terça-feira, 14 de maio de 2013

Um pouco de sociologia com adolescentes lavadores de carro


Enunciado (o mais fiel possível conforme observado):
“Já sabes? A minha vizinha virou maluca”.
“Ouvi que tem mais uma de Benguela”.
“Isso até ‘tá a dar medo”.
 “Conheço uma miúda, não é bonita nem nada, tem um [Hyundai] i10. É samba”.
“Estão a pisar grandes máquinas”.
“Tipo nada, os kotas estão a largar”.

Enquadramento:
A ideia principal resume-se aqui: “Conheço uma miúda, não é bonita nem nada, tem um i10. É samba”. Há uma crença entre os Ovimbundu na existência de força sobrenatural para atrair homens, num estilo de vida intensamente promíscua com fins materialistas. Esse poder chama-se “samba”.

Sendo a existência do feitiço indiscutível, vale acrescentar que a sua essência é o status: acumular bens, chegar ao poder, manter-se no trono, proteger-se. Em algumas comunidades, a tendência é masculinizar o feitiço (“umbanda”), sendo “oganga” o homem (que pode chegar a matar, por status ou por inveja) e “ocilyangu” a mulher (que supostamente anda fora de hora a dançar nua à porta de quem quer na desgraça). Quem recebe "samba" recebe “umbanda”, embora seja uma categoria mais leve.

Voltando ao diálogo, na percepção de beleza enquanto moeda, só as mulheres que completam os estereótipos (a tal beleza aparente) merecem ostentar bens, já que, “tipo nada, os kotas estão a largar”. Logo, para uma miúda que “não é bonita nem nada” ter um carro, só pode ser porque recorreu ao feitiço para iludir clientes com um charme que não possui. E, algo cíclico, começam a espalhar-se informações sobre raparigas que alegadamente enlouqueceram porque o feitiço expirou, ou porque não teriam cumprido os preceitos do kimbanda.

Impressão final:
Ao mesmo tempo que me revi parcialmente no diálogo, por este representar repúdio à ascendente degeneração das relações humanas, onde adultos endinheirados corrompem raparigas com idade para suas filhas (ou mesmo netas), não deixei de sentir uma ponta de tristeza; aqueles lavadores de carros demonstraram estagnação quanto à visão de mobilidade social. Em nenhum momento se referiram a alguém (“feia” ou “bonita”) que tenha carro porque conseguiu formar-se, arranjou emprego e pediu crédito.

Gociante Patissa, Aeroporto Internacional da Catumbela 13 Maio 2013

Sobre a origem do nome da cidade de Benguela


A propósito dos 396 anos que a cidade de Benguela completa no próximo dia 17 de Maio, o Jornal Cultura de 13 a 26 de Maio de 2013 traz um interessante ensaio do historiador, escritor e editor Armindo Jaime Gomes (ArJaGo), do qual partilho o trecho que tem que ver com a origem do nome:

“Do étimo mbenga, Benguela é corruptela do verbo “okuvenga” da língua umbundu; okuvengela (sujar) / okumbengela ovava (sujar-me a água), relativamente às águas estagnadas e em língua portuguesa é entendido como turvar, turvar-se, perturbar, alterar, transtornar, escurecer, embaciar, nublar, enuvear (Pe. Alves, A., 1951). Evoluído de “mbengela”, a toponímia passou asignificar perda de transparência, de limpidez, de clareza, perturbação, fazer perder a razão, cobrir o céu de nuvens, situação confusa, indefinição (op. cit.). Apesar de fazer parte da onomástica planáltica, a exemplo de Katombela, Mbaka, Kakonda, Civangulula, etc., a versão popular admite que o topónimo tenha resultado da distorção linguística nos primeiros contactos entre os portugueses e ambwi. Em vez do nome da região que se pretendia saber, os intrusos receberam a justificação da turvês das águas lacustres e fluviais.”

quinta-feira, 9 de maio de 2013

"Catepa cakopilila"

"Catepa cakopilila" (adágio Umbundu)- o que rebentou (corda) foi reforçar-se. Explicação: há momentos em que, qual cordas, rebentamos para que possamos regressar em nó mais forte.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

"Ukulu wombwa ka tombokatomboka ulyenge, ucinlã wutaima"

"Ukulu wombwa ka tombokatomboka ulyenge, ucinlã wutaima" (adágio Umbundu) - Cão velho não pula sobre a fogueira, arde a cauda. Explicação: gente madura pondera as consequências dos passos que dá.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

"Katape po; ku ka venge po."


"Katape po; ku ka venge po." (expressão Umbundu)- Vai a fonte e tira a agua; mas não a turves.
Quantas não são as vezes que prejudicamos algo que nos é benéfico...

sábado, 13 de abril de 2013

OCILONGWA: OMBANGULO VONJO (PARÁBOLA: A COMUNICAÇÃO NO LAR)


UMBUNDU

Kwakala ukwenje umwe okuti, omo ka solele upange wokulima, wavanja upange vocakati kolupale waye. Vokwenda kwoloneke, yu wainda loku lilongisa elimi lyoputu. Lo ame layo vo yafetika okuvokiya.
Eteke limwe, vokwenda oku ñwalañwala, wasokolola okulya osanji lovakamba vaye konanya. Okwiya wosika ndona yaye hati:
— “Ó mulher, vou trazer meus 'migos. Tráta lá aquilo!” (eye ka longisa oputu yaco ku ndona).
Vokutyuka, weya yapa lesanju, lesolo kumosi. Pwãi hati ndivanjiliya pevindi, osanji alopo yeyi yivanja pevindi, ka yapondelwe, ka yatelekelwe.
— “Mas, ó mulher”, osanji kwa yitelekele?
— Sio! — Ukai watambulula, lelyanjo.
— “Mas eu não disse trata lá aquilo”?
— Oco mwenle ndapanga. Omo okuti walinga heti tala tala kilu, ndasima siti ukwetu mbi wasakalala lombela. Oko mwenle ndalaaaaña loku tala tala kilu, ndamuna wacinuma.

