segunda-feira, 18 de março de 2013


A “ocisangwa” (mais conhecida pelas corruptelas “quissangua” e “kisangua”) é uma bebida típica em Angola, feita à base de ingredientes simples e naturais. Não creio haver uma forma consensual que sirva de receita, tendo em conta até a nossa peculiar diversidade étnica. Ainda assim, podemos resumir a sua classificação em dois galhos: (a) a fermentada e alcoólica, (b) a azeda ou não, mas não alcoólica. Mas para não dispersar o foco, concentremo-nos à realidade dos Ovimbundu.

No dicionário electrónico http://www.dicionarioweb.com.br/quiss%C3%A2ngua.html, encontramos uma remissão ao autor Serpa Pinto (1846-1900), I, 147, que, pecando apenas pela visão redutora da geografia étnica dos ovimbundu, não deixa de apresentar ao mundo a bebida. Para aquele expedidor e entidade da autoridade colonial portuguesa, “quissangua é uma bebida refrigerante, usada pelos Bihenos, e feita de uma decocção da raiz do imbúndi, addicionando-se fuba fervida”.

O propósito destas linhas é partilhar o resultado de uma recente recolha pela nossa tradição oral, quanto ao significado antropológico de “ocisangwa” (a azeda ou não, mas não alcoólica), aquele líquido da importância da água, sempre presente e acessível a todas as idades. Às vezes basta uma boa dose de “ocisangwa” para se passar o dia todo na lavoura.

O modo de preparo é pela fervura, similar ao de “ekela lyo sema” (papa de milho), com uma mistura de fuba e rolão, que fará o papel de “ovitami”, (minúsculas porções trituráveis de milho para engrossar o líquido, que fazem com que se esteja constantemente a agitar o copo para se evitar o desperdício de os abandonar no fundo deste). Há quem use o arroz como “ovitami”, substantivo que julgamos advir de “okutamenla”, que em Umbundu significa engrossar.

Para adoçar o líquido, os povos usavam raízes, havendo também quem lhe acrescente troncos de “onyoñolo” para caprichar no aroma. Tais práticas, como é de imaginar, são ainda usuais no meio rural, dada a riqueza da flora angolana e o vasto conhecimento sobre sua multidisciplinar aplicação na medicina alternativa. Mas é ao açúcar que mais se recorre de modo geral. Quanto à sua conservação e até transporte, recorre-se à “ombenje” (cabaça), substituída por utensílios mais modernos conforme o meio.

Aliás, voltemos ao universo cibernético para aferir a dimensão cosmopolita da “ocisangwa”. O site português www.sabores.sapo.pt/receita/quissangua-de-fuba, por exemplo, providencia uma receita para quem quer recordar ou conhecer novos sabores. E quanto aos ingredientes, 200 gramas de fuba de milho, três a quatro litros de água, 250 gramas de Açúcar e Fermento q.b. Sendo lógico que nada é estático, impõe-se entretanto realçar que, do ponto de vista da essência, a levedação ocorre de maneira natural e não por fermento industrial. E enquanto pesquisadores, é-nos difícil comentar sobre o resultado do produto por via dessa receita, a qual não provamos (ainda).

A “ocisangwa” é dos bens de presença obrigatória na “ongandala”, a trouxa tradicional que se leva nos rituais de “oku tambela” e/ou “oku lomba” (conhecidos como “consentir” e “alambamento” ou “alembamento”). Então porquê? E é daqui que parte a vontade de partilharmos. Segundo nossas idóneas fontes, o líquido é de elevado valor no que à hospitalidade diz respeito. O termo “ocisangwa” vem de “oku sangiwa”, que também se diz em muitas variantes do Umbundu “oku sangwa. Ou seja, “ocina co ku sangiwa ale cimwe cisangwa”, é algo encontrado, símbolo pelo qual o anfitrião se revela hospitaleiro, claro está, tendo na mulher a garantia da sua existência.

Essa é a nossa, mas aguardamos com agrado pela versão que você tiver.

 Gociante Patissa, Benguela

segunda-feira, 11 de março de 2013


Os primeiros tempos das nossas gerações, o Povo Angolano dentro de cada Etnia conservou como identificaram como tal assim que, entre muitos usos e costumes destacaram-se os Adágios ou Provérbios os quais eles usavam durante o tempo em que resolviam algumas questões ou mesmo sentenças, onde aplicavam como analise e fecho das mesmas para educa-la. Usavam outros para divertimento durante os serões dentro da própria Comunidade, portanto, três espécies de Provérbios:

1. Provérbios de remate, esclarecimento e analise na solução de alguns assuntos.
2. Provérbios, máximas ou adivinhas que se aplicavam como divertimento durante os seroes.
3. Provérbios ou contos cantados em que colocavam os animais e aves a falarem como pessoas mas que no fim encerravam uma moralidade ou mesmo um conselho.


domingo, 10 de março de 2013

"Cipepa cipwa, civala cilimba." (máxima Umbundu) – não há bem que perdure nem mal que sempre dure.

Literalmente: o saboroso acaba, o doloroso fica esquecido

sábado, 9 de março de 2013

Na senda da investigação sobre "Recados Implícitos na Atribuição de Nomes a Animais entre os Ovimbundu" a que o link faz referência, recolhi recentemente mais um dado com base na tradição oral. No interior de Benguela, aí por volta dos anos 1940-60, um velho da minha família deu ao seu cão o nome de "Twakwame" (forma simples de dizer "Tuvakwame", o imperativo querendo dizer "sigámo-los"). Não consigo dizer com peso de certeza o que se passava, mas o contexto sugere a existência de algo novo, uma tendência de movimentos, que podiam ser os de luta anti-coloniais. Porque o provérbio de base é: "Twakwame oco tutale ovituwa vyavo" (vamos segui-los para conhecer seus hábitos).

