sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O alarme acusativo do pórtico de rastreio era-
lhe mais do que familiar. Não olhou o mínimo que fosse atrás como seria em jeito de mea culpa perante os seguranças.

 A entrada, sua e da respectiva caixa de ferramentas, não só era autorizada, como também necessária para dar vida aos vários andares da unidade produtiva. Daí que a birra do alarme ilustrava bem a quantas o aparelho andava assim com modos de Luanda, onde cumprir ou não a palavra... dá no mesmo. 

Caminhou em direcção à porta que a automação do elevador indicara. Exprimiu com clareza a saudação ao senhor que já ali se encontrava e contentou-se com o último lugar na ordem de prioridade. É chato ser o último, é verdade, mas não se podia queixar, afinal não faltará neste país gente em pior posição. Ser o último de dois não pode ser de todo desesperador.

E lá chega, sem pressa nenhuma, o elevador. O técnico, quase a trintar de velas bafejadas, embarca sem no entanto deixar de reclamar. O nosso elevador é aquele de monta-cargas. Não é isso?... - cortou logo, na dúvida se trataria o interlocutor por doutor ou engenheiro. Tinha noção do quão ofensivo era tratar certas personalidades pelo diminutivo título de senhor. Sim - anuiu para retribuir a cortesia.

É verdade, meu chefe, desde manhã até à hora presente, não conseguem só pelo menos consertar o elevador de serviço? Ah está avariado? Sim, doutor. Quando nos vê aqui a se misturar com os clientes, nós e os da limpeza, é porque o nosso não está bom. Ok, não tinha pensado até ali.

E lá parte o elevador em ascensão. Qual é a actividade da vossa empresa? Nós é manutenção. Isso de substituir lâmpadas, reparação eléctrica, aplicar pladur. Tudo é co... - ia dizer connosco mas aí o elevador parou, entraram outros inquilinos, homens e mulheres trajados a preceito de executivos. Fez-se silêncio. Depois fechou-se a porta. Foi o último som.

Do terceiro andar, a estação seguinte viria a ser o nono onde as portas laminadas se abriram para a saída dos executivos. Fez-se de novo silêncio. A comitiva de fatos e gravatas de fino corte desapareceu dos olhares pelos labirintos. Nenhum deles olhou para trás. Fechou-se a porta.

 Viste só, meu chefe, o comportamento dos doutores? Pois vi. Nada, eh!!!, é mesmo já assim?! - exclamou o operário. Do jeito como entraram é do jeito como saíram, indignou-se. Nem já um boa tarde. Enfim... Parece que se tornou ilegível a mecânica do elevador como metáfora da vida, onde podemos hoje subir mas descer amanhã. Ainda era só isso. Obrigado.

Gociante Patissa | 16 Agosto 2019 | www.angodebates.blogspot.com (escrito com teclado de telemóvel ao terceiro dia sem luz em cada 🤣🤣🤣)

sábado, 10 de agosto de 2019

Recebendo o autógrafo da autora do DICIONÁRIO DE VERBOS CONJUGADOS EM UMBUNDU & PORTUGUÊS, Cesaltina Kulanda, o qual sua excelência eu apresentou no acto de lançamento que teve lugar hoje, 09 de Agosto, na União dos Escritores Angolanas, em Luanda (sob chancela da Chela Editora). Foi uma oportunidade lúdica de reencontro com as memórias e cultura umbundu, a par de reflectir sobre os empecilhos, alguns de natureza institucional, que influenciam o lugar político, cultural, académico e social das línguas nacionais de origem africana em Angola, fazendo com que pesquisar e dar eco a elas seja um acto de resistência, numa sociedade que elevou a língua portuguesa, que era suposto ser factor de coesão nacional, ao patamar de monstro que não dialoga com as demais já encontradas no território. Ainda era só isso. Obrigado

A imagem pode conter: 1 pessoa, em pé
(captação da imagem por Kiamba Uimgui)

sábado, 11 de maio de 2019

UMBUNDU: Usonehi Gociante Patissa wasapela lanoño youkuyevalisa asapulo Figueiredo Casimiro, catyamenla kekalo lyofeka lokwiya kwocela covaimbo, koputu vai eleições autárquicas, TPA1, 11.05.2019
PORTUGUÊS: Escritor angolano, Gociante Patissa, entrevistado sobre autarquias, noticiário em língua Umbundu TPA1, 11.05.2019, com o jornalista Figueiredo Casimiro.





terça-feira, 30 de abril de 2019


Passam das 10 horas da manhã. É domingo. Pessoas normais estarão a caminho da praia, a visitar parentes, ou na cama em ressaca, não ligadas ao telefone fixo com discurso repetido para uma lista com mais de 80 nomes. Mas tem de ser, e é comigo:
"Aló", atende-me uma voz feminina.
"Sim, bom dia. Ligo da empresa X para confirmar se a senhora vai usar o serviço que reservou para hoje. Falo com a senhora Wanda?"

Do outro lado da linha, a senhora não se contém. Rebenta mesmo uma risada com sabor a sarcasmo. Estou calmo e deixo a senhora rir-se às custas do meu ouvido. Instantes depois, satisfeita talvez por lavar a alma, ela confirma, corrigindo:

"/Uanda/?! /Vanda/!!! Sim, sou eu. Vou usar".

Não sou pago para discutir sociolinguística com os clientes. Aliás, pouca utilidade há para pensar, de tão autómatas que certas missões são, pelo que agradeço a atenção e deixo um até logo.