(Wasapuila ko kota lyange Rosa Ngueve Gociante Patissa)

PORTUGUÊS

Era uma vez um jovem que, por não gostar de ir à lavra, arranjou um emprego na urbe da sua localidade. E foi aprendendo a língua portuguesa com o tempo, o que veio a estar na base do aumento da vaidade.
Certo dia, enquanto saía para um passeio, entendeu que voltaria com os amigos para o almoço, dando à esposa a seguinte orientação:
— Ó mulher, vou trazer meus ‘migos. Trata lá aquilo! (ensina já a língua portuguesa à coitada da mulher, nada!).
Voltava, alegre, com aquela água na boca de quem espera degustar uma “galinha gentia” bem guisada, e tal… Só que, para a sua surpresa, a galinha continuava no canto, viva, não guisada.
— Mas, ó mulher, não cozinhaste a galinha?
— Não! – respondeu, nas calmas, a mulher.
— Mas eu não disse trata lá aquilo?
— Foi isso mesmo que fiz. Passei o dia a espreitar o céu, ainda pensei que tivesses alguma paranóia com a chuva. Tal como mandaste (tala tala kilu), não fiz outra coisa o dia todo.

(Chegou-me através da irmã mais velha Rosa Ngueve Gociante Patissa)

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Oratura: A CASA ENQUANTO VALOR PRIMÁRIO PARA OS OVIMBUNDU


"Ove ku kwete cimwe/ weh/ nye wantungila onjo?" (Tu que nada tens, por que construíste a casa?)

São versos de um cântico popular Umbundu de um rito que ocorre no Natal e passagem de ano, em que se anda de casa em casa na comunidade a cantar e dançar em virtude de se chegar com vida a tais épocas. Há outros temas mais positivos do cancioneiro, tais como "twa pandula ciwa/ weh/ etali ulima wapwa" (Estamos muito gratos que hoje acabou o ano). O tema em apreço em particular sai quando o dono ou dona de casa tarda a satisfazer a alegria dos festeiros, ao que se acrescenta "senhora é cototó/ vida do marinheiro". É tudo na boa.O ritual chama-se "sese" e normalmente os grupo são caracterizados por critérios de idade, mais concretamente o de crianças, o de jovens e adolescentes, e o de adultos. Na classe dos adultos, não tenho por agora a certeza se os homens também participam ou se se reserva apenas a senhoras. A finalidade da brincadeira é arrecadar bens alimentares para culminar com um piquenique, geralmente numa montanha. alguns bairros ainda preservam prática, mas com o tempo vai desaparecendo. Há aqui a reter que pela pergunta (no sentido de, "se nada tens, como construíste a casa?"), os Ovimbundu pressupõem que a casa é a riqueza primária, logo, se tu tens casa, tens sempre algo a partilhar com os visitantes.


OBS: Pesquisa em construção

Gociante Patissa, 11 Abril 2013

"Oku cita osoma ha co ko oku yovoka; cimwe vakwene vosivaiya, ove u njali ofila mwenle opo"

"Oku cita osoma ha co ko oku yovoka; cimwe vakwene vosivaiya, ove u njali ofila mwenle opo" - Ter um filho rei não é necessariamente estar salvo; se calhar ele é louvado na rua, mas tu em casa morres na desgraça (palavras de uma tia minha em jeito de moral de um conto que ela partilhou comigo, o qual reproduzirei em Umbundu e Português quando tiver um pouco mais de tempo e calma).

segunda-feira, 8 de abril de 2013

"Vimo lyukwene ku tandavala" (adágio Umbundu)

"Vimo lyukwene ku tandavala" (adágio Umbundu) - quem está no útero não pode esticar as pernas. Quem depende do outro tem de ter noção dos limites.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Oratura: DIALECTOS, VARIAÇÕES REGIONAIS E ALGUMAS BARREIRAS ENTRE OS OVIMBUNDU (ensaio de Gociante Patissa, Jornal Cultura 1-14 Abril 2013)


DIALECTOS, VARIAÇÕES REGIONAIS E ALGUMAS BARREIRAS ENTRE OS OVIMBUNDU (Gociante Patissa, Jornal Cultura 1-14 Abril 2013)

Em Angola, é comum o uso do termo dialecto para designar as línguas nacionais de origem africana, sejam elas de matriz Bantu ou pré-Bantu, remetendo-as implicitamente ao papel de subalternas da língua portuguesa. Por desconhecimento ou por preconceitos, é ponto assente que tal fenómeno é, mais do que problema linguístico, uma questão social e de políticas de Estado.

A caminho de quatro décadas de independência, urge esbater tal herança pejorativa da colonização portuguesa, de si célebre pelo investimento na fragilização da identidade cultural dos indígenas de então. Como defende MCCLEARY, Leland (2007: 11), “a sociolinguística não usa a palavradialecto nesse sentido pejorativo. Para a sociolinguística, dialecto quer dizer, simplesmente, uma variação regional”.

Ainda quanto aos conceitos, o site http://conceito.de/dialecto diz que dialecto é “todo o sistema linguístico que deriva de outro mas que não apresenta uma diferenciação suficiente relativamente a outros de origem comum (…) Dialectos são, na realidade, formas particulares de falar ou de escrever uma determinada língua”.

Quanto à demografia, segundo Fernandes & Ntondo (2002), citados em KAVAYA, Martinho (2002: 54), formam o grupo Ovimbundu, os va Viye, Mbalundu, Sele, Sumbi, Mbwei, Vacisanji, Lumbu, Vandombe, Vahanya, Vanganda, Vatchiyaka, Wambu, Sambu, Kakonda, Tchicuma, e este grupo corresponde ao maior etnolinguístico angolano (acima de 4.500.000 pessoas) e comunica-se na língua Umbundu.

Tirando proveito do meio familiar como laboratório sociolinguístico, permita-me, caro leitor, recorrer a algumas ilustrações na primeira pessoa, à guisa de estudo de caso.

Pirão com conduto

No contexto de poligamia, partilhamos várias vezes o mesmo tecto com outras mulheres de meu pai. Culturalmente, as “sepakãi” (rivais) são vistas como “irmãs mais-novas” de nossa mãe, a primeira esposa (sendo isso mais determinante do que a idade cronológica para o estatuto de“Ukãi watete” ou “ndona yukulu”, a principal do patriarca).