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Apontamentos: Recados implícitos na atribuição de nomes a animais entre os Ovimbundu


Gociante Patissa, Benguela (ensaio publicado via Jornal Cultura, edição como ilustra a foto)

Parte o presente exercício de dois relatos de um casal que revelava semelhanças num gesto das respectivas mães, os quais, vistos além da coincidência, fornecem matéria antropológica. Trataremos a mãe do marido por Njali-A e a da esposa por Njali-B, correspondendo “onjali” ou “njali” a pai/mãe, tutor/a. O que as separam são uma década e cerca de 600 km. Njali-A vivia em Kutenda, município da Tchicomba, na Huila, e o gesto deu-se na década de 1970. Por sua vez, njali-B vivia no Monte-Belo, município do Bocoio, em Benguela, e sua acção deu-se na década de 1980.

Njali-A e njali-B têm em comum o papel de “ndona yukulu” ou “ukãi watete”,esposa mais-velha ou primeira mulher, traduzindo literalmente. É o estatuto social dado às primeiras esposas, em contextos de poligamia, onde, independentemente da idade, das demais “sepakãi” (rivais) a sociedade espera uma postura de “irmãs mais-novas”. 

Os Ovimbundu são o grupo etnolinguístico de origem Bantu que predomina no centro e sul de Angola, em seis das 18 províncias: Kwanza-Sul, Benguela e Namibe (costa), Bié, Huambo e Huila (planalto centro e sul). Representam 1/3 da população, num país com 16 milhões de habitantes, e cerca de oito grupos de matriz Bantu, sem esquecer os Khoisan, pré Bantu, e ainda os de ascendência ocidental.

Para Fernandes & Ntondo (2002), citados em Martinho Kavaya (2006: 54), formam o grupo etnolinguístico, Ovimbundu, os va Viye, Mbalundu, Sele, Sumbi, Mbwei, Vatchisandji, Lumbu, Vandombe, Vahanya, Vanganda, Vatchiyaka, Wambu, Sambu, Kakonda, Tchicuma, e este grupo corresponde ao maior étnolinguístico angolano (acima de 4.500.000 pessoas) e comunica-se na língua Umbundu.

Chama atenção, entretanto, a proximidade estatística entre o trabalho de Fernandes & Tondo e o do estudioso António Correia (2012), como podemos verificar num trecho do seu Blogue: “Distinguem-se pelo menos 18 grupos Ovimbundu diferentes: Mbailundu, Vyié, Wambu, Ngalangui, Quibulos, Ndulu, Quinolos, Kalukembes, Sambu, Kakonda, Quitatos, Sele, Ambuis, Hanhas, Gandas, Chikuma, Ndombe, Lumbu. É o maior grupo etnolinguístico angolano (cerca de 4.970.000 pessoas)”.

Até que sejam conhecidos os resultados do Censo Populacional em curso, uma iniciativa governamental que visa contornar o facto de os dados oficiais datarem de há quatro décadas, toda a estatística neste sentido está sujeita ao benefício da dúvida. Entretanto, estamos confortáveis em acrescentar que nem sempre o número de falantes é indicador de etnia, um fenómeno que podemos atribuir a dois factores: (a) a motricidade das comunidades de trabalhadores do CFB (Caminho de Ferro de Benguela), do Lobito (Benguela, litoral centro) ao Luau (Moxico, extremo leste e de predominância Lunda Cokwe); (b) o êxodo para as cidades e/ou zonas mais seguras durante as três décadas de guerra civil, onde poderá contar o facto de a UNITA (rebelião armada) ter imposto o Umbundu como símbolo de afirmação patriótica nas zonas sob seu domínio.

As principais decisões do lar entre os Ovimbundu, à semelhança de vários outros grupos de Origem Bantu, reservam-se ao marido. Uma dessas é referente à atribuição do nome ao recém-nascido, como aliás o realça Avelino Sayango (1997: 8): “É o pai, e não a mãe, que tem a prioridade na escolha de um membro da sua família para ser o sando (chará) do primeiro bebé, quer se trate dum menino ou duma menina”.

Este exemplo é apenas uma amostra daquilo que são os aspectos decorrentes da atribuição de papéis com base no género em culturas de pendor “machista”, onde a participação da mulher na tomada de decisões é (aparentemente) nula, pois este ser secundário tem subtilezas para vincar posição. Falaríamos por exemplo da influência que as mulheres vêm tendo sobre as mais temidas figuras e tramas da humanidade.

No contexto das comunidades rurais que abordamos, a maioria das mulheres dedicava-se ao cultivo e lida doméstica, salvo poucas excepções para confirmar a regra. Eram, então, as que tinham formação elementar para o professorado ou enfermagem. O mesmo se aplica aos homens, no cultivo e na caça, excepto uns poucos na função pública, com ofício, ou então para-militares. Njali-A era esposa de motorista hospitalar e Njali-B de funcionário administrativo. Seus maridos eram de concentrar as várias esposas num mesmo espaço, chamemos-lhe de quintal, e com isso uma convivência intensa entre as “irmãs” rivais. Até aos dias de hoje, há quem o pratique nos centros urbanos, o que é culturalmente normal, mas nem por isso fácil de gerir.

Njali-A adoptou um cão, a quem atribuiu o nome de “Notole”. Njali-B intitulou o seu cão “Cohinla”. A palavra é ícone, o que seria pleonasmo referir, já que é sobre o adágio que assentam os nomes dos Bantu. Segundo Francisco Xavier Yambo (2003: 23), o ocimbundu acredita na interacção e correlação de forças entre todos os seres viventes. Outro grupo de nomes, o mais variado, vai das circunstâncias palpáveis em que a criança nasce à preocupação de perpetuar a memória deste ou daquele ente-querido.

