Segundo o jornalista Reginaldo Silva, "Mais projecções do INE sobre o estado da população angolana referentes a 2012..."
sábado, 31 de maio de 2014
domingo, 25 de maio de 2014
quarta-feira, 21 de maio de 2014
Passam das 10 horas da manhã. É domingo. Pessoas
normais estarão a caminho da praia, a visitar parentes, ou na cama em ressaca,
não ligadas ao telefone fixo com discurso repetido para uma lista com mais de
80 nomes. Mas tem de ser, e é comigo:
"Aló",
atende-me uma voz feminina.
"Sim, bom dia. Ligo
da empresa X para confirmar se a senhora vai usar o serviço que reservou para
hoje. Falo com a senhora Wanda?"
Do outro lado da linha, a senhora não se
contém. Rebenta mesmo uma risada com sabor a sarcasmo. Estou calmo e deixo a
senhora rir-se às custas do meu ouvido. Instantes depois, satisfeita talvez por
lavar a alma, ela confirma, corrigindo:
"/Uanda/?! /Vanda/!!! Sim, sou eu.
Vou usar".
Não sou pago para discutir
sociolinguística com os clientes. Aliás, pouca utilidade há para pensar, de tão
autómatas que certas missões são, pelo que agradeço a atenção e deixo um até
logo.
Agora, no intervalo entre uma chamada e a outra,
quem ri sou eu. Sim, porque em Umbundu, língua nacional predominante no centro
e sul do país chamado Angola, e em particular em Benguela, "owanda",
ou simplesmente "wanda" [ua:nda], significa rede. É um nome que se dá
a crianças que surgem depois de o casal ter perdido outros filhos. É como
metáfora a dizer que a rede da morte poderá arrastar esse recém-nascido a
qualquer momento também. E a pessoa cresce com aquele nome. Para a minha
interlocutora, de certeza, só existe uma forma, Wanda que se lê com /v/.
Já lá vão uns três anos e não sei como fui
pensar logo hoje em ruídos na comunicação.
Gociante Patissa, Benguela, 08.12.2012
segunda-feira, 19 de maio de 2014
"Ame ndoco nda vakwa CENSO vandipulisile
nda ndikwete olusu vonjo, ame nda ndilinga mwenle siti si kwete. Eci ndifeta
olusu ndilila, omo okuti - ndapanga ale oviyaso, oloneke olusu yenda ovyo
vyalwa vali enene - ndifeta ño olusu yimwe okuti sa yimwinle".
TRADUÇÃO (português)
Se eu fosse
questionado pelo pessoal do Censo sobre a energia eléctrica em casa, eu diria
mesmo que não a tenho. Quando pago pelo consumo de electricidade, eu choro,
pois - já fiz os cálculos, os dias de falha são a maioria - tenho estado a
pagar por algo que não vi. (De um cidadão que falava ao programa Omenle
Yocinjomba, da Rádio Benguela, hoje)
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Quando em meados da década de 1990 do século 21 testemunhei a grande festa de efiko (ritual de iniciação feminina) entre os Vakwandu, grupo cultural pré-Bantu predominante no chamado território dos Vandombe, fiquei mais ou menos decepcionado. Estava de visita à comuna da Kalahanga, tinha eu pouco menos de 15 anos, e o meu pai, outro militante profundo pela tradição oral, cuidou de nos aproximar à manifestação cultural daquele povo. Como filhos do chefe (o velho era o administrador comunal), foi-nos granjeado um lugar privilegiado. A minha decepção nada tinha que ver com o ritual em si, ou com eventual diabolização infundada de que este tem sido vítima ao longo dos tempos, mas tão-somente pela forma como anciãos procuravam, digo mesmo compulsivamente, roubar um pedaço de carne ao lume e ir chupando o tutano, tão agarrados ao osso, sujeitando-se a pauladas do guardião da copa. Na minha concepção, como julgo ser na da maioria de outros Ovimbundu, o osso é a parte menos valiosa do animal. Temos um provérbio segundo o qual “u olya omuma ka litami losonde”(quem come o fígado não se suja com sangue). Subentende-se existir no fígado o maior prestígio, tanto assim é que, quando se prepara uma refeição