Se no princípio tratávamos por “tias” as outras esposas, uma posterior reprimenda do pai viria a fazer-nos mudar. (Não existindo designação correspondente a meio-irmão, as crianças de outros lares seriam nossas primas?) Passamos a trata-las por “mãmã”, diferente de “mãi”, que se reserva à progenitora. Na verdade, não se tratou de invenção nossa, pois é “mãmã” qualquer prima ou irmã da nossa verdadeira mãe, como seria “papai” o nosso, ao passo que usamos papa [pa:pa] para nos referirmos aos seus primos e irmãos. Curioso é que mesmo que sejam do primeiro grau, irmã ou prima do nosso pai é “tia”, bastando apenas que não sejam do mesmo género.

Em 1992, a passar uma temporada na comuna do Monte-Belo, que dista cerca de cem quilómetros a leste do Lobito, senti-me intrigado por uma resposta, quando pretendia saber a ementa do jantar, mais concretamente o que seria acompanhante para o pirão de milho, que é invariavelmente a base das principais refeições no meio rural. “A mãmã, tulya la nye?” (Com que vamos comer?) A resposta foi: “Tulya mwenle lombelela” (literalmente, vamos comer mesmo pirão com conduto).

Ainda adolescente e com poucas noções de variações regionais, levei a resposta a mal, vendo nela um corte rude, que em Umbundu dizemos “oku tesula”. Foi nessa ocasião que passei a saber que a “tia”, oriunda da Chila, comunidade fronteiriça entre VaCisanji (Bocoio, província de Benguela) e VaSele (província do Kwanza-Sul), tinha percepção diferente, como adiante explica SAYANGO, Avelino:

‘Nas áreas do Huambo, Bié e Kaluquembe, o termo “ombelela é usado para designar qualquer tipo de conduto que acompanha o pirão. Assim tanto serve para designar carne de vaca ou de porco, de ave, como feijão, ervilha, ovos preparados de várias maneiras, folhas de mandioqueira, de abóbora, cogumelos, etc. Nas mesmas áreas, o número oito diz-se “ecelãlã” e o número nove “ecea”. Pelo contrário, nas áreas Hanya, Cisanji e Cilenge, o termo “ombelela” tem um sentido restrito. Designa a carne servida com pirão. Não se estende aos legumes ou verduras. Carne que se não come, não se designa por “ombelela”. Assim pode-se imaginar a decepção dum Cisanji, em casa de bieno, a quem se anunciou um almoço suculento de “ombelela” ao encontrar na mesa um prato de pirão com simples folhas de mandioca!’ (Sayango, Avelino, 1997: 8)

Por outro lado, em Benguela, "sekulu yange" significa meu marido (como tal estritamente feminino), ao passo que no Huambo é normal um menino dizer"sekulu yange", pois estará simplesmente a referir-se ao seu avô. Na senda das diferenças, acrescentemos outra que tem a ver com tabus. O município do Bocoio, dos Va Cisanji, situa-se no centro, tendo a oeste o Lobito, 70 quilómetros, e a leste o Balombo, também à mesma distância. Se para os VaMbalombo, a expressão “oku tutumunlã ketako” significa sacudir a poeira da região das nádegas, já para os VaCisanji tal seria um profundo disparate, porque interpretariam como sendo sacudir os órgãos genitais.

As barreiras que ora abordamos são de natureza semântica, susceptíveis que são de criar constrangimentos entre falantes do Umbundu. E como bem sustentam Cyranka & Pinto (2010: 502), “a sociolinguística ensina-nos que, onde há variação linguística, sempre há avaliação social”.

Obras Citadas:

 KAVAYA, Martinho. (2002). Educação, Cultura e Cultura do ‘Amém’: Diálogos do Ondjango com Freire em Ganda / Benguela / ANGOLA. Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal de Pelotas, como requisito parcial à obtenção. Rio Sul, Brasil: Pelotas.
CYRANKA, Lucia; PINTO, Consuelo. (2010). Aportes Sociolinguísticos à Prática do Professor – Implicações na Sala de Aula (Vol. XIV). UFJF. Brasil.
MCCLEARY, Leland. (2007). Curso de Licenciatura em Letras-Libras. São Paulo, Brasil: USP.
SAYANGO, Avelino. (1997). O Meu Pai (Vol. 1). Luanda, Angola: Barquinho – Livraria Evangélica.

domingo, 31 de março de 2013

"Fele viso… oco mbanje vomenlã wove nda mulehã"


"Fele viso… oco mbanje vomenlã wove nda mulehã." (Expressão Umbundu) – sopra-me no olho… para que eu saiba o teu hálito. 
Explicação: No dia a dia, quando um corpo estranho nos entra no olho, é comum pedirmos a quem estiver perto que sopre para remover o que nos incomoda, e neste caso é inevitável sentir-lhe o hálito. Do ponto de vista metafórico, aplica-se a expressão para designar situações de pessoas que fazem o papel de “agentes provocadores”, digo aquele que inicia conversas para “pescar” o pensar de outrem com fins inconfessos.

sábado, 30 de março de 2013

"Ca minle haico loku loluka"

"Ca minle haico loku loluka." (adágio Umbundu) - O que amadurece está propenso a cair. Ou seja, o que é bom dura pouco.

sábado, 23 de março de 2013

"Ci landa ongombe ci tunda ponjo."

"Ci landa ongombe ci tunda ponjo." - Os recursos com que se compram o boi vêm de casa; A educação e maldade partem de casa/lar (máxima Umbundu).

segunda-feira, 18 de março de 2013

Oratura: Breve nota sobre o sentido etimológico da bebida “ocisangwa” (ensaio de Gociante Patissa no Jornal Cultura, edição Nº 26, de 18 a 31 de Março de 2013)


A “ocisangwa” (mais conhecida pelas corruptelas “quissangua” e “kisangua”) é uma bebida típica em Angola, feita à base de ingredientes simples e naturais. Não creio haver uma forma consensual que sirva de receita, tendo em conta até a nossa peculiar diversidade étnica. Ainda assim, podemos resumir a sua classificação em dois galhos: (a) a fermentada e alcoólica, (b) a azeda ou não, mas não alcoólica. Mas para não dispersar o foco, concentremo-nos à realidade dos Ovimbundu.