Agora, no intervalo entre uma chamada e a outra, quem ri sou eu. Sim, porque em Umbundu, língua nacional predominante no centro e sul do país chamado Angola, e em particular em Benguela, "owanda", ou simplesmente "wanda" [ua:nda], significa rede. É um nome que se dá a crianças que surgem depois de o casal ter perdido outros filhos. É como metáfora a dizer que a rede da morte poderá arrastar esse recém-nascido a qualquer momento também. E a pessoa cresce com aquele nome. Para a minha interlocutora, de certeza, só existe uma forma, Wanda que se lê com /v/.


Já lá vão uns três anos e não sei como fui pensar logo hoje em ruídos na comunicação.

Gociante Patissa, Benguela, 08.12.2012


segunda-feira, 29 de abril de 2019



(*) António Fonseca | Programa Antologia, Rádio Nacional de Angola | 27.04.2019

Muito já se falou sobre a questão das línguas nacionais e, a ela associada, sobre a questão da toponímia e da identidade nacional. Como o tema não está esgotado, aqui está, pois, o Antologia para trazer subsídios ao debate que se impõe em torno da questão. Para tal, importará talvez elencar os diversos aspectos que se levantam, de modo a que, sobre cada um deles, possamos ir emitindo o nosso ponto de vista e talvez contribuir para que se faça luz sobre a questão.

1 – Quanto à questão de definir o que são ou quais são as línguas nacionais, no caso angolano, dissemos no último programa que, por exclusão de partes, as mesmas só podem ser as línguas gentílicas das comunidades socioculturais que habitam o território angolano, independentemente da sua territorialidade ou de serem transfronteiriças. Para nos posicionarmos ante a questão, partimos do Decreto Nº 77, de 9 de Dezembro de 1921, do Alto-comissário e Governador de Angola, José Mendes Ribeiro Norton de Matos, que estabeleceu o que passo a citar:

Artº 2º - Não é permitido ensinar nas escolas das missões línguas indígenas.
Artº 3º - O uso da língua indígena só é permitido em linguagem falada nas catequeses e, como auxiliar, no período do ensino elementar da língua portuguesa.
& 1º - É vedado na catequese das missões, nas suas escolas e em qualquer relação com os indígenas, o emprego das línguas indígenas ou de outra linguagem que não seja a portuguesa (...)

Portanto, chegados aqui, com alguma razoabilidade, somos forçados a afirmar que o próprio Alto-comissário e Governador de Angola, José Mendes Ribeiro Norton de Matos, foi quem, por oposição entre as línguas indígenas e a língua portuguesa, definiu já em 1921 que as línguas indígenas são as línguas nacionais de Angola.

2 – Quanto à questão da Toponímia e Identidade Nacional, são dois aspectos que andam muito ligados. A questão que amiúde se coloca é a de se não deveriam ser mantidos os antigos nomes de localidades, de ruas e de avenidas e mesmo se as estátuas do período colonial não deveriam voltar a ocupar o seu antigo lugar. As opiniões dividem-se e verificamos que se vai impondo uma certa tendência de fazer ressurgir tais nomes. Ora, todos sabemos que a toponímia, os nomes de ruas e lugares, não são dados por mero acaso. São dados para exaltar um feito ou uma figura. Por esta ordem de razão, os heróis e feitos heróicos do colonizador não são os heróis nem os feitos heróicos do colonizado. Por outro lado, a toponímia visa cimentar valores e caucionar uma identidade. Por esta ordem de razão, de igual modo, a perspectiva do colonizado não pode ser a perspectiva do colonizador.

3 – No pós-independência a alteração dos nomes foi vista como “uma forma de marcar a vitória pela a independência e como afirmação da identidade africana dos angolanos independentes, há muito oprimida institucionalmente pelo colonialismo. Este era também um dos objectivos de movimentos como “Vamos Descobrir Angola” onde participaram figuras como Viriato da Cruz, António Jacinto e Luandino Vieira”[1] e, de um modo geral, dos grandes poetas da geração da Mensagem.

Perguntarmo-nos pois se faria sentido voltar a chamar Cidade de Salazar à Cidade de Ndalatando, ou se faria sentido voltar a chamar Cidade de Carmona à Cidade do Uíge? Cremos que não, pois estaríamos a homenagear aqueles que tanto dano causaram ao nosso povo e que nem na sua respectiva pátria merecem tal homenagem. Já agora, pergunto-me por que razão a Cidade do Namibe voltou a ser chamada de Cidade de Moçamedes. Será que se quis homenagear o tráfico negreiro, ou a reposição de tal nome terá sido apenas fruto da ignorância? Como dizia o escritor Pepetela, chamar Moçamedes ao Namibe equivale a chamar Salazar a Ndalatando ou Carmona ao Uige[2].

Para quem queira ouvir e portanto reflectir sobre a manutenção do nome de Moçamedes para a cidade do Namibe, importa dizer que o Barão de Moçamedes, em cuja honra foi no tempo colonial dado o seu nome àquela cidade, foi uma das principais figuras do tráfico de escravos em Angola. Senão vejamos:

a)     Barão de Mossâmedes (ou barão de Moçâmedes) foi um título de juro e herdade criado por carta régia de 13 de Agosto de 1779 da rainha D. Maria I a favor de José de Almeida e Vasconcelos, um militar e governador-geral de Angola. A propósito de Moçâmedes, pode ler-se no artigo Namibe, Cecil Rhodes, descolonização e o Barão de Moçâmedes, publicado na página ANGONOMICS[3].

b)     “O nome Moçâmedes é uma homenagem ao antigo governador-geral de Angola, José de Almeida e Vasconcelos Soveral e Carvalho, o Barão de Moçâmedes (ou Mossâmedes). Quando ordenou a exploração de terras a sul de Benguela em 1785, o Barão despachou o tenente-coronel Luís Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado e o sargento-mor Gregório José Mendes e quando chegou à Angra do Negro – o nome pelo qual os portugueses conheciam a zona do porto do Namibe por ser um local de embarcação de escravos – rebaptizou o local como Porto de Moçâmedes em homenagem a José de Almeida e Vasconcelos.