para visitas ou pessoas relevantes, o fígado é das partes que não devem faltar. Outro provérbio diz que “u ka li po ombelela yaye akepa” (ao ausente, há o risco de sobrarem apenas ossos para conduto, mais concretamente o que seria acompanhante para o pirão de milho ou de farinha de mandioca, que é invariavelmente a base das principais refeições no meio rural). Bem, é certo que não seria pelo valor antropológico do osso que o estudante de origem Ovimbundu andaria aos pontapés com o conteúdo da anatomia, que atribui ao esqueleto o mérito do equilíbrio do corpo humano. Para terminar, partilho uma das várias lições indirectas que retenho da minha mãe, nesta máxima: “cimwe, nda tuyola, tuyolela ño apa kuti ovayo akepa” (às vezes, se é que nos rimos, só o conseguimos porque os dentes não passam de ossos). E aqui vai um poema que vem no meu livro GUARDANAPO DE PAPEL, pág. 15. NósSomos. Lisboa, Portugal, 2014:
REGISTO MAGNÉTICO DA MAMA
Calha às vezes filho
que o arco-íris pinta cantos farpados
no centro da mão do tímpano
Também calha filho
que o arco-íris traz cócegas à pétala
O músculo então cede
com a leveza da água
afinal
dentes são só ossos.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
Voltei ao bairro em que cresci e me deu as
dificuldades (para amadurecer) e as alegrias (para o necessário equilíbrio). É
uma sanzalita chamada Santa Cruz. Querem agora que a achemos no município da
Catumbela, mas o bom mesmo é que as ordens administrativas não comandam
memórias - logo, aquilo Lobito é. Morei lá entre 1987 e 2008. Mãe de um é tia
de todos, pai também, o mesmo com os irmãos. Também é colectiva a dor, a perda
ou, quando for o caso, a vergonha. Gosto de interagir com jovens, mas gosto
muito mais é de ouvir os mais-velhos, mergulhar em seus suspiros, diálogos, sem
deixar de estar atento às pragas rogadas, sejam abertas ou veladas. Em Umbundu,
quase tudo é por atalhos, servido na bandeja da metáfora, do fragmentado, da
inferência. Na saudação, um breve tema de conversa com uma vizinha (a
propósito, nós não temos isso em Umbundu, não dizemos o seu equivalente literal
"una tulisungwe", mas sim "ukwetu umwe tukasi laye kumwe",
ou seja, uma pessoa companheira). A mais-velha lamentava-se de vários óbitos em
dias seguidos, ao que se seguiu um profundo... "OSONGO YASENGA". No
contexto do diálogo, queria dizer que o bairro está sem graça. Mas
"osongo" pela mesma grafia e fonia pode também significar semente, ao
passo que com uma ligeira alteração na entoação pode significar espinho.
Gociante Patissa
Gociante Patissa
terça-feira, 6 de maio de 2014
"Si kaivale ko
okuti kilu lyeve ndukombe
ndipita ombamba
ndonelehõ yakala lomenle
kekumbi ka yi ko vali
yowuka lutanya
mwapita ombela
noke yaloluka"
TENTATIVA DE TRADUÇÃO
Que eu não me esqueça
de que sou hóspede na face da Terra
de efémera passagem
como a flor que sorriu de manhã
Já não existe de tarde
murchou com o sol
bateu a chuva
e ela ruiu.
okuti kilu lyeve ndukombe
ndipita ombamba
ndonelehõ yakala lomenle
kekumbi ka yi ko vali
yowuka lutanya
mwapita ombela
noke yaloluka"
TENTATIVA DE TRADUÇÃO
Que eu não me esqueça
de que sou hóspede na face da Terra
de efémera passagem
como a flor que sorriu de manhã
Já não existe de tarde
murchou com o sol
bateu a chuva
e ela ruiu.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Todas as vezes que
veio à cidade, Velha-Mbali se deparou com deselegantes surpresas, mas a desta
vez, batia seguramente todos os recordes. A anciã chegou mesmo a tossir de
choque ao cruzar com miúdo de doze anos apenas, não mais do que isso, girando a
cidade para cima e para baixo com cuecas e sutiãs de mulher adulta no ombro a gritar:
«arreou, arreou no negócio, é a última zunga do ano!!!»