No dicionário electrónico http://www.dicionarioweb.com.br/quiss%C3%A2ngua.html, encontramos uma remissão ao autor Serpa Pinto (1846-1900), I, 147, que, pecando apenas pela visão redutora da geografia étnica dos ovimbundu, não deixa de apresentar ao mundo a bebida. Para aquele expedidor e entidade da autoridade colonial portuguesa, “quissangua é uma bebida refrigerante, usada pelos Bihenos, e feita de uma decocção da raiz do imbúndi, addicionando-se fuba fervida”.

O propósito destas linhas é partilhar o resultado de uma recente recolha pela nossa tradição oral, quanto ao significado antropológico de “ocisangwa” (a azeda ou não, mas não alcoólica), aquele líquido da importância da água, sempre presente e acessível a todas as idades. Às vezes basta uma boa dose de “ocisangwa” para se passar o dia todo na lavoura.

O modo de preparo é pela fervura, similar ao de “ekela lyo sema” (papa de milho), com uma mistura de fuba e rolão, que fará o papel de “ovitami”, (minúsculas porções trituráveis de milho para engrossar o líquido, que fazem com que se esteja constantemente a agitar o copo para se evitar o desperdício de os abandonar no fundo deste). Há quem use o arroz como “ovitami”, substantivo que julgamos advir de “okutamenla”, que em Umbundu significa engrossar.

Para adoçar o líquido, os povos usavam raízes, havendo também quem lhe acrescente troncos de “onyoñolo” para caprichar no aroma. Tais práticas, como é de imaginar, são ainda usuais no meio rural, dada a riqueza da flora angolana e o vasto conhecimento sobre sua multidisciplinar aplicação na medicina alternativa. Mas é ao açúcar que mais se recorre de modo geral. Quanto à sua conservação e até transporte, recorre-se à “ombenje” (cabaça), substituída por utensílios mais modernos conforme o meio.

Aliás, voltemos ao universo cibernético para aferir a dimensão cosmopolita da “ocisangwa”. O site português www.sabores.sapo.pt/receita/quissangua-de-fuba, por exemplo, providencia uma receita para quem quer recordar ou conhecer novos sabores. E quanto aos ingredientes, 200 gramas de fuba de milho, três a quatro litros de água, 250 gramas de Açúcar e Fermento q.b. Sendo lógico que nada é estático, impõe-se entretanto realçar que, do ponto de vista da essência, a levedação ocorre de maneira natural e não por fermento industrial. E enquanto pesquisadores, é-nos difícil comentar sobre o resultado do produto por via dessa receita, a qual não provamos (ainda).

A “ocisangwa” é dos bens de presença obrigatória na “ongandala”, a trouxa tradicional que se leva nos rituais de “oku tambela” e/ou “oku lomba” (conhecidos como “consentir” e “alambamento” ou “alembamento”). Então porquê? E é daqui que parte a vontade de partilharmos. Segundo nossas idóneas fontes, o líquido é de elevado valor no que à hospitalidade diz respeito. O termo “ocisangwa” vem de “oku sangiwa”, que também se diz em muitas variantes do Umbundu “oku sangwa. Ou seja, “ocina co ku sangiwa ale cimwe cisangwa”, é algo encontrado, símbolo pelo qual o anfitrião se revela hospitaleiro, claro está, tendo na mulher a garantia da sua existência.

Essa é a nossa, mas aguardamos com agrado pela versão que você tiver.

 Gociante Patissa, Benguela

segunda-feira, 11 de março de 2013

SOBRE O PAPEL DO PROVÉRBIO (*)


Os primeiros tempos das nossas gerações, o Povo Angolano dentro de cada Etnia conservou como identificaram como tal assim que, entre muitos usos e costumes destacaram-se os Adágios ou Provérbios os quais eles usavam durante o tempo em que resolviam algumas questões ou mesmo sentenças, onde aplicavam como analise e fecho das mesmas para educa-la. Usavam outros para divertimento durante os serões dentro da própria Comunidade, portanto, três espécies de Provérbios:

1. Provérbios de remate, esclarecimento e analise na solução de alguns assuntos.
2. Provérbios, máximas ou adivinhas que se aplicavam como divertimento durante os seroes.
3. Provérbios ou contos cantados em que colocavam os animais e aves a falarem como pessoas mas que no fim encerravam uma moralidade ou mesmo um conselho.

domingo, 10 de março de 2013

"Cipepa cipwa, civala cilimba."

"Cipepa cipwa, civala cilimba." (máxima Umbundu) – não há bem que perdure nem mal que sempre dure.

Literalmente: o saboroso acaba, o doloroso fica esquecido

sábado, 9 de março de 2013

Na senda da investigação sobre "Recados Implícitos na Atribuição de Nomes a Animais entre os Ovimbundu"

Na senda da investigação sobre "Recados Implícitos na Atribuição de Nomes a Animais entre os Ovimbundu" a que o link faz referência, recolhi recentemente mais um dado com base na tradição oral. No interior de Benguela, aí por volta dos anos 1940-60, um velho da minha família deu ao seu cão o nome de "Twakwame" (forma simples de dizer "Tuvakwame", o imperativo querendo dizer "sigámo-los"). Não consigo dizer com peso de certeza o que se passava, mas o contexto sugere a existência de algo novo, uma tendência de movimentos, que podiam ser os de luta anti-coloniais. Porque o provérbio de base é: "Twakwame oco tutale ovituwa vyavo" (vamos segui-los para conhecer seus hábitos).

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Apontamentos: Recados implícitos na atribuição de nomes a animais entre os Ovimbundu


Gociante Patissa, Benguela (ensaio publicado via Jornal Cultura, edição como ilustra a foto)

Parte o presente exercício de dois relatos de um casal que revelava semelhanças num gesto das respectivas mães, os quais, vistos além da coincidência, fornecem matéria antropológica. Trataremos a mãe do marido por Njali-A e a da esposa por Njali-B, correspondendo “onjali” ou “njali” a pai/mãe, tutor/a. O que as separam são uma década e cerca de 600 km. Njali-A vivia em Kutenda, município da Tchicomba, na Huila, e o gesto deu-se na década de 1970. Por sua vez, njali-B vivia no Monte-Belo, município do Bocoio, em Benguela, e sua acção deu-se na década de 1980.

