À VENDA NOS SEGUINTES LOCAIS

À VENDA NOS SEGUINTES LOCAIS
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Literatura angolana em Portugal| A editora NósSomos tem para venda e entrega imediata os seguintes títulos, ao preço de 3 euros:

FOGO & RITMO - Agostinho Neto, 
MEU AMOR DA RUA ONZE - Aires de Almeida Santos,
DESEJOS DE AMINATA - Lopito Feijoo,
A CIGARRA DESCONTENTE - António Cardoso,
8:2= 23 - David Capelenguela,
GUARDANAPO DE PAPEL - Gociante Patissa,
CONTRAFÉ - Carlos Ferreira.

Pedidos para os emails etutanu@gmail.com ou monteiroferreira@hotmail.com
Também podem ser feitos para Rua Queiroz Ribeiro nºs 11/15 - 4920-289 Vila Nova de Cerveira ou pelo telefone 251795115.

Divulguem, por favor.

Porque não existe "EMBALA" em Umbundu

É frequente vermos, quer em textos literários, quer em informativos, quer ainda no discurso oral variado a palavra EMBALA, quando se refere à sede da autoridade tradicional do grupo etnolinguístico Ovimbundu. Ora, Ombala é equivalente ao Kikongo Mbanza, que significa sede ou capital. Neste caso, a raiz é MBALA, que tem o prefixo "O" no papel de artigo, uma vez que na morfologia Umbundu, todo o substantivo vem já acoplado ao artigo. OMBALA quer dizer a capital, a sede. A confusão pode ter partido da semelhança com a palavra portuguesa do verbo embalar. Por favor, na próxima vez que se referir ao poder tradicional, evite "embalar" no velho e confortável erro: EMBALA NÃO EXISTE. O PODER RESIDE NA OMBALA.

OMBANGULO YAYEVIWA VALI ENENE (o mais escutado dos meus áudios no soundcloud)

No meu canal do soundcloud, há um fenómeno curioso quanto aos registos mais ouvidos. Tenho lá gravação do efémero programa sobre literatura que realizei e apresentei na Rádio Benguela, músicas do meu primo Kupeletela e algumas crónicas. Mas o mais ouvido é o registo de um ensaio na linha de oratura, ainda por cima na língua Umbundu, que em um ano tem 413 plays (visualizações) e 21 downloads (descargas)

Texto em Umbundu e respectiva tradução aqui
Versão editada em Português e publicada via Jornal Cultura aqui

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

(do arquivo) KUNENE... MORFOLOGICAMENTE ESPECULANDO

Se fosse na língua Umbundu, o topónimo Kunene (de origem Bantu) seria a aglutinação do prefixo "Ku", que tem o papel de locativo (no, na), com o adjectivo "unene", que significa grande. Assim, arriscaria em dizer que a palavra Kunene (ku+unene) tem o significado de "na parte grande; na grandeza", o que não sabemos ao certo se homenageia o território ou a bravura da sua gente. De qualquer modo, os falantes de Oshikwanyama têm a palavra. Até lá, uma coisa é certa: Cunene, com C de cu, não significa mesmo nada! Um abraço do vosso Gociante Patissa, Benguela 03.10.14

O K está a voltar (artigo de opinião de José Kaliengue)

Há pouco mais de um ano as redacções dos órgãos de comunicação social receberam um documento do Ministério da Administração do Território (MAT) a orientar a forma como se deveria grafar a toponímia angolana, ou seja, como escrever os nomes das localidades. O documento eliminava a letra k dos nomes de muitas localidades, entre as quais o Kuando Kubango, que o Ministério entendeu que se deveria escrever Cuando Cubango. O mesmo se passou com o ‘Cuanza Sul’ e ´Cuanza Norte’, apesar do Kwanza da moeda naconal, sabendo que o nosso Kwanza deve o seu nome ao maior rio de Angola e aquelas duas províncias também. Uma está a Norte do rio a e outra a Sul do rio. Havia outras alterações.