E como a ousadia é
a alma do negócio na zunga, o rapaz abordou-a insistentemente, para não dizer
chatamente:
— Minha mamoite,
arreou na tanga; olha “mónica”; táqui surtião…
Velha-Mbali ainda
tentou fingir indiferença, mas não aguentou. Arremessou, com toda a violência,
o galo de raça contra a cabeça do adolescente:
— Vai faltar
respeito na tua mãe, que não te deu educação!!!
O zungueiro, que
nunca vira tão intempestiva reação de potencial cliente, logo uma “mamoite”,
meteu-se a correr. E no máximo da sua quilometragem! E devia ter uma cabeça
muito rija mesmo, o zungueiro, já que o impacto da pancada fez rebentar a corda
que imobilizava as patas do galo. Este, que não imaginava as fêmeas que por ele
esperavam para reprodução lá no kimbo, meteu-se em fuga no frenético trânsito
urbano em hora de ponta. Era ver o desespero da anciã diante do risco de perder
o animal. Isso é que nunca! Eis que arregaçou o espírito, e lá ia atrás do
galo, ela que também já não tinha lá muita juventude nas pernas. De repente… —
puapualakatá, pumbas! — acabava de ser atropelada por um kupapata, que vinha em
sentido contrário.
— Netele,
a njali, ndakapele okuteta onimbu… (É
desculpar, minha mãe, a intenção era fazer corta-mato...)
— Amõla
wange, watopa muele cokuti vetapalo omo oteta onimbu?! (És
tão parvo assim, meu filho, que queres corta-mato na estrada?!)
— Vangecele,
mamã…(Perdão, mãezinha…) — suplicava o
kupapata, enquanto se levantava do chão e inventariava os danos.
— Mbi
cakulimba okuti olikondakonda opitaela?! (Esqueceste que quem
contorna também costuma chegar?!)
O kupapata de
imediato ligou para o serviço de bombeiros, que localizou a família e levaram
Velha-Mbali ao banco de urgência. Algumas horas mais tarde, estava aplicado o
gesso. O kupapata tinha muitos danos, a começar mesmo pela compra de outro galo
de raça — regressar de mãos a abanar é que Velha-Mbali não aceitava de modo
algum!
sábado, 3 de maio de 2014
Investi metade da tarde de ontem no centro da
cidade do Lobito, deambulando como exercício de "queimar tempo", um
pouco por incompetência de certa agência bancária, onde suportei longa fila até
ouvir que "o colega que atendia Western Union saiu para almoçar, passa
mais logo ou então amanhã". Procurei saber daquela simpática senhora que
me atendeu se o banco fecharia caso o colega estivesse doente, ao que respondeu, a contra-gosto,
que não. Bem, como discutir não me resolveria o problema, saí ao encontro da
celebração da vida que é no fundo o quotidiano, os diálogos fortuitos e a
observação de imprevisíveis fenómenos sociais. Numa rua da Zona Comercial,
passo por duas senhoras, nessa mania muito angolana de estorvar o passeio. Uma
era funcionária (em pé e de passagem), a outra a mendiga (sentada, encostada
entre a árvore e a parede). Era grande a empatia. A funcionária elogiava a bebé
de mendiga, num registo de diálogo coloquial e terno, na língua Umbundu, que a
seguir reproduzo, ciente embora da poesia que se perde com a tradução:
“Avoyo, mba wakula!” – Vejam como está grandinha!
“Oco,
wakula!” – É, está mesmo grande!
“Omõlã
mba ka vala!” – A criança não custa!
“Ocili,
omõla ka vala, civala ño imo” – É verdade, o que custa mesmo é a gravidez.
E lá continuei a caminhada com a certeza de que algum troco a funcionaria deixaria para a mãe da bebé, sem deixar de especular que o pai da criança, algures na cidade, aguardava pela esposa que faz da mendicidade o posto de ganha-pão.
