sábado, 11 de maio de 2019

UMBUNDU: Usonehi Gociante Patissa wasapela lanoño youkuyevalisa asapulo Figueiredo Casimiro, catyamenla kekalo lyofeka lokwiya kwocela covaimbo, koputu vai eleições autárquicas, TPA1, 11.05.2019
PORTUGUÊS: Escritor angolano, Gociante Patissa, entrevistado sobre autarquias, noticiário em língua Umbundu TPA1, 11.05.2019, com o jornalista Figueiredo Casimiro.





terça-feira, 30 de abril de 2019


Passam das 10 horas da manhã. É domingo. Pessoas normais estarão a caminho da praia, a visitar parentes, ou na cama em ressaca, não ligadas ao telefone fixo com discurso repetido para uma lista com mais de 80 nomes. Mas tem de ser, e é comigo:
"Aló", atende-me uma voz feminina.
"Sim, bom dia. Ligo da empresa X para confirmar se a senhora vai usar o serviço que reservou para hoje. Falo com a senhora Wanda?"

Do outro lado da linha, a senhora não se contém. Rebenta mesmo uma risada com sabor a sarcasmo. Estou calmo e deixo a senhora rir-se às custas do meu ouvido. Instantes depois, satisfeita talvez por lavar a alma, ela confirma, corrigindo:

"/Uanda/?! /Vanda/!!! Sim, sou eu. Vou usar".

Não sou pago para discutir sociolinguística com os clientes. Aliás, pouca utilidade há para pensar, de tão autómatas que certas missões são, pelo que agradeço a atenção e deixo um até logo.


Agora, no intervalo entre uma chamada e a outra, quem ri sou eu. Sim, porque em Umbundu, língua nacional predominante no centro e sul do país chamado Angola, e em particular em Benguela, "owanda", ou simplesmente "wanda" [ua:nda], significa rede. É um nome que se dá a crianças que surgem depois de o casal ter perdido outros filhos. É como metáfora a dizer que a rede da morte poderá arrastar esse recém-nascido a qualquer momento também. E a pessoa cresce com aquele nome. Para a minha interlocutora, de certeza, só existe uma forma, Wanda que se lê com /v/.


Já lá vão uns três anos e não sei como fui pensar logo hoje em ruídos na comunicação.

Gociante Patissa, Benguela, 08.12.2012


segunda-feira, 29 de abril de 2019



(*) António Fonseca | Programa Antologia, Rádio Nacional de Angola | 27.04.2019

Muito já se falou sobre a questão das línguas nacionais e, a ela associada, sobre a questão da toponímia e da identidade nacional. Como o tema não está esgotado, aqui está, pois, o Antologia para trazer subsídios ao debate que se impõe em torno da questão. Para tal, importará talvez elencar os diversos aspectos que se levantam, de modo a que, sobre cada um deles, possamos ir emitindo o nosso ponto de vista e talvez contribuir para que se faça luz sobre a questão.

1 – Quanto à questão de definir o que são ou quais são as línguas nacionais, no caso angolano, dissemos no último programa que, por exclusão de partes, as mesmas só podem ser as línguas gentílicas das comunidades socioculturais que habitam o território angolano, independentemente da sua territorialidade ou de serem transfronteiriças. Para nos posicionarmos ante a questão, partimos do Decreto Nº 77, de 9 de Dezembro de 1921, do Alto-comissário e Governador de Angola, José Mendes Ribeiro Norton de Matos, que estabeleceu o que passo a citar:

Artº 2º - Não é permitido ensinar nas escolas das missões línguas indígenas.
Artº 3º - O uso da língua indígena só é permitido em linguagem falada nas catequeses e, como auxiliar, no período do ensino elementar da língua portuguesa.
& 1º - É vedado na catequese das missões, nas suas escolas e em qualquer relação com os indígenas, o emprego das línguas indígenas ou de outra linguagem que não seja a portuguesa (...)

Portanto, chegados aqui, com alguma razoabilidade, somos forçados a afirmar que o próprio Alto-comissário e Governador de Angola, José Mendes Ribeiro Norton de Matos, foi quem, por oposição entre as línguas indígenas e a língua portuguesa, definiu já em 1921 que as línguas indígenas são as línguas nacionais de Angola.

2 – Quanto à questão da Toponímia e Identidade Nacional, são dois aspectos que andam muito ligados. A questão que amiúde se coloca é a de se não deveriam ser mantidos os antigos nomes de localidades, de ruas e de avenidas e mesmo se as estátuas do período colonial não deveriam voltar a ocupar o seu antigo lugar. As opiniões dividem-se e verificamos que se vai impondo uma certa tendência de fazer ressurgir tais nomes. Ora, todos sabemos que a toponímia, os nomes de ruas e lugares, não são dados por mero acaso. São dados para exaltar um feito ou uma figura. Por esta ordem de razão, os heróis e feitos heróicos do colonizador não são os heróis nem os feitos heróicos do colonizado. Por outro lado, a toponímia visa cimentar valores e caucionar uma identidade. Por esta ordem de razão, de igual modo, a perspectiva do colonizado não pode ser a perspectiva do colonizador.