As alterações do MAT, em alguns casos ou nos levavam ao Acordo Ortográfico dos outros, ou nos colocavam numa situação que nos remetia à época colonial, ao transformar o Kunje (no Bié) outra vez em Stº António Gare e o Waku Kungu em Cela, apenas.

Os recentes dias de FENACULT um encontro de técnicos do Instituto de Línguas Nacionais veio recomendar que os nomes de origem bantu sejam escritos segundo o alfabeto bantu internacional, ou seja, o regresso ao k, por exemplo e às palavras nasaladas como Ndongo ou Ndalatando. Parece- me ter ficado claro que a orientação do MAT, que não era decreto nem resultava de alguma concertação do Conselho de Ministros, tinha sido dada sem prévia consulta ao Instituto de Línguas Nacionais. Suponho que nem ao Ministério da Cultura. Resultado: uma grande confusão, com documentos oficiais ora com K, ora com C. e os manuais escolares também com o k.

É hora de o MAT (des)orientar o Jornal de Angola e a TPA para que voltem a escrever Kuito, Kuando Kubango, porque nos jornais do fimde- semana passado, por exemplo, toda a gente escreveu com o K. ou então, o MAT que publique uma nota mais oficial, resultante de um decreto, para o qual, obviamente terão sido escutados os especialistas e instituições oficiais.

José Kaliengue, director do Jornal o País, Luanda, 29/09/14

Nota do editor do BlogNão houve ontem - (refiro-me à era do jugo colonial e respectiva visão etnocentrista) -, como não há hoje - (que somos um país soberano, o que pressupunha não só de território mas sobretudo de fomento de estudos para recompor o tecido identitário) - , diálogo intercultural. É a nossa sina!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Um prejuízo legal à memória colectiva

Ao ler notícia sobre um esclarecimento do exmo senhor Ministro da Administração do Território, o compatriota Bornito de Sousa, que na verdade só cuidou de reforçar a nova descoberta do seu pelouro que consiste em castrar as consoantes K, W e Y nos nomes das localidades (mesmo que de matriz africana não ocidental), desautorizando tudo o que de cultural é substracto na origem do topónimo, só podia eu estar ainda mais desmoralizado com a gestão institucional deste dossier. E já agora, nesta falta de diálogo intersectorial que se assiste, onde o Ministério da Cultura e respectivo Instituto de Línguas Nacionais vêem as suas competências ultrapassadas pela direita, que tal ser o Ministério do Comércio a decidir sobre os critérios para se legalizar uma clínica por exemplo? E para não perder a boleia, julgo "Coartem" um nome difícil para medicamento, pelo que, exmo senhor Ministro do Interior, veja lá se manda os nossos anti-motins obrigarem os médicos a mudar a escrita, se faz favor. Adaptando o pensar de um amigo por cá, vale lembrar que um país que tanto trabalho tem pela frente em termos de pesquisa, classificação e normatização do mosaico étno-linguístico dos povos que o constituem, para a consequente consistência no currículo de ensino (no que nos bastaria imitar a Namíbia), não se pode prestar a esses “adiantamentos” de se vestir de corruptelas e impô-las (num claro critério de facilitismo) como regras, nem que seja em nome da união. O recuo é possível.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Não deixe de ler no Jornal Cultura (10 a 23/11/2014, pág. 31) o meu conto NÃO É COM AS PERNAS QUE CORREMOS (*)


Numa aldeia muito distante do nosso tempo, no contar do meu avô, havia espaço para tudo, menos para a felicidade de pessoas com deficiência. Acreditava-se que a limitação motora seria praga dos deuses por eventual erro dos ancestrais.