domingo, 27 de abril de 2014
Há uma localidade chamada Longonjo, na província do
Huambo. Segundo uma fonte oral entrevistada recentemente pela Televisão Pública
de Angola, o nome vem de "olongonjo", que é o plural de
"ongonjo", utensílio que se resume em desbastar o tronco seco de uma
árvore até ter uma cavidade. O uso daquele instrumento está directamente
associado à era da escravatura ou a do trabalho forçado na Angola colonial,
uma vez que se caracterizava pelo seu transporte ao ombro, o que representava
um peso enorme (o do instrumento e o do material para obras de construção,
podendo ser sólido ou líquido). Há inclusivamente uma canção de revolta na
língua Umbundu, a qual destaca: "kombya, kongonjo, konungi yovava;
ndicambata ndati? (Dão-me a panela, o ongonjo e o reservatório de água; como
querem que leve tudo isso de uma vez?) Hoje, o "ongonjo" é usado para
outros fins, geralmente feito bandeja para a comida de animais domésticos
(porcos e outros) em criações de baixa renda. Resumindo, devia haver um tipo de
obra que deu a impressão de uso excessivo de "olongonjo", pelo que a
região ficou conhecida como "pimbo lyolongonjo" (aldeia dos
"olongonjo"). A fotografia foi captada em 2010 na fazenda de uma
pessoa amiga no município do Caimbambo, província de Benguela.
Gociante Patissa, Benguela, 27 Abril 2013
terça-feira, 22 de abril de 2014
"OCINIMBU WATETA KONYOHÃ OCO COVE"
(adágio Umbundu) - o pedaço que cortares da cobra é que é teu. Enquadramento:
sendo a cobra o bicho perigoso que é, devemos dar-nos por satisfeitos, por muito
pequeno que seja o pedaço que lhe conseguirmos arrancar. Em rara oportunidade,
todo o pouco serve.
A PROPÓSITO DO CURSO DE FOTOGRAFIA QUE TERMINOU
HOJE, MAIS CEDO DO QUE PREVISTO... como se diz em inglês, "too good, to
last" (bom demais, para durar). Ainda assim, prefiro o Umbundu da questão.
Cruzei há
dias, no mundo digital, com uma questão aparentemente simples, se vista nos
termos normativos da língua portuguesa: qual é a diferença entre “Onde” e
“Aonde”?
Conjecturando que a intenção era corrigir e apontar caminho, resolver-se-ia reafirmando que “onde” é usado para indicar lugar estático, ao passo que“aonde” enuncia movimento em relação a um local (para onde). Logo, dir-se-ia, pela bitola simplista muito mediatizada entre nós, que os angolanos usam errada e frequentemente o “aonde”. Mas porquê? Sendo infinito o inventário de causas, partilho a tese de que, em contexto bilingue, os erros, muito mais do que as coincidências tidas como correctas, nos podem abrir as portas à compreensão da coabitação do português com as outras línguas nacionais de matriz africana, na lógica de que os idiomas veiculam culturas.
É certo que a confusão entre “onde” e “aonde” não tem propriamente uma nacionalidade, o que não nos impede de analisar pequenos contextos e circunstâncias. Quanto à construção frásica, na minha língua materna, Umbundu, no mais das vezes, o complemento circunstancial de lugar fica no fim. “Ove okasi pi?” (estás onde?) Ora, temos aqui um som pouco musical, talvez por isso mesmo tenha sido "ajeitado" pela linguagem popular como em “wenda pi?” (vais aonde?). Julgo morar aqui a origem do uso indiferenciado do “onde” e “aonde” na linguagem informal. Como hipótese, podíamos dizer que se trata de uma interferência que se passa de geração em geração.
Um abraço de Gociante Patissa, Benguela, 22 Abril 2014-04-22
quinta-feira, 17 de abril de 2014
terça-feira, 8 de abril de 2014
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Entre 1988-90, na comuna da Equimina, município da Baía
Farta, uma das canções de militares (para sua auto - motivação), na língua
Umbundu, dizia: "Nda ndufeko,
si kwela osivili; osivili otamba yomulingi. Haka!"
TRADUÇÃO
Se eu fosse moça, não me casaria com um homem
civil; o civil é comparado à uma tampa de moringue. Oh!"
ENQUADRAMENTO
A imagem que me ocorre também não é concreta. Será por ser algo de pouco valor a tampa de moringue? Seria porque a tampa de moringue é algo que se perde facilmente e quiçá difícil de preservar (do tip, é um companheiro susceptivel a rusgas mais tarde ou mais cedo)? Ou seria por se ver que a maioria dos moringues cumprem o seu papel sem se ressentir da ausência de tampa? Para terminar, já agora, os moringues do teu bairro, no que te lembres, tinham tampas? Hahaha
ENQUADRAMENTO
A imagem que me ocorre também não é concreta. Será por ser algo de pouco valor a tampa de moringue? Seria porque a tampa de moringue é algo que se perde facilmente e quiçá difícil de preservar (do tip, é um companheiro susceptivel a rusgas mais tarde ou mais cedo)? Ou seria por se ver que a maioria dos moringues cumprem o seu papel sem se ressentir da ausência de tampa? Para terminar, já agora, os moringues do teu bairro, no que te lembres, tinham tampas? Hahaha
quarta-feira, 2 de abril de 2014
"Pungunda wukwanjeke, opo pekuto
lyukwavipepe" (adágio Umbundu muito cantado nos hinos cristãos da igreja
da minha família) - na queda (trambolhão?) de quem levava o saco, é onde se
sacia o faminto.