José de Almeida e Vasconcelos, que antes de cumprir a missão em Angola foi um capitão-mor de sucesso na capitania de Goiás no Brasil, para onde foi enviado pelo Marquês de Pombal, chegou a Angola em 1784 e tinha entre as suas prioridades retomar o controlo metropolitano do comércio de escravos e das receitas aduaneiras inerentes ao comércio de pessoas que estava a ser dominado por comerciantes baseados no Brasil.

Durante o governo de José de Almeida e Vasconcelos, o Barão de Moçamedes, entre 1784 e 1790, o tráfico de escravos atingiu níveis recorde na colónia de Angola, como escreveu Joseph Calder Miller. Assim, retomar o nome de Moçâmedes é efectivamente homenagear um servidor diligente do colonialismo, sendo amplamente considerado como um servidor público de qualidade pelos serviços prestados para o império português; a causa que serviu jogou em muitos aspectos contra a causa dos povos de Angola.

Com o regresso ao nome colonial, Moçâmedes, passa-se a homenagear uma pessoa ligada à administração colonial em pleno período de vigência do comércio transatlântico de escravos, a principal actividade comercial e principal fonte de receitas para administração colonial em Angola.”

Pelas questões apresentadas acima, fica a ideia que a decisão de passar o nome da cidade do Namibe para Moçâmedes foi baseada em informação frágil uma vez que representa efectivamente uma homenagem a um homem cujas acções, por iniciativa própria ou por inerência das funções que desempenhava, o desqualificam para qualquer tipo de homenagem toponímica na Angola de hoje. Portanto, parece-nos ser esta uma questão para reanalisar...
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Biografia
António Antunes Fonseca nasceu no Ambriz em 1956. Licenciado em Economia pela Universidade Agostinho Neto, é diplomado em Estudos superiores especializados de políticas culturais e acção artística Internacional pela faculdade de Direito e ciências políticas da Universidade de Bourgogne, França.

É o actual PCA do Memorial Dr. Agostinho Neto, em Luanda. Dirigiu a Empresa Nacional de Discos e de Publicações desde 1982 e já dirigiu o Instituto do Livro e do Disco de 1983 a 1994. Iniciou a actividade jornalística na Emissora Católica de Angola, ingressado posteriormente na Rádio Nacional de Angola, onde desde 1978, realiza e apresenta o programa Antologia.

Membro da União dos Escritores Angolanos (UEA), foi co-fundador da Brigada Jovem de Literatura e da Associação Angolana dos amigos do livro. Publicou Raízes, Sobre os Kikongos de Angola, Poemas de Raíz e Voz, e Crónicas dum Tempo de Silêncio. Figura em algumas antologias e possui colaboração dispersa em alguns jornais e revistas luandenses.

(*) Texto escrito para o Programa Antologia, da Rádio Nacional de Angola, edição de 27 de Abril de 2019. Versão revista e editada pelo Blog Angodebates / com UEA. Foto: Angop


[1] Namibe, Cecil Rhodes, descolonização e o Barão de Moçâmedes, ANGONOMICS
[2] Pepetela, TEXTUALIDADES – Conversa com os Leitores – MAAN, Luanda, 2019
[3] Namibe, Cecil Rhodes, descolonização e o Barão de Moçâmedes, ANGONOMICS

sábado, 13 de abril de 2019


UMBUNDU: "Ame sa usikile omunu akuti ndafa. Ko Muxiku mwenle ndakala okwendisa upange. Kaliye ndeya, ame mwenle Daniel Tchali" 

TRADUÇÃO: (eu não me despedi de ninguém dizendo que morri. Fiquei este anos todos a trabalhar no Moxico. Estou de volta, sou o próprio Daniel Tchali) 

- Do cidadão dado como morto no Bié, o suposto assassino a cumpre já 6 dos 20 anos de condenação

domingo, 24 de março de 2019


| Umbundu |
Olonjanja vyalwa tusyata okuyeva akuti «onganyo yalile Kapoko». Onganyo pwãi nye? Pwãi yolya ndati? Kapoko pwãi elye? Ndomo twacikulihã, olonduko vikwete esinumwinlõ. Omo lyaco, ya Kapoko yatyamenlã kokupokola. Onganyo, okuyitala ciwa ndondaka, yikwete esinlã kelimi lyoputu, cilomboloka okuti upange, ale vo ofeto, ale cina koloneke vilo citukwiwa citi ocinyangu, yendisiwa lomunu umwe okuti vimbo ka kwete ño esilivilo lyenda oko loko. Twami ko.
Ndomo ciyevala tunde kosyãhunlu, Kapoko u ndeti, vimbo liaye wakala ulume umwe okuti apako ka kwatele. Pwãi cenda ovina, ongusu vo ka yokambelele, walikapa okwendisa upange wocinyangu, nda kokulimila, nda kokututa ovitele ale ovikwata.
Eteke limwe, umwe fumbelo watula omwenyo. Ocivimbi vacilangeka vocipata. Vamwe apa oco vasakalala ale lokusonga etumba. Okwiya vavilikiya Kapoko:
- A Kapoko, twasukila alume oco vambate etumba kwalangalo vukulu wendamba. Sandako vali umwe ukwacinyangu.