Ora, tirando proveito deste paradigma, e na aparente banalidade do direito de dar nome a um animal doméstico, Njali-A e Njali-B vincam posições: Notole, ndikasi vesaila; nate ciwa, ndikasi lo kimbo lyetu” (choca-me bem, sou pinto dentro do ovo; trata-me bem, que faço falta à terra de onde venho).Cohinlãmange calwa” (é muito o que se esconde no silêncio de mulher madura). E assim apresentam, não só um protesto passivo-agressivo aos maridos, mas também uma denúncia à comunidade sobre o que lhes intriga da poligamia, durante o ciclo de vida do cão, qual sino diário.

Numa perspectiva inversa, e reportando-nos ainda à comuna do Monte-Belo, vem outro exemplo: “Kanjila-Komange” foi a alcunha que certo homem chamou para si.Kanjila komange kakwete lapa katekula, lapa kasumbiwa”(por mais insignificante que possa parecer, o passarinho-mãe tem um ninho a sustentar e exercer autoridade).

Podemos concluir que não andará muito longe da verdade a hipótese de que a atribuição de nomes proverbiais a animais como forma de protesto é prática antiga entre os Ovimbundu e provavelmente de outros povos Bantu, dada a semelhança entre Njali-A e Njali-B, que vivem em épocas e lugares distantes. Não nos parece, por outro lado, que seja ao acaso também que um homem adoptou a alcunha para reclamar respeito.

Obras Citadas

Correia, A. (2012, Abril 25). O PENSAR ANTROPOLÓGICO ANGOLANO.Blogue de António Correia , pp. http://jornalistacorreia.blogspot.com/2012/04/o-pensar-antropologico-angolano.html.
Kavaya, M. (2006). EDUCAÇÃO, CULTURA E CULTURA DO ‘AMÉM’: Diálogos do Ondjango com Freire em Ganda / Benguela / ANGOLA. Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal de Pelotas, como requisito parcial à obtenção do título Mestre em Educação (p. 54). Rio Sul, Brasil: Pelotas.
Sayango, A. (1997). O MEU PAI (Vol. 1). Luanda, Angola, Angola: Barquinho – Livraria Evangélica.
Yambo, X. F. (2003). PEQUENO DICIONÁRIO ANTROPONÍMICO UMBUNDU. Luanda, Angola: Editorial Nzila.

"Epute lyukwene ka lyu kuvala" (máxima Umbundu) - A ferida do outro não te causa dor (física).

Quase equivalente a: pimenta no olho alheio é refresco

Adágio Umbundu: o entendimento familiar é mais sólido que uma fortaleza; numa outra interpretação, os segredos familiares são bastante complexos.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Ombenje/cabaça (foto de autor desconhecido)

Ocisangwa (vamwe vacitukula vati “quissangua” e “kisangua”), casyata okunyuiwa mulo von Ngola, cipongiyiwa lo huta yaleluka kwenda yatanda ko kovaimbo vosi. Tusima tuti ka kuli onjila yimosi lika yoku pongiya, nda twa vanjiliya awiñi lawiñi vo lo nyitiwe. Haimo lumwe, ha citangi ko nda tulinga tuti kuli ovisangwa vivali: (a) cina cakwaya kwenda cikolwisa, (b) la cina cakwaya ale syo, pwãi ka cikolwisa. Oco ka tukainde olonjila vya sanjavala, tupopya ño eci ca syata kwapata ovimbundu.

Ocimãho cokutaya cilo oku yevalisa vimwe twamãla okuyeva, kweci catyamenla kelomboloko lyo cinsangwa (cina cakwaya ale syo, pwãi kacikolwisa) kutundasyãhunlu, casumbiwa ndovava, cina okuti kakuli omõla ale ukulu kacisole. Olonjanja vyalwa, u waliveta ocisangwa olaña mwenle lo kulima kepya, ke yevi onjala.

Ocisangwa cipongiyiwa loku felula, ndeci ño ke kela. O sema yitengiwa lo loseke, vikalinga noke ovitami (vikoka okuti tê lo kuvenja, venjamo vombya ale vo neka, oco ka vikalinyolehenle). Kuli vo vana va panga ovitami lo lwoso. Onduko yovitami, tusima tuti yatundilila ko kutamenla.

Oco ocisangwa cisonse, osimbu omanu vainda lo kukapa, kapa ko ombundi, vamwe lavo vo vakapa ko onyoñolo oco cikwate okalemba kamwe kaposoka. Ovituwa vyaco, ndomo caleluka oku citala, haiko vili kovaimbo, omo lyuhwasi wukasi vusitu, kwenda handi mekonda lyukulihinso wapyãla kweci catyamenlã kuhayele lovihemba vyumbundu. Pwãi osuka oyo vali yasyata oku kapiwa kocisangwa. Kweci ca tyamenlã kovikwata vyokusoleka ale okwambata, tukwete ombenje, pwãi volupale omunu osoleka leci akwete.

Ocisangwa laco vo ka citava oku kamba pongandala, pepunda pana pakapiwa ovikwata vyociholo co kutambela ale oku lomba (ko putu vati “consentir”, “alambamento”, ale handi “alembamento”). Mekonda lya nye? Pepulilo eli opo tusanga osapi yondaka. Ndeci twayeva kwakulu vendamba, ocisangwa cikwete esilivilo linene konepa yokutambula akombe. Onduko yocisangwa yitundilila “ko kusangiwa”, ale “oku sangwa”. Tulinga tuti ocina co ku sangiwa ale cimwe cisangwa, ocidenkaise cekalo liwa ku yu wasangiwa. Njali yukãi eye ukwacikele coku cipongiya loku cava, ka citava cikamba.

Eli olyo esapulo twatenlã ko, pwãi nda okwete lyakwavo, tulilavoka lesanju.

Gociante Patissa, Benguela, 26/10/2011.................................................................................. 

PORTUGUÊS: Breve nota sobre o sentido etimológico da bebida Ocisangwa na cultura Ovimbundu

A “ocisangwa” (mais conhecida pelas corruptelas “quissangua” e “kisangua”) é uma bebida típica em Angola, feita à base de ingredientes simples e naturais. Não creio haver uma forma consensual que sirva de receita, tendo em conta até a nossa peculiar diversidade étnica. Ainda assim, podemos resumir a sua classificação em dois galhos: (a) a fermentada e alcoólica, (b) a azeda ou não, mas não alcoólica. Mas para não dispersar o foco, concentremo-nos à realidade dos Ovimbundu.