Njali-A e njali-B têm em comum o papel de “ndona yukulu” ou “ukãi watete”,esposa mais-velha ou primeira mulher, traduzindo literalmente. É o estatuto social dado às primeiras esposas, em contextos de poligamia, onde, independentemente da idade, das demais “sepakãi” (rivais) a sociedade espera uma postura de “irmãs mais-novas”. 

Os Ovimbundu são o grupo etnolinguístico de origem Bantu que predomina no centro e sul de Angola, em seis das 18 províncias: Kwanza-Sul, Benguela e Namibe (costa), Bié, Huambo e Huila (planalto centro e sul). Representam 1/3 da população, num país com 16 milhões de habitantes, e cerca de oito grupos de matriz Bantu, sem esquecer os Khoisan, pré Bantu, e ainda os de ascendência ocidental.

Para Fernandes & Ntondo (2002), citados em Martinho Kavaya (2006: 54), formam o grupo etnolinguístico, Ovimbundu, os va Viye, Mbalundu, Sele, Sumbi, Mbwei, Vatchisandji, Lumbu, Vandombe, Vahanya, Vanganda, Vatchiyaka, Wambu, Sambu, Kakonda, Tchicuma, e este grupo corresponde ao maior étnolinguístico angolano (acima de 4.500.000 pessoas) e comunica-se na língua Umbundu.

Chama atenção, entretanto, a proximidade estatística entre o trabalho de Fernandes & Tondo e o do estudioso António Correia (2012), como podemos verificar num trecho do seu Blogue: “Distinguem-se pelo menos 18 grupos Ovimbundu diferentes: Mbailundu, Vyié, Wambu, Ngalangui, Quibulos, Ndulu, Quinolos, Kalukembes, Sambu, Kakonda, Quitatos, Sele, Ambuis, Hanhas, Gandas, Chikuma, Ndombe, Lumbu. É o maior grupo etnolinguístico angolano (cerca de 4.970.000 pessoas)”.

Até que sejam conhecidos os resultados do Censo Populacional em curso, uma iniciativa governamental que visa contornar o facto de os dados oficiais datarem de há quatro décadas, toda a estatística neste sentido está sujeita ao benefício da dúvida. Entretanto, estamos confortáveis em acrescentar que nem sempre o número de falantes é indicador de etnia, um fenómeno que podemos atribuir a dois factores: (a) a motricidade das comunidades de trabalhadores do CFB (Caminho de Ferro de Benguela), do Lobito (Benguela, litoral centro) ao Luau (Moxico, extremo leste e de predominância Lunda Cokwe); (b) o êxodo para as cidades e/ou zonas mais seguras durante as três décadas de guerra civil, onde poderá contar o facto de a UNITA (rebelião armada) ter imposto o Umbundu como símbolo de afirmação patriótica nas zonas sob seu domínio.

As principais decisões do lar entre os Ovimbundu, à semelhança de vários outros grupos de Origem Bantu, reservam-se ao marido. Uma dessas é referente à atribuição do nome ao recém-nascido, como aliás o realça Avelino Sayango (1997: 8): “É o pai, e não a mãe, que tem a prioridade na escolha de um membro da sua família para ser o sando (chará) do primeiro bebé, quer se trate dum menino ou duma menina”.

Este exemplo é apenas uma amostra daquilo que são os aspectos decorrentes da atribuição de papéis com base no género em culturas de pendor “machista”, onde a participação da mulher na tomada de decisões é (aparentemente) nula, pois este ser secundário tem subtilezas para vincar posição. Falaríamos por exemplo da influência que as mulheres vêm tendo sobre as mais temidas figuras e tramas da humanidade.

No contexto das comunidades rurais que abordamos, a maioria das mulheres dedicava-se ao cultivo e lida doméstica, salvo poucas excepções para confirmar a regra. Eram, então, as que tinham formação elementar para o professorado ou enfermagem. O mesmo se aplica aos homens, no cultivo e na caça, excepto uns poucos na função pública, com ofício, ou então para-militares. Njali-A era esposa de motorista hospitalar e Njali-B de funcionário administrativo. Seus maridos eram de concentrar as várias esposas num mesmo espaço, chamemos-lhe de quintal, e com isso uma convivência intensa entre as “irmãs” rivais. Até aos dias de hoje, há quem o pratique nos centros urbanos, o que é culturalmente normal, mas nem por isso fácil de gerir.

Njali-A adoptou um cão, a quem atribuiu o nome de “Notole”. Njali-B intitulou o seu cão “Cohinla”. A palavra é ícone, o que seria pleonasmo referir, já que é sobre o adágio que assentam os nomes dos Bantu. Segundo Francisco Xavier Yambo (2003: 23), o ocimbundu acredita na interacção e correlação de forças entre todos os seres viventes. Outro grupo de nomes, o mais variado, vai das circunstâncias palpáveis em que a criança nasce à preocupação de perpetuar a memória deste ou daquele ente-querido.

Ora, tirando proveito deste paradigma, e na aparente banalidade do direito de dar nome a um animal doméstico, Njali-A e Njali-B vincam posições: Notole, ndikasi vesaila; nate ciwa, ndikasi lo kimbo lyetu” (choca-me bem, sou pinto dentro do ovo; trata-me bem, que faço falta à terra de onde venho).Cohinlãmange calwa” (é muito o que se esconde no silêncio de mulher madura). E assim apresentam, não só um protesto passivo-agressivo aos maridos, mas também uma denúncia à comunidade sobre o que lhes intriga da poligamia, durante o ciclo de vida do cão, qual sino diário.

Numa perspectiva inversa, e reportando-nos ainda à comuna do Monte-Belo, vem outro exemplo: “Kanjila-Komange” foi a alcunha que certo homem chamou para si.Kanjila komange kakwete lapa katekula, lapa kasumbiwa”(por mais insignificante que possa parecer, o passarinho-mãe tem um ninho a sustentar e exercer autoridade).

Podemos concluir que não andará muito longe da verdade a hipótese de que a atribuição de nomes proverbiais a animais como forma de protesto é prática antiga entre os Ovimbundu e provavelmente de outros povos Bantu, dada a semelhança entre Njali-A e Njali-B, que vivem em épocas e lugares distantes. Não nos parece, por outro lado, que seja ao acaso também que um homem adoptou a alcunha para reclamar respeito.