Kapoko yu watambulula ati:
- Ame ndulume laco, ocimbele ndalisoka laco. Ka cisukila ale vali okufeta alume vavali. Ocivimbi ndicambata mwenle voñoño, kavela ño nda cakutiwa ciwa, etumba kutwe.

Sokiye cina ciwa, epata lyatava okuti, nda oco apopya, momo acitenlã.
Vaenda mwenle ciwa, pwãi okupitinlã kwalangalo ale kokalundu, Kapoko wafetika okusaluka, omo okuti ocivimbi voñoño ka citundi. Pwãi vokwenda, ocivimbi cayeya calwa, ovate veya okukoka okuti letimba lya Kapoko leli lya civimbi vyalilamelenlã. Tatayale, catuviwa. Ondaka yatumuiwa mbi nda okuteta, locimahõ cokutepa etimba lyaKapoko vetimba lyacivimbi, cikasi voñoño. Una omõla wosiwe ati:

- Lalimwe eteke. Tate ka la kwata ofuka… ka kendiwa lepute. Mba kacitava!

Valete mwenle yo kutekanvã. Okwiya mba vati pwãi tê okuvakenda kavali. Kenda calingiwa. Kapoko wataka konganyo. Lomunu opanga upange walisetahãlã, otukuiwa vo ati eye Kapoko.

Osapi yondaka yeyi okuti omunu okataka kesalamihõ, vonganyo omo mutunda omwenyõ, pwãi pamwe vo luveyi haimo.


Gociante Patissa
Okwoya kwolusapo watendiwa la sekulu Víctor Manuel Patissa (1946-2001)
www.ombembwa.blogspot.com
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| Português |
É frequente ouvir-se a lenda Umbundu «Onganyo yalile Kapoko». O que é “Onganyo”? Como foi que tirou vida a Kapoko? Quem foi Kapoko? Como é consabido, os nomes têm geralmente um significado. Onganyo, olhando a raiz da palavra, vem do Português, querendo dizer trabalho ou ganho, ou aquilo que hoje em dia se chama biscate, sendo que o seu praticante é uma pessoa com um estatuto abaixo da média. Kapoko vem de "okupokola", obedecer. Avancemos.

Reza a lenda que, na aldeia em que vivia, Kapoko foi um homem sem recursos. No entanto, não lhe faltava pujança, pelo que se dedicou a fazer trabalhos pontuais, fossem de cultivo na lavra doutrem, fosse de estiva/transporte.

Certo dia, deu-se o falecimento de um ancião. Foi deitado o corpo na sala, enquanto uns homens engajavam-se em desbastar madeira para o caixão. Kapoko foi chamado:

- Ó Kapoko, precisamos de homens de braços para levar o caixão do mais-velho ao enterro. Arranja mais um biscateiro.

Kapoko por sua vez surpreendeu:
- Não sou homem de pouca envergadura. Dois pagamentos não serão necessários. Levo o corpo às costas, basta amarrarem bem, e o caixão à cabeça.

Após os acertos, a família concordou: se o disse, é porque consegue. A marcha do funeral correu sem sobressaltos, mas chegados ao cemitério, Kapoko começava a entrar em pânico, uma vez que o cadáver não lhe descolava das costas. A baba servia de cola. Várias tentativas redundaram em fracasso. Aventou-se então a hipótese do uso de faca para separar Kapoko do cadáver. Mas um dos órfãos era irredutível.
- Nunca mais! O pai não tem dívidas, não pode ser enterrado com feridas. Definitivamente, não!

Começava mesmo a anoitecer. Decidiu-se por fim pelo enterro do cadáver conjuntamente com Kapoko. E foi feito. Kapoko perdeu a vida num biscate. Ainda hoje, em função da lenda, rotulam-se de Kapoko aqueles que vivem de trabalhos inferiores.
A chave da parábola: o homem está fatalmente condenado a viver à custa do suor, do trabalho vem o sustento, assim como podem vir doenças.

Gociante Patissa

Adaptação da lenda contada pelo velho Víctor Manuel Patissa (1946-2001)

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Exª JLo, dizem que hoje é o Dia Mundial da Língua Ma(is)terna. As de origem africana continuam ainda em Angola sendo relegadas a património de "cidadãos de segunda", uma questão de folclore, de sorte que se um governante fala uma língua africana, a comunicação social destaca o acto em si como notícia positiva. É ver a deturpação dos nomes próprios forçada pelos técnicos do registo civil, a vergonha que é a toponímia e/ou ainda a dicção forçada/europeizada dos nossos locutores de rádio e TV. 44 anos depois da independência de Portugal, a conclusão é que o combate ao tribalismo promoveu efeitos colaterais nocivos, um deles sendo o da negação da identidade africana como critério de aceitação e ascensão. O português tem de dialogar. É desculpar excelência, hoje não deu para fazer rir. Ainda era só isso. Obrigado
Gociante Patissa | Benguela, 21.02.2019 | www.ombembwa.blogspot.com

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

«Uma outra hipótese para explicação do topónimo Benguela é a seguinte: “um muro de água, o mar, o intransponível à diferença dos rios então conhecidos que podiam ser atravessados a nado ou com canoa. O mar encontrado não permitia a passagem para o outro lado”: “kulo k´Ombaka” [….] (aqui é Benguela); Benguela de otchimbaka ou ocimbaka significa muro-mar além do qual não se pode ir” (cf. Chombela 2013: 91).»