Lumbombo, cujo nome na língua Umbundu quer dizer raiz, na típica essência proverbial dos nomes africanos, era visto como um ser frágil. O próprio nome advinha do facto de nascer doentio, ficando a sua sobrevivência a dever-se a medicações à base de raízes e preces. Em meios rurais, onde são pelo trabalho as pessoas notadas, não era bem do tipo que povoava fantasias. Não se lhe via beleza nem valentia para sustentar uma mulher.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

(arquivo) Contos da nossa Terra| QUANDO O LEÃO TEMEU O FIM DO MUNDO

foto de autor não identificado
Como a estação chuvosa tinha sido fraca, a aldeia vestia-se de carência. Pirão de milho ou de bombó à mesa? Quanto luxo! O povo comia mesmo era pirão de batata-doce, jocosamente conhecido por alcatrão, dado o tom castanho torrado.

Para piorar as coisas, o frio tem o hábito de tornar a rama (folhas de batateira) amarga, de sorte que pouco sabia para conduto. De mal a mal, O caudal do rio andava perto de seco, tornando impossível a pesca continental. O talho do velho Mango até tinha alguma carne, mas só para os abastados, nada tendo de valor os aldeões comuns com que permutar.

Entretanto, é em tempos difíceis que os actos de bravura mais se evidenciam. E para desafiar a crise, lá os homens todos da aldeia decidiram realizar a caça colectiva. Uns ateavam fogo ao capim, outros agitavam os animais escondidos, enquanto os demais empunhavam flechas e azagaias, ajudados por cães – cujo tributo não passava de osso limpo e míseras tripas, quando sobrassem. A carne devia ser repartida em iguais porções. Festejava-se cada regresso, não tanto pela quantidade, mas porque a aldeia via na caça uma escola de transmissão de valores e costumes entre gerações.

Mas houve alguém que achava que, caçando só, mostraria mais valentia. Além do mais, como não teria que dividir a carne, mesmo que abatesse um só coelho, bem chegaria para uma refeição com a família. Chamava-se Kameia. Foi então que, em mais um dia de caça, Kameia foi espreitar na sua “etambo” (cubata dos espíritos) para agradecer aos antepassados. Deixou lá ficar uma bola de pirão e, já cumprido o ritual, seguiu.

A mata estava mais calma do que o habitual, só os pássaros ofereciam a sinfonia natural ao vento. Não se viam borboletas. De repente, Kameia ouve um barulho, olha à sua volta e vê um tigre. O bicho procurava escapar da perseguição de um leão que estava decidido a matar o inferior hierárquico para não morrer a fome. O caçador, em pânico, não acabasse ele em ementa para os bichos, agarrou-se à mais alta das árvores ali perto. O tigre, desesperado, fez o mesmo. Só depois de atingir o topo, o tigre notou que um pouquinho abaixo estava um homem agarrado a um galho. Como o leão não podia trepar, deitou-se ao pé da árvore, certo de que o cansaço e a fome fariam a presa descer.

Depois de se acalmar, o tigre concluiu que, fazendo cair o homem, o problema do leão estaria resolvido. E começou a pisá-lo na cabeça, cada golpe mais violento que o outro. Mas o homem tinha o medo para resistir. Enquanto isso, o leão, sem pressa, já lambia os bigodes antecipadamente, imaginando o bom apetite que teria ao degustar o tigre.

Cada vez que olhasse para baixo, o tigre empurrava com mais força ainda o caçador que, em retaliação, cortava o galho onde estava pendurado o tigre. A cena repetiu-se até que o galho cedeu. Caíram o galho, o tigre e o Kameia para o chão. Tão grande foi o estrondo da queda, que o leão julgou tratar-se do fim do mundo. Inconsciente, desatou a fugir. Mas não fugiu só ele, fugiram também o tigre e o caçador.

Moral: Para cada corajoso, o seu medo.
Adaptação de Gociante Patissa, recolha do meu kota (irmão mais velho) Amós Patissa. Publicado inicialmente no Boletim “A Voz do Olho” Veículo Informativo, Educativo e Cultural da AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade). Lobito, Dezembro/2007