Enquadramento: se
algum abastado que leva um saco de produto alimentar (farinha, por exemplo) cai
e o conteúdo se espalha no chão, aquele que enfrenta a penúria aproveita. Ou
seja, na dialéctica da vida, a desgraça de uns pode representar oportunidade de
outros. Bom dia
quarta-feira, 26 de março de 2014
Akulu valinganga hati: "NDA O KASI KUWA,
KUVI KA PASULE KO." (Umbundu) - Os mais velhos disseram: SE ESTÁS NO LADO DO BEM, HÁ QUE IR VISITANDO O LADO DO MAL (ou seja, Se ESTÁS NA FARTURA, É BOM EXPERIMENTAR DE VEZ EM QUANDO O LADO DA ESCASSEZ).
PS: partilhado por
Luis Kandjimbo através do grupo ETUMBULUKO LYE LIMI LYUMBUNDU. Tradução minha
terça-feira, 25 de março de 2014
"VULEÑE MWAPWA" (expressão Umbundu) -
reservatório vazio.
Enquadramento: Uleñe é geralmente uma panela
grande, de barro ou não, onde se guarda a fuba (farinha de milho ou
mandioca). Diz-se quando se regista um vazio, como por exemplo de ideias ou de
forças. É como me sinto agora, foram-se as ideias. Ou seja, "Vuleñe
mwapwa" hahahahasegunda-feira, 24 de março de 2014
"Kanjende nda oluka omõla waye,
ove yevelela" (máxima Umbundu) - Quando uma experiente mulher dá nome ao
seu recém-nascido, você deve ficar atento.
Enquadramento:
entre os ovimbundu, tal como ocorre em vários outros grupos étnicos de matriz
Bantu e pré-Bantu, o nome próprio, que pode também ser herdado do xará, é na
verdade sempre carregado de significado. Pode ser um provérbio, marco de um
acontecimento, um receio ou forma de responder ou desafiar os deuses. Vou
colocar na secção dos comentários matérias sobre o assunto, elaboradas no
contexto dos blogues e do Jornal Cultura.
sábado, 22 de março de 2014
"Ku kalile/ sanga
ame ndililavo/ ndicuhinlã/ ciñokela ekaka"(Umbundu)
- Não chores/ senão eu choro também/ se me calo a isso/ dá-me nó na garganta (angústia).
Excerto
da musica "Trititi", do já falecido Viñi-Viñi, do Huambo,
nome artístico que corresponde a Etc., Etc. A música saiu mais
ou menos em 2002/3, referindo-se ainda à dor de um pai que nada tinha para dar
de comer à sua criança, a quem deu o nome de Trititi, por sua vez
uma onomatopeia ao som de tiroteios de guerrilha.
quinta-feira, 20 de março de 2014
segunda-feira, 17 de março de 2014
"U halimi upewa ovipungu, u hatumbi
onongombe upewa omalungangundi/ omphembe"- (adágio
Nyaneka-Nkhumbi)
-Tradução: a quem
não cultiva deve-se oferecer sobejos de mantimentos, a quem não gosta de criar
bois deve-se oferecer restos de leite azedo.
(colhido por Ovídio
Pahula, in 'No Fundo da Pedra Há Um Tchingono, pág 23. Brigada Jovem de
Literatura-Kunene. 2006)
sábado, 15 de março de 2014

Sim, para quem estiver em Benguela e se importa (pode) investir nos conhecimentos, aconselho uma visita ao centro da minha amiga Nancy A. Gottlieb, ali pelo jardim do Consulado Português.
quinta-feira, 13 de março de 2014
segunda-feira, 10 de março de 2014
segunda-feira, 3 de março de 2014
"Nda omõla kwo longisile, ha wove ko; etimba lyaco lyove, pwãi olondunge vyaco ha vyove ko" (Umbundu) - Se não ensinares a criança, não é tua; o corpo é teu, mas o juízo não.