O propósito destas linhas é partilhar o resultado de uma recente recolha, quanto ao significado antropológico de “ocisangwa” (a azeda ou não, mas não alcoólica), aquele líquido da importância da água, sempre presente e acessível a todas as idades. Às vezes basta uma boa dose de “ocisangwa” para se passar o dia todo na lavoura.

O modo de preparo é pela fervura, similar ao de “ekela lyo sema” (papa de milho), com uma mistura de fuba e rolão, que fará o papel de “ovitami”, (minúsculas porções trituráveis de milho para engrossar o líquido, que fazem com que se esteja constantemente a agitar o copo para se evitar o desperdício de os abandonar no fundo deste). Há quem use o arroz como “ovitami”, substantivo que julgamos advir de “okutamenla”, que em Umbundu significa engrossar.

Para adoçar o líquido, os povos antigos usavam raízes, havendo também quem lhe acrescente troncos de “onyoñolo” para caprichar no aroma. Tais práticas, como é de imaginar, são ainda usuais no meio rural, dada a riqueza da flora angolana e o vasto conhecimento sobre sua multidisciplinar aplicação na medicina alternativa. Mas é ao açúcar que mais se recorre de modo geral. Quanto à sua conservação e até transporte, recorre-se à “ombenje” (cabaça), substituída por utensílios mais modernos conforme o meio.

A “ocisangwa” é dos bens de presença obrigatória na “ongandala”, a trouxa tradicional que se leva nos rituais de “oku tambela” e/ou “oku lomba” (conhecidos como “consentir” e “alambamento” ou “alembamento”). Então porquê? E é daqui que parte a vontade de partilharmos. Segundo nossas idóneas fontes, o líquido é de elevado valor no que à hospitalidade diz respeito. O termo “ocisangwa” vem de “oku sangiwa”, que também se diz em muitas variantes do Umbundu “oku sangwa. Ou seja, “ocina co ku sangiwa ale cimwe cisangwa”, é algo encontrado, símbolo pelo qual o anfitrião se revela hospitaleiro, claro está, tendo na mulher a garantia da sua existência.

Essa é a nossa, mas aguardamos com agrado pela versão que você tiver.

 Gociante Patissa, Benguela, 26/10/2011

terça-feira, 5 de março de 2013

A lingua nacional Umbundu assemelha-se ao Ingles e outras linguas estrangeiras quanto a traducao.
Ex: Onjala yimbala.
Traducao: Tenho fome.
Traducao literal: Fome esta a me doer.
Dai, a algumas pessoas do centro e sul do Pais por influencia da lingua materna traduzirem literalmente algumas frases e ouvimos coisas que as vezes nao fazem sentido, ou ate mesmo falarem mal o Portugues.


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013


Ocilongwa kUmbundu: "Caku kemba Cimbanda, otulo opekela”

Adágio Umbundu (tradução literal): você pode dormir sossegado com base na mentira de um médico [Nota: “cimbanda” tanto vale para terapeuta tradicional como para médico convencional].

(Trazendo a lição em Umbundu, os irmãos da etnia Kikongo dizem que por mais que o galo cante, não pode esquecer que veio do ovo).

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013


Fonte: Voz da América — “O Nome na identidade Umbundu. Contributo Antropológico” é o título da mais recente obra escrita pelo Padre e Antropólogo Jorge Simeão Ferreira Tchimbinda.

A obra segundo o autor é um contributo à onomástica bem como à identidade cultural dos povos de Angola, principalmente os falantes da língua Umbundu.

O desrespeito às normas gramaticais da língua (relativamente ao número e ao género) no acto de atribuição de nomes e apelidos motivaram o Padre Simeão Tchimbinda a fazer uma pesquisa aturada sobre o assunto, o que resultou na publicação desta obra em 2009 esclarecedora desta problemática.

O Sacerdote subdividiu em três grupos os nomes quanto ao género na língua Umbundu:
1. Os que devem ser atribuídos apenas aos rapazes (que têm nas iniciais Sa, Se ou So).
2. O segundo grupo é constituído pelos nomes aplicados somente a pessoas do género feminino (têm como iniciais Na, Ne e Nó).
3. O terceiro é composto pelos Uniformes, que tanto servem para homens como para mulheres.

No seu livro, cuja reedição está para breve, o Padre Simeão Tchimbinda faz referência à atribuição do nome aos recém-nascidos, de acordo com a lei angolana.

Segundo a lei angolana os nomes próprios ou pelo menos um deles deve ser em língua nacional ou em língua portuguesa. Mas, muitos são os cidadãos que se deparam com uma constante rejeição de nomes, sejam nacionais ou estrangeiros em muitas conservatórias do país, em desrespeito à identidade e à cultura de alguns povos.

O Antropólogo Simeão Chimbinda aconselha um melhor estudo e divulgação da lei sobre atribuição de nomes para se evitar atritos inúteis.

A atribuição de nomes na cultura umbundu, segundo o autor é descontínua, diferente da cultura europeia que impôs aos angolanos o conceito de apelido, que em muitos casos representa um atropelo à gramática.

Para o sacerdote o acto de nomeação configura uma compensação para os povos do sul de Angola.

Ainda neste livro, o sacerdote aponta alguns aspectos que põe em perigo às regras de atribuição de nomes na Língua umbundu com a imposição de apelidos.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013


Nascido em 1916, foi-lhe impingido o ano de 1922 pelo registo civil, que entendeu ser a data que mais se adequava à sua aparência física. Esta é das tramas que tornam interminável a vivência de Manuel Patissa, meu avô paterno e patriarca da família. O que por ora interessa é olhar para o velho sob dois primas, o antropológico e o religioso.