In HARMONIZAÇÃO DA GRAFIA TOPONÍMICA DO MUNICÍPIO DE BENGUELA, por Bernardo Kessongo Menezes Março, 2015. Dissertação de Mestrado em Terminologia e Gestão da Informação de Especialidade. Faculdade de Ciências Sociais de Humanas, Universidade de Lisboa

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

"Pakisi ofela isike, nda puninlõ wosanji kwa mwinle po" (provérbio umbundu)
- Agradece ao vento que soprou, de outro modo não terias visto o ânus da galinha
[Diz-se de pessoas que tiveram uma oportunidade sem ser por mérito próprio]

domingo, 9 de setembro de 2018

Veteke lya lyakwim vavali la tatu, kosãi ya Kanyenye, vunyamo wolohulukãi vivali kekwim lecelãlã, ocipama citukwiwa eti Popya Otchili cakonga Gociante Patissa ndukusinumunlã evi vyatyama kokumina lovotila kwenda vo ndokusapela kwevi viletiwe kaliye okuti papita ale ulima tunde apa ocela caimbiwa vo feka yo Ngola. Ocipama Popya Otchili cendisiwa la João Guerra Sokópya, Arminda Mangandi kwenda vo Jesus Matende. Horácio dos Reis waka kovikwata vileñi


Gravidez precoce e o balanço do primeiro ano das eleições gerais de 2017 foram os temas centrais no dia 23.08.2018 da edição nº 12 do programa Popya Otchili (em português, diga a verdade), na Rádio Ecclesia de Benguela, emissora da igreja Católica. Gociante Patissa, escritor e actor social, foi o convidado da mesa redonda, que contou também com a intervenção de ouvintes ao telefone. O trio que conduz o Popya Otchili é composto por João Guerra Sokópya, Arminda Mangandi e Jesus Matende. Tecnica de som de Horácio dos Reis. | www.ombembwa.blogspot.com


sábado, 8 de setembro de 2018

Veteke lya lyakwim vavali la tatu, kosãi ya Kanyenye, vunyamo wolohulukãi vivali kekwim lecelãlã, ocipama citukwiwa eti Popya Otchili cakonga Gociante Patissa ndukusinumunlã evi vyatyama kokumina lovotila kwenda vo ndokusapela kwevi viletiwe kaliye okuti papita ale ulima tunde apa ocela caimbiwa vo feka yo Ngola. Ocipama Popya Otchili cendisiwa la João Guerra Sokópya, Arminda Mangandi kwenda vo Jesus Matende. Horácio dos Reis waka kovikwata vileñi


Gravidez precoce e o balanço do primeiro ano das eleições gerais de 2017 foram os temas centrais no dia 23.08.2018 da edição nº 12 do programa Popya Otchili (em português, diga a verdade), na Rádio Ecclesia de Benguela, emissora da igreja Católica. Gociante Patissa, escritor e actor social, foi o convidado da mesa redonda, que contou também com a intervenção de ouvintes ao telefone. O trio que conduz o Popya Otchili é composto por João Guerra Sokópya, Arminda Mangandi e Jesus Matende. Tecnica de som de Horácio dos Reis. | www.ombembwa.blogspot.com



UMBUNDU | Ombangulo yaendisiwa vingungu vyo Lupito la António Firmino "Tula". Cakala veteke lyakwim vavali la mosi, kosãi ya Kanyenye, vunyamo wolohulukãi vivali kekwim lecelãlã. Vavangula kweci catyama kungende usonehi Gociante Patissa vofeka yo Brasil, muna akayevalisile ovihilahila vyetu konepa yakongamelã, vocipito co FLIPELÔ (Festa Literária do Pelourinho), kolupale wo Salvador, oluhumba wo Bahia, tunde veteke lya 08 toke ko 12 vosãi yaco ya Kanyenye. Eye wakongiwa lo Seketa Yovituwa Kwenda Olomapalo yo nguvulu (Secretaria de Estado da Cultura), vulala wocisoko co Fundação Pedro Calmon

PORTUGUÊS | Entrevista na Rádio Lobito conduzida António Firmino “Tula”, a 21/08/2018. Trataram da viagem do escritor Gociante Patissa ao Brasil, onde palestrou sobre a literatura angolana na FLIPELÔ (Festa Literária do Pelourinho), na cidade de Salvador, de 8 a 12 de Agosto, a convite da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, por intermédio da Fundação Pedro Calmon

UMBUNDU | Ombangulo yaendisiwa vingungu vyo Lupito la António Firmino "Tula". Cakala veteke lyakwim vavali la mosi, kosãi ya Kanyenye, vunyamo wolohulukãi vivali kekwim lecelãlã. Vavangula kweci catyama kungende usonehi Gociante Patissa vofeka yo Brasil, muna akayevalisile ovihilahila vyetu konepa yakongamelã, vocipito co FLIPELÔ (Festa Literária do Pelourinho), kolupale wo Salvador, oluhumba wo Bahia, tunde veteke lya 08 toke ko 12 vosãi yaco ya Kanyenye. Eye wakongiwa lo Seketa Yovituwa Kwenda Olomapalo yo nguvulu (Secretaria de Estado da Cultura), vulala wocisoko co Fundação Pedro Calmon

PORTUGUÊS | Entrevista na Rádio Lobito conuzida António Firmino “Tula”, a 21/08/2018. Trataram da viagem do escritor Gociante Patissa ao Brasil, onde palestrou sobre a literatura angolana na FLIPELÔ (Festa Literária do Pelourinho), na cidade de Salvador, de 8 a 12 de Agosto, a convite da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, por intermédio da Fundação Pedro Calmon


terça-feira, 4 de setembro de 2018

Gonçalves Handyman Malha, Luanda, 04.09.2018

«Nda wanda, kukame ondalu: vasala vayota»: se tu vais, não apagues o fogo: os que ficam aquecem-se.