De um cristão ao programa do amigo Antonio Firmino Antonio, Rádio Lobito, há pouco. Tula!
sábado, 1 de março de 2014
Excelência, quando a imprensa escreve Cuanza sul, no lugar de Kwanza Sul, como aliás está no dinheiro, está a corrigir ou a perpetuar uma confusão resultante precisamente da falta de actualização da grafia das línguas Bantu? Qual é a opinião dos Instituto de Línguas Nacionais e do Ministério da Cultura? Não será arriscada, Excelência, essa ideia institucional de que nos vamos reger pela falta de norma?
Angola, repito, entenderá um dia que reside na investigação a chave para a solidez de medidas. Até lá, ficaremos atados ao improviso, ao que a imprensa vende, aos paradigmas nem sempre razoáveis herdados do poder colonial. E os milagreiros de costume nada fazem para encurtar a distância entre as elites e a sabedoria popular. Seria para isso que conquistamos a independência?
6h15 da manhã, sábado, já se foi o sono. Na
vizinhança, outra vez em alto volume, toca "nakalungu", estilo
sungura, da autoria de Kupeletela, rapaz do Bocoio, que divulga aforismos e
adágios em Umbundu. Não me devo chatear, já sei, pois a música é de alguém,
como eu, bisneto de Patissa Maliyanu
Alguns trechos: "nakalungu/ nakacekele/ cukwavo olya/caye osoleka (...) cananga mo ceci/olongombe vipokola komunu/omunu ka pokola kwisya yaye/ la ina yaye" (o espertalhão é dinâmico, guarda o que é seu para comer o que é do outro (...) o que me deixa perplexo é que o boi obedece ao ser humano, o ser humano desobedece ao pai e à mãe"
Alguns trechos: "nakalungu/ nakacekele/ cukwavo olya/caye osoleka (...) cananga mo ceci/olongombe vipokola komunu/omunu ka pokola kwisya yaye/ la ina yaye" (o espertalhão é dinâmico, guarda o que é seu para comer o que é do outro (...) o que me deixa perplexo é que o boi obedece ao ser humano, o ser humano desobedece ao pai e à mãe"
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Ainda nos tempos difíceis de caçar a paz com a canção, Fedy entoou:
"Akulu vetu/ vata olusapo/ cambata ekumbi calwa/ tulikwati omunga/ konjembo ka kuli elau"
- "Os nossos mais velhos disseram/ em forma de adágio, que muitos mistérios carrega o dia/ Estejamos unidos/ não há fortuna após a morte"
1º lugar: João Nunda: os nossos mais velhos, contaram uma história, durante o dia pode acontocer muita coisa, vamos nos unir, a pós a morte já ñ existe felicidade. looool, ganhei o consulado do vazio. mano
OBS: Para essa posição, tens o livro Não Tem Pernas o Tempo. Mas se quiseres, por já o teres, outro, que seria o Consulado do Vazio, estás à vontade.
2º lugar: Fernando Sapalo Katchingona Katchingona: os nossos mais velhos disseram, o dia leva muita coisa, unamos as mãos, na morte não tem vaidade.
OBS: ficaste em segundo. Para o lugar, tens direito ao Consulado do Vazio, mas se quiseres outro, como seria o Não Tem Pernas do Tempo, abro excepção.
Obrigado aos que concorreram e aos que acompanharam o exercício. A nossa língua conta connosco para não morrer por falta de uso. Ovilamo! (cumprimentos)
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
Mbi umwe oyongola okupiñala otelemóvêlê ya inakulu yange?
Twalisanga ponambi olosãyi vyapita ndeti.
Inakulu yange Kalonga yu wakala lokuliyeya. Ombangulo yaco yafetika eci vakota
lyange vopula vati:
- A vavó, pwãi otelemóvêlê yove yipi?
Eye yu
watambulula hati:
- Ame ndakava. Ndaciyikila vomala. Nda umwe oyiyongola, eye ayupe. Ocina oco cilinga okuti ndacilandela ale ekwim lecea (19) kolosaludo, alopo
cilya ño olombongo?! Ame oco vo si citenlã!!!