Quis o meu pai que eu fosse “sando” (xará) do pai dele, o que me dá um certo estatuto. Entre os ovimbundu, ser xará de alguém é mais do que replicar o nome. O ritual começa com “oku katwala onduko kusando” (levar o nome ao xará, que é quando o casal entrega oferenda simbólica à casa da pessoa escolhida e oficializa o apadrinhamento para toda a vida). Espera-se que o casal dedique à criança tratamento proporcional à consideração devida à (ao) “sando”. Maus-tratos e excessos no exercício da autoridade paterna são passíveis de multa, e mesmo renúncia do nome para casos mais graves. Ora, sendo eu pai do meu pai, não me podiam incumbir tarefas como lavar a loiça, sobretudo a partir do momento em que o “sando” foi morar connosco. Yes!

Escapa-me um sorriso, maldoso talvez, quando recordo duas cenas. O bairro da Santa Cruz, no Lobito, é algo representativo em termos de denominações religiosas, e com isso a repetição em ser abordado para conversão. Meu avô atendia qualquer evangelista.

Certa vez, dois Testemunhas de Jeová deixaram folhetos e remissão à bíblia, conforme sua doutrina. Dias depois, voltaram para seguimento. O pai leu? Teriam questionado. Sim, responderia o velho. E então, que conseguiu interpretar? Sereno, o velho disse: entendi mesmo que é assunto de Marcos 13:22, surgirão falsos profetas (…) para enganar, se possível, os escolhidos. Provavelmente ofendidos, nunca mais passaram.

Numa outra ocasião, o velho foi abordado por pregadores da Igreja Apostólica, cujos membros usam barba comprida, cabelo rapado, bengalas e dançam (descalços e de batinhas brancas) sobre fogueira durante o culto. Depois de os despachar, o avô veio resmungar connosco. Então a pessoa vai-me dizer que é apóstolo? Eu também não sou? Apóstolo não é quem segue os ensinamentos de Deus e prega o evangelho?

O que os pregadores não sabiam era que tentavam converter um catequista da IESA (Igreja Evangélica Sinodal de Angola), que dedicou toda a vida louvando e cuidando de sinagogas. Em seu entender, os pregadores da cidade gostavam de batalhas fáceis, indo a quem já tinha igreja, ao invés de salvar os bêbados, ladrões e outras almas perdidas, de modo a mostrar-lhes o caminho de Jerusalém (pronúncia Umbundu, /ye-lu-salãi/).

Mas que ideia teria de Jerusalém? Bem, se o meu avô viesse a Jerusalém, ouviria que apóstolo não é necessariamente quem prega o evangelho, porquanto o novo testamento, parte considerável de sua doutrina, não tem valor nenhum para os donos da terra, não o leem; saberia que os judeus não saem à rua para conquistar fieis; ouviria que para os hebreus, maioria demográfica e ideológica, Jesus Cristo não é reconhecido como o Messias, que o novo testamento tem mais mistérios do que revelações; perceberia que a tão almejada Jerusalém não imagina sequer que a sua igreja existe. Mas não há dramas, porque se o meu avô viesse, seria um milagre, que ele também já não está em vida.

Gociante Patissa, Jerusalém 13 Fevereiro de 2013

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Quando organizares uma festa não contes apenas com os convidados , porque os "pato " sempre lá estarão. (adágio Umbundu recolhido por Bernabe Sambuio Chinjengue

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013


"A Sondondo, tumalenlã opo; oku avela oku lete." - Ó fulano, sente-se no seu canto;  quem tiver tem algo a te dar nota tua presença." (ocilongwa kUmbundu - adágio Umbundu)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Foto de autor desconhecido
“Owima/ owima/ ocimboto caminga ekaya/ hati/ Burity/ sipiseko” (Umbundu) – É azar, é azar! O sapo pediu-me tabaco, dizendo, Burity, deixa-me fumar um pouco do teu cigarro.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Imagem de autor desconhecido
"Nda wapumba, ku kateye ohonji" (adágio Umbundu) - não é pelo fracasso na caça que vais quebrar o arco.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013



É um dos factos que pode ser retido da leitura da obra “Os Ovimbundu de Angola. Tradição, Economia e Cultura Organizativa” do sociólogo Moises Malumbu, atualmente, acomodado no Vaticano, livro que acaba de reeditado em Roma, nas Edizioni Vivere In.
-------------------------------
Por: Simão SOUINDOULA, Historiador e Perito da UNESCO
---------------------------------
Estalando-se sobre 358 páginas e prefaciada pelo Professor Manuel Laranjeira Rodrigues de Areia, da Universidade de Coimbra, esta publicação e constituída de três partes, essenciais, segmentadas numa quinzena de capítulos.
Este conjunto e completado por uma serie de mapas, particularmente, instrutivos, tais como o do espaço de evolução proto-histórica dos Ovimbundu, da integração dos Jagas, a carta, pouca aproveitada do francês Guillaume Deslile, de 1708, das famosas rotas comerciais, da sua expansão ate meados do seculo XX, da sua articulação com o leste produtor da neo-esclavagista borracha k’ovava ekenha e da sua vintena de chefaturas, a exemplos do Mbalundu, Ndulu, Viye, Wambu, Ngalangi, Kakonda, Kalukembe, Tchikuma e Tchikaya.
Malumbu, doutor na Universide Angelicum da Cidade Eterna inseriu, na sua obra, o famoso quadro, recapitulativo, de autoria de Childs, sobre os reinados de mais de 200 Elombe em cinco dos mais importantes Usoma, de 1650 a 1700 ou 1750.
Por não ter tido acesso ao nosso estudo sobre « Migrações, fusões e fundamentos históricos antigos dos povos bantu ocidentais’ publicado na Muntu, n 2, 1er semestre 1985, sobre a nossa hipótese de constituição anthropo – linguística, genesis, pré - ovimbundu, Malumbu insiste, com razão, na viril fagocitose dos rudes guerreiros Jagas nas entidades sociais dos Planaltos, sobretudo depois da sua expulsão do Kongo e a sua imparável descida para as regiões do centro e sul.
Com efeito, os Ayaka imprimiram uma nova dinâmica política, militar, comercial, social e religiosa aos tranquilos Planaltos. Perpetuarão, naturalmente, o eixo, nortenho, o do olongoya, sobretudo com seus irmãos, notoriamente, assimilados, os Imbangalas de k’Ekole lya Kasandji, com a sua próspera, esclavagista, Feira.


domingo, 20 de janeiro de 2013


Q1: O chifre na campa de alguém significa que a pessoa foi criadora de gado, ou que perdeu a vida em incidente envolvendo gado bovino?