Obras Citadas

Correia, A. (2012, Abril 25). O PENSAR ANTROPOLÓGICO ANGOLANO.Blogue de António Correia , pp. http://jornalistacorreia.blogspot.com/2012/04/o-pensar-antropologico-angolano.html.
Kavaya, M. (2006). EDUCAÇÃO, CULTURA E CULTURA DO ‘AMÉM’: Diálogos do Ondjango com Freire em Ganda / Benguela / ANGOLA. Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal de Pelotas, como requisito parcial à obtenção do título Mestre em Educação (p. 54). Rio Sul, Brasil: Pelotas.
Sayango, A. (1997). O MEU PAI (Vol. 1). Luanda, Angola, Angola: Barquinho – Livraria Evangélica.
Yambo, X. F. (2003). PEQUENO DICIONÁRIO ANTROPONÍMICO UMBUNDU. Luanda, Angola: Editorial Nzila.

"Epute lyukwene ka lyu kuvala"

"Epute lyukwene ka lyu kuvala" (máxima Umbundu) - A ferida do outro não te causa dor (física).

Quase equivalente a: pimenta no olho alheio é refresco

Ocilongwa kUmbundu: "Ca kuta epata, ocilala ci sule."

Adágio Umbundu: o entendimento familiar é mais sólido que uma fortaleza; numa outra interpretação, os segredos familiares são bastante complexos.

quinta-feira, 7 de março de 2013

UMBUNDU: Ndo kuvangula cesilivilo lyo ocisangwa ko kukala kutundasyãhunlu wo wiñi wovimbundu (PORTUGUÊS: Breve nota sobre o sentido etimológico da bebida Ocisangwa na cultura Ovimbundu)

Ombenje/cabaça (foto de autor desconhecido)

Ocisangwa (vamwe vacitukula vati “quissangua” e “kisangua”), casyata okunyuiwa mulo von Ngola, cipongiyiwa lo huta yaleluka kwenda yatanda ko kovaimbo vosi. Tusima tuti ka kuli onjila yimosi lika yoku pongiya, nda twa vanjiliya awiñi lawiñi vo lo nyitiwe. Haimo lumwe, ha citangi ko nda tulinga tuti kuli ovisangwa vivali: (a) cina cakwaya kwenda cikolwisa, (b) la cina cakwaya ale syo, pwãi ka cikolwisa. Oco ka tukainde olonjila vya sanjavala, tupopya ño eci ca syata kwapata ovimbundu.

Ocimãho cokutaya cilo oku yevalisa vimwe twamãla okuyeva, kweci catyamenla kelomboloko lyo cinsangwa (cina cakwaya ale syo, pwãi kacikolwisa) kutundasyãhunlu, casumbiwa ndovava, cina okuti kakuli omõla ale ukulu kacisole. Olonjanja vyalwa, u waliveta ocisangwa olaña mwenle lo kulima kepya, ke yevi onjala.

Ocisangwa cipongiyiwa loku felula, ndeci ño ke kela. O sema yitengiwa lo loseke, vikalinga noke ovitami (vikoka okuti tê lo kuvenja, venjamo vombya ale vo neka, oco ka vikalinyolehenle). Kuli vo vana va panga ovitami lo lwoso. Onduko yovitami, tusima tuti yatundilila ko kutamenla.

Oco ocisangwa cisonse, osimbu omanu vainda lo kukapa, kapa ko ombundi, vamwe lavo vo vakapa ko onyoñolo oco cikwate okalemba kamwe kaposoka. Ovituwa vyaco, ndomo caleluka oku citala, haiko vili kovaimbo, omo lyuhwasi wukasi vusitu, kwenda handi mekonda lyukulihinso wapyãla kweci catyamenlã kuhayele lovihemba vyumbundu. Pwãi osuka oyo vali yasyata oku kapiwa kocisangwa. Kweci ca tyamenlã kovikwata vyokusoleka ale okwambata, tukwete ombenje, pwãi volupale omunu osoleka leci akwete.

Ocisangwa laco vo ka citava oku kamba pongandala, pepunda pana pakapiwa ovikwata vyociholo co kutambela ale oku lomba (ko putu vati “consentir”, “alambamento”, ale handi “alembamento”). Mekonda lya nye? Pepulilo eli opo tusanga osapi yondaka. Ndeci twayeva kwakulu vendamba, ocisangwa cikwete esilivilo linene konepa yokutambula akombe. Onduko yocisangwa yitundilila “ko kusangiwa”, ale “oku sangwa”. Tulinga tuti ocina co ku sangiwa ale cimwe cisangwa, ocidenkaise cekalo liwa ku yu wasangiwa. Njali yukãi eye ukwacikele coku cipongiya loku cava, ka citava cikamba.

Eli olyo esapulo twatenlã ko, pwãi nda okwete lyakwavo, tulilavoka lesanju.

Gociante Patissa, Benguela, 26/10/2011.................................................................................. 

PORTUGUÊS: Breve nota sobre o sentido etimológico da bebida Ocisangwa na cultura Ovimbundu

A “ocisangwa” (mais conhecida pelas corruptelas “quissangua” e “kisangua”) é uma bebida típica em Angola, feita à base de ingredientes simples e naturais. Não creio haver uma forma consensual que sirva de receita, tendo em conta até a nossa peculiar diversidade étnica. Ainda assim, podemos resumir a sua classificação em dois galhos: (a) a fermentada e alcoólica, (b) a azeda ou não, mas não alcoólica. Mas para não dispersar o foco, concentremo-nos à realidade dos Ovimbundu.

O propósito destas linhas é partilhar o resultado de uma recente recolha, quanto ao significado antropológico de “ocisangwa” (a azeda ou não, mas não alcoólica), aquele líquido da importância da água, sempre presente e acessível a todas as idades. Às vezes basta uma boa dose de “ocisangwa” para se passar o dia todo na lavoura.