Já que se vai falar sobre o uso de provérbios no livro de Gociante Patissa, o melhor foi iniciar com um provérbio, em que se abre uma ponte reflexiva aos egrégios leitores para que possam transmitir aos mais novos tudo o quanto lhes foi ensinado.

Destarte, baseando-se no Dicionário Electrónico de Português Houaiss (2017), entende-se por provérbios, como frases e expressões, geralmente, curtas e de origem popular, que sintetizam um conceito a respeito da realidade, regra social ou moral. Tais frases ou expressões são parte da cultura popular de um determinado povo, transmitidos de forma oral ou escrita às gerações mais jovens pelas mais idosas. As mesmas transmitem conhecimentos comuns sobre a vida, educam, edificam, exortam e ajudam a reflectir. Muitos desses provérbios constituem aquilo que muitos mais velhos são hoje.

Sentados à volta de uma fogueira ou imbondeiro, eram contados vários contos, provérbios, anedotas, lendas e adivinhas, assim eram transmitidos os conhecimentos de forma oral aos mais novos. Com o passar do tempo e a forte influência da globalização, tal prática caiu em desuso, e assim a nova geração acabou por perder o fio das nossas origens, deixando-se levar pelas origens estrangeiras. Hoje, os jovens, com a idade compreendida entre os 15 aos 19 anos de idade, estão tão longe daquilo que os mais velhos foram na juventude e, por consequência, muitos têm dificuldades de assumir a sua identidade cultural.

Afirmou Jofre Rocha, numa entrevista concedida à Lavra & Oficina, que «a Literatura é um veículo fundamental para levar o povo a reencontrar a sua identidade, liberto de complexos e preconceitos, valorizando as tradições mais positivas e a cultura em geral». E a tradição oral (ainda) constitui uma das pontes que visa permitir aos angolanos o resgate da idoneidade cultural que cada etnia possui. Geralmente, designa-se por literatura tradicional oral angolana o conjunto de todos os contos, lendas, fábulas, provérbios, advinhas, poesias, narrativas criadas pela alma artística do povo angolano, e foram transmitidas oralmente de geração a geração. A literatura tradicional oral angolana é uma marca que rompeu as barreiras da vida e a mesma trouxe um mundo imaginário e a realidade das culturas dos povos indígenas.

Schipper (2011, p. 14) afirma que a função dos provérbios na literatura oral é reforçar o argumento do autor, animar a história ou explicar alguma situação ou comportamento.

Na baila do livro «Fátussengóla, O Homem do Rádio Que Espalhava Dúvidas», o escritor relaciona os provérbios com os factos sociais e o enquadramento da língua Umbundu para melhor expor uma ideia ou enriquecer os seus contos. É um livro composto por catorze contos, lançado no ano de 2014 sob chancela do Grecima e apurado no concurso de originais para colecção «11 Novos Autores», no quadro da Bolsa Ler Angola. O livro marca a literatura angolana pelo modo como o escritor desenrola os contos e pelas marcas de angolanidade que nela podemos encontrar.
Segue-se abaixo uma lista de provérbios em Umbundu com a respectiva tradução original da obra em análise de Gociante Patissa.

1. «Camãnle calinga eti mbanje, ka calingile eti mopye»: coisa alheia é para ver apenas, não para falar. 
2. «Ina yukwene, ndaño onima ndopalata, ka lisoki la wove»: mesmo que a mãe do outro brilhe como a prata, jamais substituirá a tua. 
3. «Ka mwinle ongongo ka kolele»: quem não sofreu não amadureceu. 
4. «Kapiñãlã ka lisoki la mwenle»: substituto é inferior ao dono. 
5. «Ocilema vacitaisa, ka vawutola»: que o aleijado nasça na família, não se acolhe de outrem. 
6. «Ocili viso»: verdade é o que for visto.
7. «Ombwa ka yiwulila cahenlã»: cão não ladra por algo que passou ontem.
8. «Otembo ka yilyalya camãle»: aquilo que o tempo tirar, o tempo vai devolver. 
9. «Soma wakava okuyeva kowiñi, oyongola okuyevelela kongolo»: o Rei fartou-se de ouvir o povo, agora quer conselhos do seu próprio joelho. 
10.  «U kwendi laye ka kukutila ko epunda»: não te prepara a trouxa quem contigo não viaja.

Os provérbios na língua vernácula trazem na sua essência três partes. A primeira são os provérbios na língua de origem, a segunda na língua traduzida (sem perder o sentido original) e a terceira, a moral do provérbio. Tratando-se de uma obra literária em que o escritor traz as duas primeiras partes da essência, questionamos o escritor, Gociante Patissa, o porquê do não enquadramento da terceira parte.

Por outra, o Umbundu é a língua dos Ovimbundu, grupo sociocultural que está localizado no centro-sul do país, ou seja, no Planalto Central e nalgumas áreas adjacentes, especialmente na faixa litoral, a Oeste do Planalto Central. Uma região que compreende as províncias do Huambo, Bié e Benguela. Por essa razão, entendemos o uso dos provérbios na língua Umbundu, pois é a língua da região do escritor do livro em questão, visando valorizar e divulga-la.

Sendo o Umbundu “…a segunda língua mais falada em Angola (a seguir ao português) com 5,9 milhões de falantes (22,96% da população)” (https://pt.mwikipedia.org/wiki/Línguas_de_Angola), propomos um desafio ao escritor para que também implemente nas suas futuras obras as outras línguas regionais de Angola, como requisito de valorização e divulgação das nossas línguas.