Q2: Que representa a cruz (a pessoa foi cristã, ou apenas um daqueles ritos, como o Natal, observados por cristãos e não cristãos)?

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013


Oratura: UMBUNDU
Onduko Kwayela yalomboloka nye?

Casyata oku yevalisiwa okuti olonduko, kowiñi watyama ko Bantu, ka viya ño ndoto. Konepa yOvimbundu, twa syata oku lekisa, pokati kava vainda lo kutanga evi tu nenãnenã, ensinimwinlõ lyolonduko, cikale evi tuyeva volohango, cikale evi tusanga mwakongamenlã. Olonduko vimwe vikasi alusapo, vyakwavo visitulula ulandu, ndeci kovoyaki kotembo yupika wa cikolonyã, etc.

Etali nda nenã onduko yimwe yakãi, yina okuti poku yililongisa cakala esanju linene calwa, omo akuti oyo vo onduko ya hulukãi wacita ina yange, una okuti ndokulihã ño velitalatu. Kwayela yatyama ko “oku yela”, calomboloka okuti ekova lyomunu ka litekãvã ño calwa, ale pamwe kwaca ale, cipita oko cimolehã. Pwãi konepa yakwavo, calomboloka okuti okulya kwaliminlwe kwapitinlã petosi lyo kungula, ndomo twa cikulihã okuti ovimbundu olongunja.

Ndamuna twamãlã oku lombolola, kuli olonduko vyelomboloko lyalusapo, ndeci mwenle cikasi ya Kwayela. Ya tyamenlã kolusapo wakuti, “kwayela osema, ovipula njala oko vili”. Osapi yondaka yeyi okuti, kwosi kuna kuyevalela epwiti, pwãi vatala ohali vasangiwa vo.

Gociante Patissa, veteke lye kwin la vikwãla, kosãi ya Sunsu, kunyamo wolohulukãi vivali kekwin la vitatu, vo lupale wo Lupito.

PORTUGUÊS
Qual é o significado do nome Kwayela?

Tem-se dito que os nomes tradicionais Bantu não surgem por acaso. No que aos Ovimbundu diz respeito, tenho partilhado o significado de vários nomes, quer recolhidos na oralidade, quer em consulta bibliográfica. Há nomes proverbiais como tal, enquanto outros contam história, geralmente ligada às guerras anti-coloniais, etc.

Vamos hoje falar de um nome feminino, cuja descoberta foi um enormíssimo prazer. E digo porquê: porque é também o nome da mãe de minha mãe, que só passei a conhecer através de uma fotografia a preto e branco. Kwayela é da família do verbo “oku yela”, que significa também ser claro (ter tonalidade de pele clara); nessa linha, “kwayela” significaria que amanheceu. Entretanto, o conceito é mais conhecido pelo seu significado de estar-se pronto para colheita, ou não fossem os Ovimbundu um povo muito ligado à agricultura.

Assim, Kwayela vem do provérbio Umbundu, “kwayela osema, ovipula njala oko vili”, que podíamos traduzir como “onde a fuba abunda, há também famintos”.

Kwayela é, portanto, uma chamada de atenção para a dialéctica da vida.

Gociante Patissa, 14 de Janeiro de 2013, na cidade do Lobito

terça-feira, 15 de janeiro de 2013


Voz da América: O ensino das línguas locais em algumas escolas do ensino primário do primeiro e segundo ciclos, é uma realidade na província da Huíla. Para a consolidação do ensino das línguas locais, 120 professores irão a partir desta segunda-feira até 1 de Fevereiro próximo beneficiar de formação nas línguas Nyaneka-Humbi, Umbundu e Ngangela.


Jornal de Angola14 de Janeiro, 2013: O director da Cultura no Huambo afirmou à Angop que a construção do edifício da futura academia de língua umbundu, para o qual já há terreno, depende do Ministério do sector, a quem foi apresentado o projecto.

Pedro Chissanga disse que a entrada em funcionamento da academia “valoriza e preserva a língua umbundo enquanto património cultural imaterial” e “ajuda a padronizar a escrita e a pronúncia desta língua”.

O director da cultura referiu ter esperança de, “talvez, nos próximos três anos” a academia estar a funcionar em pleno.O umbundu é uma língua bantu falada pela etnia ovimbundo que habita no centro e sul do país. O facto de um terço da população angolana pertencer a este grupo étnico, salientou, faz com que o umbundu seja uma das línguas mais faladas no país e usada por cerca de cinco milhões de falantes.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Ocilongwa kUmbundu: "Ukwene nda opopya, ove vanjiliya kosi yelimi"

Traduzindo literalmente a máxima Umbundu: Quando alguém estiver a falar, olha tu por baixo da língua.

Interpretação: o mais importante é registar a intenção de quem fala, ou seja, há que buscar a mensagem nas entrelinhas.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Ocilongwa kUmbundu: “Pimbo nda pafa onjamba, ombangulo onjamba”

Traduzindo literalmente este provérbio Umbundu: se morre um elefante na aldeia, a conversa é o elefante. Interpretação: os acontecimentos extraordinários tendem sempre a ser tema dominante.



sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Gociante Patissa, Lobito 11 Janeiro 2013

Em Angola, é comum usar o termo dialecto para designar as línguas nacionais de origem africana, remetendo-as implicitamente ao papel de subalternas da língua portuguesa. Por desconhecimento ou por preconceitos, é ponto assente que tal fenómeno é, mais do que problema linguístico, uma questão social e de políticas de Estado.

