicas das comunidades socioculturais que habitam o território angolano, independentemente da sua territorialidade ou de serem transfronteiriças. Para nos posicionarmos ante a questão, partimos do Decreto Nº 77, de 9 de Dezembro de 1921, do Alto-comissário e Governador de Angola, José Mendes Ribeiro Norton de Matos, que estabeleceu o que passo a citar:

Artº 2º - Não é permitido ensinar nas escolas das missões línguas indígenas.
Artº 3º - O uso da língua indígena só é permitido em linguagem falada nas catequeses e, como auxiliar, no período do ensino elementar da língua portuguesa.
& 1º - É vedado na catequese das missões, nas suas escolas e em qualquer relação com os indígenas, o emprego das línguas indígenas ou de outra linguagem que não seja a portuguesa (...)

Portanto, chegados aqui, com alguma razoabilidade, somos forçados a afirmar que o próprio Alto-comissário e Governador de Angola, José Mendes Ribeiro Norton de Matos, foi quem, por oposição entre as línguas indígenas e a língua portuguesa, definiu já em 1921 que as línguas indígenas são as línguas nacionais de Angola.

2 – Quanto à questão da Toponímia e Identidade Nacional, são dois aspectos que andam muito ligados. A questão que amiúde se coloca é a de se não deveriam ser mantidos os antigos nomes de localidades, de ruas e de avenidas e mesmo se as estátuas do período colonial não deveriam voltar a ocupar o seu antigo lugar. As opiniões dividem-se e verificamos que se vai impondo uma certa tendência de fazer ressurgir tais nomes. Ora, todos sabemos que a toponímia, os nomes de ruas e lugares, não são dados por mero acaso. São dados para exaltar um feito ou uma figura. Por esta ordem de razão, os heróis e feitos heróicos do colonizador não são os heróis nem os feitos heróicos do colonizado. Por outro lado, a toponímia visa cimentar valores e caucionar uma identidade. Por esta ordem de razão, de igual modo, a perspectiva do colonizado não pode ser a perspectiva do colonizador.

3 – No pós-independência a alteração dos nomes foi vista como “uma forma de marcar a vitória pela a independência e como afirmação da identidade africana dos angolanos independentes, há muito oprimida institucionalmente pelo colonialismo. Este era também um dos objectivos de movimentos como “Vamos Descobrir Angola” onde participaram figuras como Viriato da Cruz, António Jacinto e Luandino Vieira”[1] e, de um modo geral, dos grandes poetas da geração da Mensagem.

Perguntarmo-nos pois se faria sentido voltar a chamar Cidade de Salazar à Cidade de Ndalatando, ou se faria sentido voltar a chamar Cidade de Carmona à Cidade do Uíge? Cremos que não, pois estaríamos a homenagear aqueles que tanto dano causaram ao nosso povo e que nem na sua respectiva pátria merecem tal homenagem. Já agora, pergunto-me por que razão a Cidade do Namibe voltou a ser chamada de Cidade de Moçamedes. Será que se quis homenagear o tráfico negreiro, ou a reposição de tal nome terá sido apenas fruto da ignorância? Como dizia o escritor Pepetela, chamar Moçamedes ao Namibe equivale a chamar Salazar a Ndalatando ou Carmona ao Uige[2].

Para quem queira ouvir e portanto reflectir sobre a manutenção do nome de Moçamedes para a cidade do Namibe, importa dizer que o Barão de Moçamedes, em cuja honra foi no tempo colonial dado o seu nome àquela cidade, foi uma das principais figuras do tráfico de escravos em Angola. Senão vejamos:

a)     Barão de Mossâmedes (ou barão de Moçâmedes) foi um título de juro e herdade criado por carta régia de 13 de Agosto de 1779 da rainha D. Maria I a favor de José de Almeida e Vasconcelos, um militar e governador-geral de Angola. A propósito de Moçâmedes, pode ler-se no artigo Namibe, Cecil Rhodes, descolonização e o Barão de Moçâmedes, publicado na página ANGONOMICS[3].

b)     “O nome Moçâmedes é uma homenagem ao antigo governador-geral de Angola, José de Almeida e Vasconcelos Soveral e Carvalho, o Barão de Moçâmedes (ou Mossâmedes). Quando ordenou a exploração de terras a sul de Benguela em 1785, o Barão despachou o tenente-coronel Luís Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado e o sargento-mor Gregório José Mendes e quando chegou à Angra do Negro – o nome pelo qual os portugueses conheciam a zona do porto do Namibe por ser um local de embarcação de escravos – rebaptizou o local como Porto de Moçâmedes em homenagem a José de Almeida e Vasconcelos.