Inakulu yange lolopapelo vyaco ka visilivila
vali ka vinilesi. Okutala kosi yutima, walavokaile ño cimwe okuti cilya ño
lumosi, catenlã. O otelemóvêlê pwãi yasapa!!!
Catayiwa la Gociante Patissa, veteke ly’akwim
vavali lecelãlã, kunyamo wolohulukãyi vivali lecelãlã.
……………………………
(Do arquivo) Português: ALGUÉM QUER
HERDAR O TELEMÓVEL DO MEU AVÔ?
Encontramo-nos num óbito, nesses últimos
meses. O meu avô Kalonga pôs-se então a lamentar. A conversa iniciou quando os
meus/minhas kotas (irmãos) o questionaram:
- Onde está o teu telemóvel, avô?
Foi então que respondeu:
- Estou farto, fechei aquilo na mala! Se
alguém quiser, que venha buscar. Então não basta ter comprado 19 saldos, e aquilo
continua a pedir mais (para recarregar), sempre a me dar cabo do dinheiro? Eu
também assim não aguento!!!
O avô nem sequer deitou fora os já
utilizados cartões de recarga, é como se fizesse colecção. No fundo, ele
gostaria mesmo (e como gostaria!) é que o bicho comesse só uma única vez… para
toda a vida. É que o telemóvel afinal é guloso!!!
Gociante Patissa, 20 de Maio de 2008
OBS: Foto de autor desconhecido
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Vaketu, kalungi!
Twalisula
okasimbu po naito, kolombangulo vya tyama kutundasimbu, kovilongwa kwenda
alusapo vasangiwa vesinumwinlõ, okupisa polonduko vyomanu.
Kacasapalo,
twakala ko lupale wo Kuvale, okutelinsa ohuminyo yokupaswisa umwe tiyu, ndomo
twacikulihã ale akuti kokwetu, tuwiñi welimi lyUmbundu, onambi yapita ño kuyu
wayipaswisa ale. Volombangulo, ukulu watulombolwila onduko yaye: “Ame Mumbepya [etokeko
lya mumba+epya]. Olusapo waco wowu okuti: ndipumba ño epya, si pumbi ekuto”.
Umwe,
vendo lyetu wakumbulula hati: “Oyo pwãi onduko yocimonya”. Ukulu yu wamemenako.
“Citava”. Yimwe vo okuti tuyinõla mo yeyi okuti, ndaño wandilimili epya,
wiya wukwata ocilele cokunditekula”.
Gociante
Patissa, keteke lya 17, kosãyi ya Kayovo, unyamo wa 2014
--------------------------
PORTUGUÊS:
QUAL É O SIGNIFICADO DO NOME MUMBEPYA?
Amigos,
saudações!
Já
lá vai um bom tempo desde a última abordagem sobre a nossa tradição oral, pelo
campo das parábolas e provérbios que subjazem em cada nome.
No
passado sábado, fomos à vila do Cubal, cumprindo, assim, o dever de nos
solidarizarmos com um tio nosso, como é já sabido que, para os Ovimbundu, o
óbito só está encerrado para lá tiver marcado presença. Numa das conversas, o
ancião explicou sobre o seu nome: “Meu nome é Mumbepya” [aglutinação de “mumba”
+ “epya”]. O sentido do provérbio é: posso é ficar sem lavra, mas não fico de
barriga vazia.
Um
dos presentes replicou da seguinte maneira: “Não será este um nome para
preguiçoso?” O ancião soltou um sorriso. “É provável", disse. Outra visão seria a de
que, mesmo que a ganância vos impeça de me reservar um pedaço para cultivar,
tereis depois a responsabilidade de me sustentar.
sábado, 15 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
![]() |
| Foto: Angop |
Autor: Luciano Canhanga - O aeroporto do Namibe deixou de se
chamar Yuri Gagarin e foi rebaptizado com o nome de Welwitchia Mirabilis. Em
rigor, apenas homenageou-se um austríaco em vez dum russo, pois a referida
planta que existe no deserto já era designada pelos nativos por ntumbo, tendo
sido cadastrada pelo botânico Welwitchia Mirabilis com a designação de Tumboa.
Apenas depois da sua morte, e em sua homenagem, a planta rara ganhou o nome
actual (Reginaldo Silva, fb, 13.02.2014).