A caminho de quatro décadas de independência, urge esbater tal herança pejorativa da colonização portuguesa, de si célebre pelo investimento na fragilização da identidade cultural dos indígenas de então. Como defende MCCLEARY, Leland (2007: 11), “a sociolinguística não usa a palavra dialecto nesse sentido pejorativo. Para a sociolinguística, dialecto quer dizer, simplesmente, uma variação regional”.

Observemos que, segundo Fernandes & Ntondo (2002), citados em KAVAYA, Martinho (2002: 54), formam o grupo Ovimbundu, os va Viye, Mbalundu, Sele, Sumbi, Mbwei, Vatchisandji, Lumbu, Vandombe, Vahanya, Vanganda, Vatchiyaka, Wambu, Sambu, Kakonda, Tchicuma, e este grupo corresponde ao maior etnolinguístico angolano (acima de 4.500.000 pessoas) e comunica-se na língua Umbundu.

No contexto de poligamia, partilhamos várias vezes o mesmo tecto com outras mulheres de meu pai. Culturalmente, as “sepakãi” (rivais) são vistas como “irmãs mais-novas” de nossa mãe, a primeira esposa (sendo isso mais determinante do que a idade cronológica para o estatuto de “Ukãi watete” ou “ndona yukulu”, a principal do patriarca).

Se no princípio tratávamos por “tias” as outras esposas, uma posterior reprimenda do pai viria a fazer-nos mudar. (Não existindo designação correspondente a meio-irmão, as crianças de outros lares seriam nossas primas?) Passamos a trata-las por “mãmã” e a progenitora de “mãi”. Na verdade, não se tratou de invenção alguma nossa, pois é “mãmã” qualquer prima ou irmã da nossa verdadeira mãe, como seria “papai”, o nosso, e papa [pa:pa], seus primos e irmãos. Curioso é que mesmo que sejam do primeiro grau, irmã ou prima do nosso pai é “tia”, bastando apenas que não sejam do mesmo género.

Em 1992, a passar uma temporada na comuna do Monte-Belo, que dista cerca de cem quilómetros a leste do Lobito, senti-me intrigado por uma resposta, quando pretendia saber a ementa do jantar, mais concretamente o que seria acompanhante para o pirão de milho, que é invariavelmente a base das principais refeições no meio rural. “A mãmã, tulya la nye?” (Com que vamos comer?) A resposta foi: “Tulya mwenle lombelela” (literalmente, vamos comer mesmo pirão com conduto).

Ainda adolescente e com poucas noções de variações regionais, levei a resposta a mal, vendo nela um corte rude, que em Umbundu dizemos “oku tesula”. Foi nessa ocasião que passei a saber que a “tia”, oriunda da Chila, comunidade fronteiriça entre Va Cisanji (Bocoio, província de Benguela) e Va Sele (província do Kwanza-Sul), tinha percepção diferente, como adiante explica SAYANGO, Avelino:

Nas áreas do Huambo, Bié e Kaluquembe, o termo ombelela é usado para designar qualquer tipo de conduto que acompanha o pirão. Assim tanto serve para designar carne de vaca ou de porco, de ave, como feijão, ervilha, ovos preparados de várias maneiras, folhas de mandioqueira, de abóbora, cogumelos etc. Nas mesmas áreas, o número oito diz-se “ecelãlã” e o número nove “ecea”. Pelo contrário, nas áreas Hanya, Cisanji e Cilenge, o termo “ombelela” tem um sentido restrito. Designa a carne servida com pirão. Não se estende aos legumes ou verduras. Carne que se não come, não se designa por “ombelela”. Assim pode-se imaginar a decepção dum Cisanji, em casa de bieno, a quem se anunciou um almoço suculento de “ombelela” ao encontrar na mesa um prato de pirão com simples folhas de mandioca! (Sayango, Avelino, 1997: 8)

Por outro lado, "sekulu yange" significa, em Benguela, meu marido, ao passo que no Huambo é normal um menino dizer "sekulu yange", pois estará simplesmente a referir-se ao seu avô. Ainda na senda das diferenças, podemos acrescentar outra que tem que ver com tabús. O município do Bocoio, dos Va Cisanji, situa-se no centro, tendo a oeste o Lobito, setenta quilómetros, e a leste o Balombo, também à mesma distância. Se para os Va Mbalombo, a expressão “oku tutumunlã ketako” significa sacudir a poeira da região das nádegas, já para os Vacisanji tal seria um profundo disparate, porque interpretariam como sendo sacudir os órgãos genitais.

As barreiras que ora abordamos são de natureza semântica, susceptiveis que são de criar constrangimentos entre falantes do Umbundu, do mesmo jeito que o fenômeno ocorre em qualquer outra língua da humanidade.

Obras Citadas

 Kavaya, M. (2002). Educação, Cultura e Cultura do ‘Amém’: Diálogos do Ondjango com Freire em Ganda / Benguela / ANGOLA. Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal de Pelotas, como requisito parcial à obtenção . Rio Sul, Brasil: Pelotas.
McCleary, L. (2007). Curso de Licenciatura em Letras-Libras. São Paulo, Brasil: USP.
Sayango, A. (1997). O Meu Pai (Vol. 1). Luanda, Angola: Barquinho – Livraria Evangélica.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Foto: gentileza de Edson Tadeu Bastos, ele também
um dos laureados (categoria de artes plásticas)

Fiquei à espera que meus amigos me mandassem fotos de ontem da outorga do Prémio Provincial de Cultura e Artes em Benguela. Devem estar a retemperar as energias.