José de Almeida e Vasconcelos, que antes de cumprir a missão em Angola foi um capitão-mor de sucesso na capitania de Goiás no Brasil, para onde foi enviado pelo Marquês de Pombal, chegou a Angola em 1784 e tinha entre as suas prioridades retomar o controlo metropolitano do comércio de escravos e das receitas aduaneiras inerentes ao comércio de pessoas que estava a ser dominado por comerciantes baseados no Brasil.

Durante o governo de José de Almeida e Vasconcelos, o Barão de Moçamedes, entre 1784 e 1790, o tráfico de escravos atingiu níveis recorde na colónia de Angola, como escreveu Joseph Calder Miller. Assim, retomar o nome de Moçâmedes é efectivamente homenagear um servidor diligente do colonialismo, sendo amplamente considerado como um servidor público de qualidade pelos serviços prestados para o império português; a causa que serviu jogou em muitos aspectos contra a causa dos povos de Angola.

Com o regresso ao nome colonial, Moçâmedes, passa-se a homenagear uma pessoa ligada à administração colonial em pleno período de vigência do comércio transatlântico de escravos, a principal actividade comercial e principal fonte de receitas para administração colonial em Angola.”

Pelas questões apresentadas acima, fica a ideia que a decisão de passar o nome da cidade do Namibe para Moçâmedes foi baseada em informação frágil uma vez que representa efectivamente uma homenagem a um homem cujas acções, por iniciativa própria ou por inerência das funções que desempenhava, o desqualificam para qualquer tipo de homenagem toponímica na Angola de hoje. Portanto, parece-nos ser esta uma questão para reanalisar...
_________________
Biografia
António Antunes Fonseca nasceu no Ambriz em 1956. Licenciado em Economia pela Universidade Agostinho Neto, é diplomado em Estudos superiores especializados de políticas culturais e acção artística Internacional pela faculdade de Direito e ciências políticas da Universidade de Bourgogne, França.

É o actual PCA do Memorial Dr. Agostinho Neto, em Luanda. Dirigiu a Empresa Nacional de Discos e de Publicações desde 1982 e já dirigiu o Instituto do Livro e do Disco de 1983 a 1994. Iniciou a actividade jornalística na Emissora Católica de Angola, ingressado posteriormente na Rádio Nacional de Angola, onde desde 1978, realiza e apresenta o programa Antologia.

Membro da União dos Escritores Angolanos (UEA), foi co-fundador da Brigada Jovem de Literatura e da Associação Angolana dos amigos do livro. Publicou Raízes, Sobre os Kikongos de Angola, Poemas de Raíz e Voz, e Crónicas dum Tempo de Silêncio. Figura em algumas antologias e possui colaboração dispersa em alguns jornais e revistas luandenses.

(*) Texto escrito para o Programa Antologia, da Rádio Nacional de Angola, edição de 27 de Abril de 2019. Versão revista e editada pelo Blog Angodebates / com UEA. Foto: Angop


[1] Namibe, Cecil Rhodes, descolonização e o Barão de Moçâmedes, ANGONOMICS
[2] Pepetela, TEXTUALIDADES – Conversa com os Leitores – MAAN, Luanda, 2019
[3] Namibe, Cecil Rhodes, descolonização e o Barão de Moçâmedes, ANGONOMICS

Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa 2015

Vídeo | Lançamento do livro A Última Ouvinte by Gociante Patissa, 2010

Akombe vatunyula tunde 26-01-2009, twapandula calwa!

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