Depois da independência o aeroporto do Namibe, anterior Moçâmedes, ganhou o
nome do cosmonauta russo Yuri Gagarin. Era “tempo de homenagear os
desconhecidos heróis do Leste”. Reabilitado e reequipado, a infraestrutura
aeroportuária viu outra vez mudar de nome, desta vez para homenagear o botânico
austríaco que estudou a ntumbo, planta única do deserto angolano do Namibe.
Apesar de se ter apenas mudado o nome de
um russo para um austríaco, tomei nota, com bastante agrado essa evolução no
pensamento político-cultural dos governantes angolanos. Chego à conclusão de
que, afinal de contas, sempre será possível rebaptizar os topónimos angolanos
de origem bantu, atribuídos e registados, muitos de forma errónea e ao acaso, pelos
portugueses. Para os povos bantu, cada substantivo/nome encerra um
significado. E mais, o CICIBA (Centro de Investigação das Civilizações
Bantu), e mesmo as autoridades angolanas (Resolução 3/87 de 23 de Maio, do
Conselho da República) convencionaram alfabetos para as nossas línguas, devendo
os topónimos e antropónimos bantu obedecer a estas convenções.
Continuo a considerar que os topónimos
angolanos cujos registos não correspondem à redacção correcta, nem ao
significado que encerram devem seguir o “caminho do aeroporto do Namibe”, ou
seja rebaptizados.
O estudo da Direcção Nacional de
Organização do Território, Ministério da Administração do Território, sobre
Divisão Política-Administrativa e Toponímia de Angola apenas ganha os meus
elogios por ter enumerado e codificado as províncias, os municípios e as
comunas do país, sendo necessário também serem “provisoriamente” nomeados, na
ausência de um estudo e discussão abrangentes sobre a redacção exacta dos
topónimos de origem bantu, obedecendo-se, neste caso, às designações da
administração colonial.
Com todo o respeito que me reservam os
responsáveis do MAT, com quem tenho uma comunicação aceitável, não me revejo na
obrigatoriedade dos media angolanos adoptarem essa redacção colonial como se o
“documento em construção” tivesse força de lei.
Haverá incapacidade, de nossa parte,
para se fazer um estudo etimológico dos nomes bantu da nossa toponímia?
Reitero. Não aceito que a nossa moeda, de que todos nos orgulhamos, o Kwanza,
seja grafado com KW e o rio de quem ganha o nome seja CU.
À semelhança do aeroporto Yuri Gagarin,
que passou a chamar-se Welwitchia Mirabilis , espero que as províncias que
ladeiam o rio Kwanza sejam grafadas como deve ser ou que a nossa moeda se
escreva Cuanza em vez do habitual Kwanza.
Que as capital da Lunda Sul seja
Sawlimbo e que a província do sudeste de Angola seja Kwando-Kubango [kwandu
kuvangu] e a sua capital Vunonge. Que um dos municípios do Wambu (Huambo) seja
Cikala-Colohanga e que a antiga cidade de Silva Porto seja escrita Kwitu-Vye…
Pode ser que o tempo me derrote, mas não
custa nada debater e buscar consensos alargados. O país, a sua história e
futuro, a todos diz respeito.
2º Lugar: David Calivala, prémio: 1 exemplar do livro Não Tem Pernas o Tempo, ou Consulado do Vazio, se preferir.
3º Lugar: Tatiana Cristina, prémio 1 exemplar do livro Consulado do Vazio.
"Ongeva onjivaluko/ omunu lokimbo lyavo/ nda likasi ocipãlã/onjongole yokutyukila (...) Ongeva onjivaluko/ omunu l'u valisole/ nda valitepatepa/ onjongole yokulisanga (...) Ame ndakucipopya siti/ kolela/ ovita ndopo vipwa/ Tulisanga a Ngeve (...) ka lupukile/ wasala".
Saudade é recordação/ cada um com a sua terra/ se fica distante/ o desejo é regressar (...) Saudade é recordação/ cada um com a sua pessoa amada / se estão separados/ o desejo é reencontrá-la (...) Eu te disse/ para teres coragem / que a guerra em breve acabaria/ Havemos de nos encontrar (...) Quem não correu/ ficou".
Queiram entrar em contacto com "sua excelência eu" para receberem o que é vosso por direito. A língua conta convosco para não morrer atrofiada, por falta de uso.
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