Tenho recebido parabéns por ter sido indicado pelo júri para a categoria de ciências sociais e humanas, "pelo contributo na divulgação da língua local Umbundu, na perspectiva das tradições orais, através do conto e das novas tecnologias de comunicação e informação”. Não tinha a certeza quanto ao que seria a reacção do público, mas até agora tem sido de encorajamento. A família está sempre perto.

Entre outros, recebi agradecimentos de Alberto Ngongo por, uma vez mais, dignificar o Lobito; Recebi elogios por me assumir natural do Monte-Belo, Bocoio (meu documento diz natural da Equimina, Baía Farta); recebi abraços do bairro da Santa-Cruz, onde morei entre 1997-2008. Abracei Délio Batista, autor da capa do “Consulado do Vazio”, meu livro de estreia; abracei o Sr. Grilo, da tabacaria, Avelino Henriques, meu professor do curso intensivo de jornalismo em 2005. De Lilas Orlov recebi bom telefonema.

Vários outros gestos de carinho continuam a chegar, mas julgo que os parabéns pelo prémio, no meu caso, são fundamentalmente para o júri.

Primeiro, porque a literatura, ao contrário da música, não é tão fácil de acompanhar. A divulgação, sendo ainda débil, não contribui para que o público conheça o nosso trabalho como devia ser. Reparem que o livro de contos "A Última Ouvinte", editado em 2010 pela União dos Escritores Angolanos, onde está presente a tradição oral africana, já não existe em Benguela, esgotados que estão os quase 200 exemplares.

Somado a isso, o Jornal Cultura (das Edições Novembro), bem como a Revista Tranquilidade (do Comando Geral da Polícia Nacional), veículos em onde tenho crónica e ensaio publicados, não chegam ao grande público. Os blogues Ombembwa e Angodebates, onde partilho o que recolho da tradição oral africana, existem há mais de quatro anos, mas sabemos bem que poucos angolanos têm acesso à Internet, ou, se o têm, dedicam atenção à leitura de coisas do género. Em Abril realizei e conduzi na Rádio Benguela o "Espaço Literatura", meia hora semanal entre o livro e a tradição oral africana, o qual acabei suspendendo ao cabo de quatro sessões. Mas não é só isso.

Segundo, porque, sem deixar de considerar o espírito de equipa e a dimensão do patrono do prémio, a Direcção Provincial da Cultura, acredito que fez muita diferença, na minha indicação em particular, o papel de Armindo Jaime Gomes "ArJaGo" (historiador, docente, escritor, e editor). Como um dia me disse José Patrocínio, "em certa medida, as instituições não existem, senão em função das pessoas que as representam".

Estaria a faltar aos meus grandes deveres não mencionar isso. E continuarei nessa senda cosmopolita de dar e receber cultura por via da literatura e comunicação social.

Abraços
Daniel Gociante Patissa, Benguela 09.01.2013

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

"Pana paku patukile osãla, eci opita tê oku petama ko" (máxima Umbundu) - tradução livre: ao passares por onde alguma vez te caiu o chapéu, há que inclinar ligeiramente o tronco (há que aprender com o tropeço, para prevenir os próximos). 

Omo lyaco, twanena esinumwinlo lya yimwe vali onduku yutundasyahunlu kUmbundu, ndomo tu citanga vekongamenla lya Francisco Xavier Yambo, in «Pequeno Dicionário Antroponímico Umbundu» , Editorial Nzila, Luanda, 2003. (Hoje é o Dia da Cultura Nacional em Angola. Por isso, partilhamos a explicação sobre mais um nome tradicional Umbundu, conforme apresentado no livro de Francisco Xavier Yambo, in «Pequeno Dicionário Antroponímico Umbundu» , Editorial Nzila, Luanda, 2003.)

KALUMBU – este é o nome dado a uma criança quando a mãe concebeu num período irregular do ciclo menstrual. Elumbu quer dizer surpresa: A mãe não conta com a criança e, de um momento para o outro, acha-se grávida. É um estado de gravidez após um parto normal. A mulher, nestas condições, a amamentar nem sequer sonha com o ciclo menstrual; no entanto, decorridos alguns meses após o parto, apercebe-se de que está grávida. Nestas circunstâncias, a mulher recorre àquela mulher que já teve gémeos, para trata-la, porque seu tratamento é igual ao dos gémeos  O conceito tradicional sobre esta ocorrência é o seguinte: a mulher ficava grávida com o sangue daquela criança que nasceu e é por isso que se considera como se fosse gémea, embora falsa.

domingo, 6 de janeiro de 2013

"Teke ngenda kimbo kumãi/ vokahumba nduwambatela/ olosongo vyekumbi" (No dia em que em eu for à terra de minha mãe, levo para ela na quinda raios de sol) - Trecho de um tema do cancioneiro popular Umbundu, retomado no estilo sungura por Tony Amado, com participação de Victor Bill.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013


UMBUNDU
"Ohombo yilya opapelo, omunu olya olombongo" (Olusapo Kumbundu). Esinumwilo: Kovaimbo, osapi yomwenyo womanu oku lima. Munu la munu wungula eci atalavaya pokapya, ale mbi pamwe nda okwatisiwa lepata. Oku pitinlã volupale, omunu olya nda wasanda apa asanga olombongo. Calinga ño ndohombo, yina okuti kimbo yilya amenlã, pwãi volupale yinyañulunlã olopapelo.

PORTUGUÊS
“Cabrito come papel, gente come dinheiro” (adágio Umbundu). Explicação: No meio rural, a chave da vida é o cultivo. Cada um colhe o que cultivar, ou talvez se tiver de ser ajudado pela família. Chegados na cidade, a pessoa só sobrevive se arranjar formas de obter dinheiro. É igual ao que acontece com o cabrito, que no meio rural se alimenta de folhas, mas na cidade fica a vaguear por papéis dispersos para comer.

Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa 2015

Vídeo | Lançamento do livro A Última Ouvinte by Gociante Patissa, 2010

Akombe vatunyula tunde 26-01-2009, twapandula calwa!

free counters

Popular Posts

Blog Archive