3 – No pós-independência a alteração dos nomes foi vista como “uma forma de marcar a vitória pela a independência e como afirmação da identidade africana dos angolanos independentes, há muito oprimida institucionalmente pelo colonialismo. Este era também um dos objectivos de movimentos como “Vamos Descobrir Angola” onde participaram figuras como Viriato da Cruz, António Jacinto e Luandino Vieira”[1] e, de um modo geral, dos grandes poetas da geração da Mensagem.

Perguntarmo-nos pois se faria sentido voltar a chamar Cidade de Salazar à Cidade de Ndalatando, ou se faria sentido voltar a chamar Cidade de Carmona à Cidade do Uíge? Cremos que não, pois estaríamos a homenagear aqueles que tanto dano causaram ao nosso povo e que nem na sua respectiva pátria merecem tal homenagem. Já agora, pergunto-me por que razão a Cidade do Namibe voltou a ser chamada de Cidade de Moçamedes. Será que se quis homenagear o tráfico negreiro, ou a reposição de tal nome terá sido apenas fruto da ignorância? Como dizia o escritor Pepetela, chamar Moçamedes ao Namibe equivale a chamar Salazar a Ndalatando ou Carmona ao Uige[2].

Para quem queira ouvir e portanto reflectir sobre a manutenção do nome de Moçamedes para a cidade do Namibe, importa dizer que o Barão de Moçamedes, em cuja honra foi no tempo colonial dado o seu nome àquela cidade, foi uma das principais figuras do tráfico de escravos em Angola. Senão vejamos:

a)     Barão de Mossâmedes (ou barão de Moçâmedes) foi um título de juro e herdade criado por carta régia de 13 de Agosto de 1779 da rainha D. Maria I a favor de José de Almeida e Vasconcelos, um militar e governador-geral de Angola. A propósito de Moçâmedes, pode ler-se no artigo Namibe, Cecil Rhodes, descolonização e o Barão de Moçâmedes, publicado na página ANGONOMICS[3].

b)     “O nome Moçâmedes é uma homenagem ao antigo governador-geral de Angola, José de Almeida e Vasconcelos Soveral e Carvalho, o Barão de Moçâmedes (ou Mossâmedes). Quando ordenou a exploração de terras a sul de Benguela em 1785, o Barão despachou o tenente-coronel Luís Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado e o sargento-mor Gregório José Mendes e quando chegou à Angra do Negro – o nome pelo qual os portugueses conheciam a zona do porto do Namibe por ser um local de embarcação de escravos – rebaptizou o local como Porto de Moçâmedes em homenagem a José de Almeida e Vasconcelos.

José de Almeida e Vasconcelos, que antes de cumprir a missão em Angola foi um capitão-mor de sucesso na capitania de Goiás no Brasil, para onde foi enviado pelo Marquês de Pombal, chegou a Angola em 1784 e tinha entre as suas prioridades retomar o controlo metropolitano do comércio de escravos e das receitas aduaneiras inerentes ao comércio de pessoas que estava a ser dominado por comerciantes baseados no Brasil.

Durante o governo de José de Almeida e Vasconcelos, o Barão de Moçamedes, entre 1784 e 1790, o tráfico de escravos atingiu níveis recorde na colónia de Angola, como escreveu Joseph Calder Miller. Assim, retomar o nome de Moçâmedes é efectivamente homenagear um servidor diligente do colonialismo, sendo amplamente considerado como um servidor público de qualidade pelos serviços prestados para o império português; a causa que serviu jogou em muitos aspectos contra a causa dos povos de Angola.

Com o regresso ao nome colonial, Moçâmedes, passa-se a homenagear uma pessoa ligada à administração colonial em pleno período de vigência do comércio transatlântico de escravos, a principal actividade comercial e principal fonte de receitas para administração colonial em Angola.”

Pelas questões apresentadas acima, fica a ideia que a decisão de passar o nome da cidade do Namibe para Moçâmedes foi baseada em informação frágil uma vez que representa efectivamente uma homenagem a um homem cujas acções, por iniciativa própria ou por inerência das funções que desempenhava, o desqualificam para qualquer tipo de homenagem toponímica na Angola de hoje. Portanto, parece-nos ser esta uma questão para reanalisar...
_________________
Biografia
António Antunes Fonseca nasceu no Ambriz em 1956. Licenciado em Economia pela Universidade Agostinho Neto, é diplomado em Estudos superiores especializados de políticas culturais e acção artística Internacional pela faculdade de Direito e ciências políticas da Universidade de Bourgogne, França.