Outrossim, podemos dizer que os provérbios retirados da obra «Fátussengóla, O Homem do Rádio Que Espalhava Dúvidas» têm uma finalidade educativa e muito reflexiva sobre a vida, e também visam incutir valores éticos e morais às novas gerações para que sejam bons cidadãos na sociedade.

domingo, 5 de agosto de 2018




Tivemos acesso à gravação de uma das edições, talvez de todas a mais rica cultural e pedagogicamente falando, do programa "POPYA OTCHILI", transmitido em língua umbundu na Rádio Ecclesia de Benguela neste 2018. O convidado foi o padre Bonifácio Tchimboto, uma autoridade em matérias de antropologia, semiótica e linguística nas universidades Católica e Jean Piaget. Os anfitriões foram João Guerra Sokópya, Jesus Matende e Arminda Mangandi. Em 58 minutos de áudio, POPYA OTCHILI, em português diga a verdade, discute a questão da tradução, dos neologismos e das interferências, da dupla confusão por viorar a dupla grafia, ao mesmo tempo que polvilha adágios em tertúlia cómica. Há certamente visões com as quais não concordo, saúdo o valioso contributo que o material representa no campo do saber e da pesquisa, enquanto mentor do blog www.ombembwa.blogspot.com, que assume a causa da língua umbundu. Ainda era só isso. Obrigado.
Gociante Patissa | Benguela, 05.08.2018 |

sábado, 4 de agosto de 2018

Sua excelência eu teve acesso à gravação de uma das edições, talvez de todas a mais rica cultural e pedagogicamente falando, do programa "POPYA OTCHILI", transmitido integralmente em língua umbundu na Rádio Ecclesia de Benguela neste 2018. O convidado dessa edição foi o padre Bonifácio Tchimboto, que é para todos os efeitos uma autoridade em matérias de antropologia, semiótica e linguística, dividindo-se entre a docência e a gestão escolar nas universidades Católica e Jean Piaget. Os anfitriões foram João Guerra Sokópya, Jesus Matende e Arminda Mangandi. Em aproximadamente 58 minutos de áudio, o programa POPYA OTCHILI, em português diga a verdade, discute a questão da tradução, dos neologismos e das interferências,  ao mesmo tempo que polvilha um sem número de adágios numa tertúlia cómica. Há certamente visões com as quais não concordo, mas não deixo de saudar o valioso contributo que o material representa no campo do saber e da pesquisa. Enquanto mentor do blog www.ombembwa.blogspot.com, que assume a causa da língua umbundu, e caso amanhã venha a ter acesso à internet grátis, colocarei à disposição nas plataformas digitais de costume, o YouTube e o soundcloud. Ainda era só isso. Obrigado.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

A reportagem do Blog www.ombembwa.blogspot.com fez um assalto na tarde de quinta-feira, 02/08, aos bastidores da mais recente atracção, o programa em língua umbundu “Popya Otchili” (em português, diga a verdade). É emitido em directo às segundas e quintas-feiras, das 15h às 16h, pela Rádio Ecclesia, na frequência dos 99.7 FM. Cobre as cidades do litoral, nomeadamente, Lobito, Catumbela, Benguela, e Baía Farta. À testa da equipa está o carismático João Guerra. O trio inclui ainda o linguista Jesus Matende e a locutora Arminda Mangandi.

O educador social Guerra, também evangelista católico, não é uma pessoa estranha ao ambiente de rádio em Benguela, província que passa a contar com cinco estações. Destas, apenas as estatais Lobito e Benguela, do grupo Rádio Nacional de Angola, incluem na grelha de programas a língua umbundu, apesar de ser a mais falada no país e representar 1/3 da população.
Ouvir o áudio da reportagem em versão de rádio
“Neste momento, porque estamos na fase inicial, o programa consiste em anunciar as notícias, primeiro, da Diocese e, depois, a interacção, com o público; e passando uma vez a outra também passar aquelas as notícias que são do interesse da própria comunidade. Porque queremos criar um programa mas criado mesmo para o público e do povo para nós. Por isso é que temos sempre alguns minutos de interacção com o público”, conta João Guerra Sokópia.

No momento da reportagem, a equipa acabava de ganhar mais meia hora do tempo de emissão a partir da próxima edição.
 
“Exatamente. Nós nessa interacção que temos com o público, qual é a intenção? Criamos, ou buscamos, um problema e o povo é que vai como que julga e busca solução para esse problema. E nós, por fim, se for uma questão que dá para dar uma lição de moral do dia, damos uma lição. Se for o contrário, o próprio público é que dá a lição moral. E fica como uma educação moral. E fica como uma educação social”, disse.

Ao fim de seis edições, o perfil da audiência vai ficando claro. O carinho, este, compensa.

“Surpreendentemente, estamos a receber um retorno positivo porque todos os dias, mais de sete pessoas ligam para o nosso programa, apesar de termos só trinta minutos às vezes para esta interacção. Mas a partir das próximas semana já teremos mais trinta minutos no nosso programa.”

Até aqui, nós podemos depreender que, neste momento que falamos, o alvo é mais a população rural. Temos recebido telefonemas do Lobito, da Baía [Farta], do Tchamume. Por aqui dentro, se calhar a influência também do próprio trabalho [limita]. Muitos estão no serviço. Neste momento, a população é o povo simples”, descreve Guerra.