O modo de preparo é pela fervura, similar ao de “ekela lyo sema” (papa de milho), com uma mistura de fuba e rolão, que fará o papel de “ovitami”, (minúsculas porções trituráveis de milho para engrossar o líquido, que fazem com que se esteja constantemente a agitar o copo para se evitar o desperdício de os abandonar no fundo deste). Há quem use o arroz como “ovitami”, substantivo que julgamos advir de “okutamenla”, que em Umbundu significa engrossar.

Para adoçar o líquido, os povos antigos usavam raízes, havendo também quem lhe acrescente troncos de “onyoñolo” para caprichar no aroma. Tais práticas, como é de imaginar, são ainda usuais no meio rural, dada a riqueza da flora angolana e o vasto conhecimento sobre sua multidisciplinar aplicação na medicina alternativa. Mas é ao açúcar que mais se recorre de modo geral. Quanto à sua conservação e até transporte, recorre-se à “ombenje” (cabaça), substituída por utensílios mais modernos conforme o meio.

A “ocisangwa” é dos bens de presença obrigatória na “ongandala”, a trouxa tradicional que se leva nos rituais de “oku tambela” e/ou “oku lomba” (conhecidos como “consentir” e “alambamento” ou “alembamento”). Então porquê? E é daqui que parte a vontade de partilharmos. Segundo nossas idóneas fontes, o líquido é de elevado valor no que à hospitalidade diz respeito. O termo “ocisangwa” vem de “oku sangiwa”, que também se diz em muitas variantes do Umbundu “oku sangwa. Ou seja, “ocina co ku sangiwa ale cimwe cisangwa”, é algo encontrado, símbolo pelo qual o anfitrião se revela hospitaleiro, claro está, tendo na mulher a garantia da sua existência.

Essa é a nossa, mas aguardamos com agrado pela versão que você tiver.

 Gociante Patissa, Benguela, 26/10/2011

terça-feira, 5 de março de 2013

Ndomo ca vangula Zila Calei

A lingua nacional Umbundu assemelha-se ao Ingles e outras linguas estrangeiras quanto a traducao.
Ex: Onjala yimbala.
Traducao: Tenho fome.
Traducao literal: Fome esta a me doer.
Dai, a algumas pessoas do centro e sul do Pais por influencia da lingua materna traduzirem literalmente algumas frases e ouvimos coisas que as vezes nao fazem sentido, ou ate mesmo falarem mal o Portugues.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Ocilongwa kUmbundu: "Caku kemba Cimbanda, otulo opekela”


Ocilongwa kUmbundu: "Caku kemba Cimbanda, otulo opekela”

Adágio Umbundu (tradução literal): você pode dormir sossegado com base na mentira de um médico [Nota: “cimbanda” tanto vale para terapeuta tradicional como para médico convencional].

Oku civangula kumbundu, vakwetu va kikongo vati cikondombolo okwa tupu, ka culimbi okuti watunda vesaila

(Trazendo a lição em Umbundu, os irmãos da etnia Kikongo dizem que por mais que o galo cante, não pode esquecer que veio do ovo).

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Simeão Chimbinda aconselha estudo sobre atribuição de nomes


Fonte: Voz da América — “O Nome na identidade Umbundu. Contributo Antropológico” é o título da mais recente obra escrita pelo Padre e Antropólogo Jorge Simeão Ferreira Tchimbinda.

A obra segundo o autor é um contributo à onomástica bem como à identidade cultural dos povos de Angola, principalmente os falantes da língua Umbundu.

O desrespeito às normas gramaticais da língua (relativamente ao número e ao género) no acto de atribuição de nomes e apelidos motivaram o Padre Simeão Tchimbinda a fazer uma pesquisa aturada sobre o assunto, o que resultou na publicação desta obra em 2009 esclarecedora desta problemática.

O Sacerdote subdividiu em três grupos os nomes quanto ao género na língua Umbundu:
1. Os que devem ser atribuídos apenas aos rapazes (que têm nas iniciais Sa, Se ou So).
2. O segundo grupo é constituído pelos nomes aplicados somente a pessoas do género feminino (têm como iniciais Na, Ne e Nó).
3. O terceiro é composto pelos Uniformes, que tanto servem para homens como para mulheres.

No seu livro, cuja reedição está para breve, o Padre Simeão Tchimbinda faz referência à atribuição do nome aos recém-nascidos, de acordo com a lei angolana.

Segundo a lei angolana os nomes próprios ou pelo menos um deles deve ser em língua nacional ou em língua portuguesa. Mas, muitos são os cidadãos que se deparam com uma constante rejeição de nomes, sejam nacionais ou estrangeiros em muitas conservatórias do país, em desrespeito à identidade e à cultura de alguns povos.

O Antropólogo Simeão Chimbinda aconselha um melhor estudo e divulgação da lei sobre atribuição de nomes para se evitar atritos inúteis.

A atribuição de nomes na cultura umbundu, segundo o autor é descontínua, diferente da cultura europeia que impôs aos angolanos o conceito de apelido, que em muitos casos representa um atropelo à gramática.

Para o sacerdote o acto de nomeação configura uma compensação para os povos do sul de Angola.

Ainda neste livro, o sacerdote aponta alguns aspectos que põe em perigo às regras de atribuição de nomes na Língua umbundu com a imposição de apelidos.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Crónica: SE O MEU AVÔ VIESSE A JERUSALÉM


Nascido em 1916, foi-lhe impingido o ano de 1922 pelo registo civil, que entendeu ser a data que mais se adequava à sua aparência física. Esta é das tramas que tornam interminável a vivência de Manuel Patissa, meu avô paterno e patriarca da família. O que por ora interessa é olhar para o velho sob dois primas, o antropológico e o religioso.

Quis o meu pai que eu fosse “sando” (xará) do pai dele, o que me dá um certo estatuto. Entre os ovimbundu, ser xará de alguém é mais do que replicar o nome. O ritual começa com “oku katwala onduko kusando” (levar o nome ao xará, que é quando o casal entrega oferenda simbólica à casa da pessoa escolhida e oficializa o apadrinhamento para toda a vida). Espera-se que o casal dedique à criança tratamento proporcional à consideração devida à (ao) “sando”. Maus-tratos e excessos no exercício da autoridade paterna são passíveis de multa, e mesmo renúncia do nome para casos mais graves. Ora, sendo eu pai do meu pai, não me podiam incumbir tarefas como lavar a loiça, sobretudo a partir do momento em que o “sando” foi morar connosco. Yes!