É o actual PCA do Memorial Dr. Agostinho Neto, em Luanda. Dirigiu a Empresa Nacional de Discos e de Publicações desde 1982 e já dirigiu o Instituto do Livro e do Disco de 1983 a 1994. Iniciou a actividade jornalística na Emissora Católica de Angola, ingressado posteriormente na Rádio Nacional de Angola, onde desde 1978, realiza e apresenta o programa Antologia.

Membro da União dos Escritores Angolanos (UEA), foi co-fundador da Brigada Jovem de Literatura e da Associação Angolana dos amigos do livro. Publicou Raízes, Sobre os Kikongos de Angola, Poemas de Raíz e Voz, e Crónicas dum Tempo de Silêncio. Figura em algumas antologias e possui colaboração dispersa em alguns jornais e revistas luandenses.

(*) Texto escrito para o Programa Antologia, da Rádio Nacional de Angola, edição de 27 de Abril de 2019. Versão revista e editada pelo Blog Angodebates / com UEA. Foto: Angop


[1] Namibe, Cecil Rhodes, descolonização e o Barão de Moçâmedes, ANGONOMICS
[2] Pepetela, TEXTUALIDADES – Conversa com os Leitores – MAAN, Luanda, 2019
[3] Namibe, Cecil Rhodes, descolonização e o Barão de Moçâmedes, ANGONOMICS

sábado, 13 de abril de 2019


UMBUNDU: "Ame sa usikile omunu akuti ndafa. Ko Muxiku mwenle ndakala okwendisa upange. Kaliye ndeya, ame mwenle Daniel Tchali" 

TRADUÇÃO: (eu não me despedi de ninguém dizendo que morri. Fiquei este anos todos a trabalhar no Moxico. Estou de volta, sou o próprio Daniel Tchali) 

- Do cidadão dado como morto no Bié, o suposto assassino a cumpre já 6 dos 20 anos de condenação

domingo, 24 de março de 2019


| Umbundu |
Olonjanja vyalwa tusyata okuyeva akuti «onganyo yalile Kapoko». Onganyo pwãi nye? Pwãi yolya ndati? Kapoko pwãi elye? Ndomo twacikulihã, olonduko vikwete esinumwinlõ. Omo lyaco, ya Kapoko yatyamenlã kokupokola. Onganyo, okuyitala ciwa ndondaka, yikwete esinlã kelimi lyoputu, cilomboloka okuti upange, ale vo ofeto, ale cina koloneke vilo citukwiwa citi ocinyangu, yendisiwa lomunu umwe okuti vimbo ka kwete ño esilivilo lyenda oko loko. Twami ko.
Ndomo ciyevala tunde kosyãhunlu, Kapoko u ndeti, vimbo liaye wakala ulume umwe okuti apako ka kwatele. Pwãi cenda ovina, ongusu vo ka yokambelele, walikapa okwendisa upange wocinyangu, nda kokulimila, nda kokututa ovitele ale ovikwata.
Eteke limwe, umwe fumbelo watula omwenyo. Ocivimbi vacilangeka vocipata. Vamwe apa oco vasakalala ale lokusonga etumba. Okwiya vavilikiya Kapoko:
- A Kapoko, twasukila alume oco vambate etumba kwalangalo vukulu wendamba. Sandako vali umwe ukwacinyangu.

Kapoko yu watambulula ati:
- Ame ndulume laco, ocimbele ndalisoka laco. Ka cisukila ale vali okufeta alume vavali. Ocivimbi ndicambata mwenle voñoño, kavela ño nda cakutiwa ciwa, etumba kutwe.

Sokiye cina ciwa, epata lyatava okuti, nda oco apopya, momo acitenlã.
Vaenda mwenle ciwa, pwãi okupitinlã kwalangalo ale kokalundu, Kapoko wafetika okusaluka, omo okuti ocivimbi voñoño ka citundi. Pwãi vokwenda, ocivimbi cayeya calwa, ovate veya okukoka okuti letimba lya Kapoko leli lya civimbi vyalilamelenlã. Tatayale, catuviwa. Ondaka yatumuiwa mbi nda okuteta, locimahõ cokutepa etimba lyaKapoko vetimba lyacivimbi, cikasi voñoño. Una omõla wosiwe ati:

- Lalimwe eteke. Tate ka la kwata ofuka… ka kendiwa lepute. Mba kacitava!

Valete mwenle yo kutekanvã. Okwiya mba vati pwãi tê okuvakenda kavali. Kenda calingiwa. Kapoko wataka konganyo. Lomunu opanga upange walisetahãlã, otukuiwa vo ati eye Kapoko.