Salta à vista é a variação regional entre os três animadores. Arminda é do Huambo, Jesus da Huila. Numa sociedade habituada a estabelecer, com algum egocentrismo à mistura, determinadas variantes como sendo a variante padrão, ousamos indagar como se sente João guerra, natural do Caimbambo, e por isso dono de um registo acentuadamente Hanha.

“Alguns acham que falando hanha, falando Mokoio, parece que está desprezado. Mas não, não! Para mim não é isto. Porque o tal umbundu tem estas variantes. O termo variante significa que está a variar.” 

O que é uma riqueza se considerarmos, certo?

“Eu até, nas minhas viagens, subo mesmo até a Kamakupa, não tenho complexo de falar a minha variante. Porque é aquela que me identifica. E eu digo lá logo: eu sou do sítio X e me entendam lá nisso. E assim mesmo aqui na rádio, dou graças a Deus, temos essas variantes. Até já fizemos uma ligação de três províncias. É uma grande riqueza”, conclui.

Jesus Miguel Zatón Matende é o mais novo dos três e estreante também nessa coisa de fazer rádio e garante que é para continuar. Sabe da percepção gerada dos produtos radiofónicos, quando se ouve um programa em umbundu, a de imaginar que está por detrás do microfone uma pessoa já de idade e com pouca escolaridade. Matende conhece bem tal preconceito.

É uma questão apenas de mentalidade. Aqui importa dizer que no mundo das línguas nacionais, eu comecei muito cedo. Desde os 24 anos quando fui para a universidade. Formei-me em línguas africanas pela faculdade de letras da Universidade Agostinho Neto. Em 2014, trabalhei também para a área de línguas nacionais no Gabinete Central do Censo. Fazia parte do grupo que atendia as chamadas aos cidadãos em línguas nacionais. E também, importa aqui salientar que dei aulas de umbundu durante três anos no IFAL [Instituto de Formação da Administração Local]. Isto, tirando as colaborações que eu fazia e sempre tenho feito com o Instituto de Línguas Nacionais. Sempre houve este tipo de espezinhar, dizer ‘mas, jovem?! O que é que se passa? Então enquanto os outros optaram por fazer inglês, pelo francês, e você exactamente umbundu. Porque?’ Já estou habituado com este tipo de questões e para mim não tenho problemas com isto.”

Procuramos saber a sua visão, na dupla condição de locutor e estudioso, a propósito da visível variação regional dos locutores do programa e de que modo lida com os sotaques e dialectos.

De facto é a primeira experiência que eu presencio, em que alguém de uma determinada província se identifica por detrás dos micros com a sua variante, como genuína. É um princípio e acho que deve continuar assim. Se uma estação radiofónica for instalada numa determinada localidade, é importante mesmo fazer valer aquela variante…”

Uma questão de identidade. Porque se pensarmos que todo mundo tem que ser ‘Va Mbalundu’, é complicado. Porque é assim: a língua umbundu é só uma nas suas diversas variantes. Aqui eu acho que é importante que nós pensemos um pouquinho nisso para que cada qual se identifique mesmo de acordo com aquilo que é a sua variante. Por exemplo, já que tocou no mesmo assunto, vive-se a mesma realidade num dos municípios da Huila, chamado Quilengues…”

É natural da Huila?

Sim, sim, sim. Eu sou da Huila. Lá também a realidade é esta em que não reconhecem praticamente aquela variante local, que se chama ‘olucilenge columbali’. Por mim, devia-se falar mesmo aquela variante, mas não. Fala-se uma variante virada para a variante Huambo. Portanto, estamos em renascimento. Aos poucos vamo-nos habituando a outras realidades e este é um exemplo a registar, com o evangelista Guerra”, afiançou Jesus Matende.

Por seu turno, Arminda Teresa Mangandi empresta ao programa Popya Otchili alguma experiência acumulada no programa registo, da Promaica [Promoção da Mulher Angolana na Igreja Católica], emitido durante muitos anos pela Rádio Benguela. Natural Bailundo, província do Huambo, tem uma notável competência linguística em português. Daí que quiséssemos saber o motivo de optar pela locução em Umbundu:

“Eu achei por bem exactamente quando disseram que precisavam de fazer um programa em Umbundu, para fazer chegar um bocadito também mais sobre a importância da língua, não é? Exactamente também para variar um bocadinho. Porque aqui, agora, conforme viu, somos de regiões diferentes. Se bem que todos falamos umbundu, mas depois, ao nos expressarmos, haverá quedas diferentes. Então, entrando ali, eu acho que pode ser uma coisa boa, no meio dos dois colegas”, conta.

Popya Otchili é um programa com apenas seis edições, numa rádio em fase experimental ainda. Quais são os desafios, as dificuldades e que tipo de apoios precisariam?

“O grande desafio nosso é de fazer chegar em todas as áreas, em todas as localidades aonde o nosso sinal venha a chegar, fazer perceber bem a nossa língua nacional e fazer com que o cidadão perceba que precisa [de] reactivar, precisa [de] pôr como uma coisa muita importante esta língua que serve de elo entre as cidades e o campo e noutras áreas. Na verdade temos muitas dificuldades, sabendo que estamos em fase experimental. Ainda não temos muitas condições suficientes para podermos fazer o que devíamos, o que pudesse talvez agradar melhor o cidadão. Todo o apoio para nós é necessário, porque precisamos mesmo”, defende Arminda Teresa Mangandi.

Em exclusivo para os blogs Ombembwa e Angodebates, a reportagem é de Gociante Patissa. Benguela, 02 de Agosto de 2018

Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa 2015

Vídeo | Lançamento do livro A Última Ouvinte by Gociante Patissa, 2010

Akombe vatunyula tunde 26-01-2009, twapandula calwa!

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