Escapa-me um sorriso, maldoso talvez, quando recordo duas cenas. O bairro da Santa Cruz, no Lobito, é algo representativo em termos de denominações religiosas, e com isso a repetição em ser abordado para conversão. Meu avô atendia qualquer evangelista.

Certa vez, dois Testemunhas de Jeová deixaram folhetos e remissão à bíblia, conforme sua doutrina. Dias depois, voltaram para seguimento. O pai leu? Teriam questionado. Sim, responderia o velho. E então, que conseguiu interpretar? Sereno, o velho disse: entendi mesmo que é assunto de Marcos 13:22, surgirão falsos profetas (…) para enganar, se possível, os escolhidos. Provavelmente ofendidos, nunca mais passaram.

Numa outra ocasião, o velho foi abordado por pregadores da Igreja Apostólica, cujos membros usam barba comprida, cabelo rapado, bengalas e dançam (descalços e de batinhas brancas) sobre fogueira durante o culto. Depois de os despachar, o avô veio resmungar connosco. Então a pessoa vai-me dizer que é apóstolo? Eu também não sou? Apóstolo não é quem segue os ensinamentos de Deus e prega o evangelho?

O que os pregadores não sabiam era que tentavam converter um catequista da IESA (Igreja Evangélica Sinodal de Angola), que dedicou toda a vida louvando e cuidando de sinagogas. Em seu entender, os pregadores da cidade gostavam de batalhas fáceis, indo a quem já tinha igreja, ao invés de salvar os bêbados, ladrões e outras almas perdidas, de modo a mostrar-lhes o caminho de Jerusalém (pronúncia Umbundu, /ye-lu-salãi/).

Mas que ideia teria de Jerusalém? Bem, se o meu avô viesse a Jerusalém, ouviria que apóstolo não é necessariamente quem prega o evangelho, porquanto o novo testamento, parte considerável de sua doutrina, não tem valor nenhum para os donos da terra, não o leem; saberia que os judeus não saem à rua para conquistar fieis; ouviria que para os hebreus, maioria demográfica e ideológica, Jesus Cristo não é reconhecido como o Messias, que o novo testamento tem mais mistérios do que revelações; perceberia que a tão almejada Jerusalém não imagina sequer que a sua igreja existe. Mas não há dramas, porque se o meu avô viesse, seria um milagre, que ele também já não está em vida.

Gociante Patissa, Jerusalém 13 Fevereiro de 2013

domingo, 10 de fevereiro de 2013

"Nda opongiya ocipito co kulomba yolapo , momo vakwakuñongalãla apo vali"

Quando organizares uma festa não contes apenas com os convidados , porque os "pato " sempre lá estarão. (adágio Umbundu recolhido por Bernabe Sambuio Chinjengue

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

"A Sondondo, tumalenlã opo; oku avela oku lete" (ocilongwa kUmbundu)


"A Sondondo, tumalenlã opo; oku avela oku lete." - Ó fulano, sente-se no seu canto;  quem tiver tem algo a te dar nota tua presença." (ocilongwa kUmbundu - adágio Umbundu)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Recordando o fantástico na canção de Carlos Burity

Foto de autor desconhecido
“Owima/ owima/ ocimboto caminga ekaya/ hati/ Burity/ sipiseko” (Umbundu) – É azar, é azar! O sapo pediu-me tabaco, dizendo, Burity, deixa-me fumar um pouco do teu cigarro.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

"Nda wapumba, ku kateye ohonji"

Imagem de autor desconhecido
"Nda wapumba, ku kateye ohonji" (adágio Umbundu) - não é pelo fracasso na caça que vais quebrar o arco.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

"Ombangulo yaco yife" (que morra por aqui tal conversa)

História de Angola: Os planaltos centrais, epicentro de uma forte sinergia humana


É um dos factos que pode ser retido da leitura da obra “Os Ovimbundu de Angola. Tradição, Economia e Cultura Organizativa” do sociólogo Moises Malumbu, atualmente, acomodado no Vaticano, livro que acaba de reeditado em Roma, nas Edizioni Vivere In.
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Por: Simão SOUINDOULA, Historiador e Perito da UNESCO
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Estalando-se sobre 358 páginas e prefaciada pelo Professor Manuel Laranjeira Rodrigues de Areia, da Universidade de Coimbra, esta publicação e constituída de três partes, essenciais, segmentadas numa quinzena de capítulos.
Este conjunto e completado por uma serie de mapas, particularmente, instrutivos, tais como o do espaço de evolução proto-histórica dos Ovimbundu, da integração dos Jagas, a carta, pouca aproveitada do francês Guillaume Deslile, de 1708, das famosas rotas comerciais, da sua expansão ate meados do seculo XX, da sua articulação com o leste produtor da neo-esclavagista borracha k’ovava ekenha e da sua vintena de chefaturas, a exemplos do Mbalundu, Ndulu, Viye, Wambu, Ngalangi, Kakonda, Kalukembe, Tchikuma e Tchikaya.
Malumbu, doutor na Universide Angelicum da Cidade Eterna inseriu, na sua obra, o famoso quadro, recapitulativo, de autoria de Childs, sobre os reinados de mais de 200 Elombe em cinco dos mais importantes Usoma, de 1650 a 1700 ou 1750.
Por não ter tido acesso ao nosso estudo sobre « Migrações, fusões e fundamentos históricos antigos dos povos bantu ocidentais’ publicado na Muntu, n 2, 1er semestre 1985, sobre a nossa hipótese de constituição anthropo – linguística, genesis, pré - ovimbundu, Malumbu insiste, com razão, na viril fagocitose dos rudes guerreiros Jagas nas entidades sociais dos Planaltos, sobretudo depois da sua expulsão do Kongo e a sua imparável descida para as regiões do centro e sul.
Com efeito, os Ayaka imprimiram uma nova dinâmica política, militar, comercial, social e religiosa aos tranquilos Planaltos. Perpetuarão, naturalmente, o eixo, nortenho, o do olongoya, sobretudo com seus irmãos, notoriamente, assimilados, os Imbangalas de k’Ekole lya Kasandji, com a sua próspera, esclavagista, Feira.