Osapi yondaka yeyi okuti omunu okataka kesalamihõ, vonganyo omo mutunda omwenyõ, pwãi pamwe vo luveyi haimo.


Gociante Patissa
Okwoya kwolusapo watendiwa la sekulu Víctor Manuel Patissa (1946-2001)
www.ombembwa.blogspot.com
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| Português |
É frequente ouvir-se a lenda Umbundu «Onganyo yalile Kapoko». O que é “Onganyo”? Como foi que tirou vida a Kapoko? Quem foi Kapoko? Como é consabido, os nomes têm geralmente um significado. Onganyo, olhando a raiz da palavra, vem do Português, querendo dizer trabalho ou ganho, ou aquilo que hoje em dia se chama biscate, sendo que o seu praticante é uma pessoa com um estatuto abaixo da média. Kapoko vem de "okupokola", obedecer. Avancemos.

Reza a lenda que, na aldeia em que vivia, Kapoko foi um homem sem recursos. No entanto, não lhe faltava pujança, pelo que se dedicou a fazer trabalhos pontuais, fossem de cultivo na lavra doutrem, fosse de estiva/transporte.

Certo dia, deu-se o falecimento de um ancião. Foi deitado o corpo na sala, enquanto uns homens engajavam-se em desbastar madeira para o caixão. Kapoko foi chamado:

- Ó Kapoko, precisamos de homens de braços para levar o caixão do mais-velho ao enterro. Arranja mais um biscateiro.

Kapoko por sua vez surpreendeu:
- Não sou homem de pouca envergadura. Dois pagamentos não serão necessários. Levo o corpo às costas, basta amarrarem bem, e o caixão à cabeça.

Após os acertos, a família concordou: se o disse, é porque consegue. A marcha do funeral correu sem sobressaltos, mas chegados ao cemitério, Kapoko começava a entrar em pânico, uma vez que o cadáver não lhe descolava das costas. A baba servia de cola. Várias tentativas redundaram em fracasso. Aventou-se então a hipótese do uso de faca para separar Kapoko do cadáver. Mas um dos órfãos era irredutível.
- Nunca mais! O pai não tem dívidas, não pode ser enterrado com feridas. Definitivamente, não!

Começava mesmo a anoitecer. Decidiu-se por fim pelo enterro do cadáver conjuntamente com Kapoko. E foi feito. Kapoko perdeu a vida num biscate. Ainda hoje, em função da lenda, rotulam-se de Kapoko aqueles que vivem de trabalhos inferiores.
A chave da parábola: o homem está fatalmente condenado a viver à custa do suor, do trabalho vem o sustento, assim como podem vir doenças.

Gociante Patissa

Adaptação da lenda contada pelo velho Víctor Manuel Patissa (1946-2001)

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Exª JLo, dizem que hoje é o Dia Mundial da Língua Ma(is)terna. As de origem africana continuam ainda em Angola sendo relegadas a património de "cidadãos de segunda", uma questão de folclore, de sorte que se um governante fala uma língua africana, a comunicação social destaca o acto em si como notícia positiva. É ver a deturpação dos nomes próprios forçada pelos técnicos do registo civil, a vergonha que é a toponímia e/ou ainda a dicção forçada/europeizada dos nossos locutores de rádio e TV. 44 anos depois da independência de Portugal, a conclusão é que o combate ao tribalismo promoveu efeitos colaterais nocivos, um deles sendo o da negação da identidade africana como critério de aceitação e ascensão. O português tem de dialogar. É desculpar excelência, hoje não deu para fazer rir. Ainda era só isso. Obrigado
Gociante Patissa | Benguela, 21.02.2019 | www.ombembwa.blogspot.com

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

«Uma outra hipótese para explicação do topónimo Benguela é a seguinte: “um muro de água, o mar, o intransponível à diferença dos rios então conhecidos que podiam ser atravessados a nado ou com canoa. O mar encontrado não permitia a passagem para o outro lado”: “kulo k´Ombaka” [….] (aqui é Benguela); Benguela de otchimbaka ou ocimbaka significa muro-mar além do qual não se pode ir” (cf. Chombela 2013: 91).»

In HARMONIZAÇÃO DA GRAFIA TOPONÍMICA DO MUNICÍPIO DE BENGUELA, por Bernardo Kessongo Menezes Março, 2015. Dissertação de Mestrado em Terminologia e Gestão da Informação de Especialidade. Faculdade de Ciências Sociais de Humanas, Universidade de Lisboa

Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa 2015

Vídeo | Lançamento do livro A Última Ouvinte by Gociante Patissa, 2010

Akombe vatunyula tunde 26-01-2009, twapandula calwa!

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