segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Olhando para a morfologia do termo, temos
"O" (artigo) mais "luvale"
(poligamia), parecendo o fonema estar mais próximo de bigamia, tendo em conta a
raiz "val". Na língua Umbundu, o número dois é "vivali". O que se pode reter é que, ao contrário da
estrutura na língua portuguesa, em Umbundu não há duas categorias, oluvale é genérico.
Assim, quando
ouvimos dizer que "ngandi okwele
oluvale", a única certeza que temos na interpretação é que determinada
pessoa tem mais de uma mulher. Caso a curiosidade se desperte, a pergunta
seria: "oluvale wakãi vañami"
(é poligamia de quantas esposas)? Não nos interessa a perspectiva moral da
poligamia, que nos levaria ao velho conflito entre o direito costumeiro (bantu)
e o direito positivo (ocidental).
Por falar nisso, parece que os nossos
juristas têm o grande desafio de acabar com a hipocrisia formal, não poucas
vezes mediatizada em notas fúnebres: "o malogrado deixa uma viúva e X
filhos", quando aos olhos de todo o mundo estão prostradas duas ou mais
senhoras enlutadas e com lares devidamente legitimados pelo falecido, família e
sociedade.
A poligamia, independentemente das suas implicações sociais,
sobretudo para a vertente de sobrevivência do agregado e/ou herdeiros, é
culturalmente direito consagrado ao homem africano Bantu e até pré-Bantu, a
exemplo dos Vatwa. No centro Urbano, a sua prática enfrenta também um travão de
cariz moral religioso.
Terminamos com a frase de um ancião, que reage ao pedido
de um familiar no sentido de organizar a praxe de ir "legalizar" a
sua segunda relação.
"Etu oluvale ka tuwunyãle; pwãi ka tulombalomba
luvali" (nós não somos contra a
poligamia; mas não costumamos fazer alambamento por mais de uma vez).
Neste caso, como
interpretar a posição do ancião?
Ovilamo
(cumprimentos), Gociante Patissa, kOmbaka, 22.01.15
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Os escritores Gociante Patissa e M’Bangula Katúmua partilham, ao menos, três coisas: são naturais de Benguela, nasceram no período pós-colonial e a existência de ambos decorreu em grande parte nos dias e anos tumultuosos da guerra de má memória. Os livros “Fátussengóla, o homem do rádio que espalhava dúvidas”, do primeiro, e “Humanus”, do segundo, aparecem juntos na colecção Novos Autores, editada pelo Grecima, a par de nove de outros tantos autores.
“Fátussengóla, o homem do rádio que espalhava dúvidas” é uma colectânea de 14 contos ambientados em localidades diversas da província de Benguela, do interior ao litoral, que resgatam da memória da infância e adolescência do autor toda uma galeria de personagens e situações marcantes, seja pelo lado do insólito ou dos afectos.
Gociante Patissa na verdade não é um autor de primeira viagem. Publicou em 2008 “Consulado do vazio”, poesia, em 2010 “A última ouvinte”, contos, em 2013 “Não tem pernas o tempo”, novela, e em 2014 “Guardanapo de papel”, poesia.
Trata-se de um autor empenhado em apurar a sua própria voz, notando-se na sua escrita a fuga à facilidade e o evitar dos trilhos há muito batidos. Atente-se ao modo de construção deste parágrafo do conto “Minha mãe é hortelã”, em que além das imagens profundamente originais o leitor pode à vontade inverter a ordem com que as frases se apresentam sem afectar, contudo, a coerência do discurso narrativo: “Ele, que não era de andar por aí a distribuir socos e pontapés, abraçou tal via. Era homem já quase feito, de caroço no mamilo e uma barba que não se lhe podia confundir com simples pêlos de calor do funji. Mesmo a catinga do sovaco dele anunciava os ingredientes prontos para dar bebés. Quem lhe provasse o sabor da surra já não voltava a gozar.”
Retenha-se esta outra preciosidade, a abertura do conto “No reino dos rascunhos”: “O velho estava velho, muito velho, logo doente. Para ser confirmado inerte, só lhe faltava parar o fôlego. Vendo bem, aquilo até podia ter outro nome, respirar é que não era.” Como não há bela sem senão, a escrita de Patissa às vezes denota um excessivo “cuidado” em conformar-se às normas, às regras estabelecidas do “bem falar português”, sacrificando a emergência daquilo que podia ser considerada a sua própria linguagem, escorada nos interstícios mais íntimos do seu substracto cultural benguelense. “Havia um cão no quintal em que em tempos fui morar…” in “A estrela que não voltei a ter”. “… só não tendo o dono do alheio sucedido graças ao gradeamento interior aplicado poucas semanas antes da investida”, in “Gestão de vazios”.
Patissa, note-se, neste mesmo livro demonstra um grande domínio da sócio-culturalidade umbundo, fazendo recurso a palavras e provérbios da região. Autor de imenso potencial criativo, Patissa tem o dom do olhar, da captação das singularidades aparentemente invisíveis e insuspeitas das situações e das personalidades.
O seu conto mais significativo é o que dá título ao livro: “Fátussengóla, o homem do rádio que espalhava dúvidas”. É uma narrativa digna de figurar na mais selecta das antologias de literatura angolana. É a biografia de uma personagem tão singular na ficção como na vida. (Aliás, “… a profissão de biografista independente faliu, como hoje vemos”). Fátussengóla, de nome verdadeiro Virgulino Kaendangongo, “que na língua umbundo significa eterno sofredor”, é um personagem da estirpe de um Mestre Tamoda de Uanhenga Xitu, com o qual partilha o estatuto de orador, as poses e o gosto pela mais gratuita verborreia. Fátussengóla ganha imediatamente a simpatia e a compaixão do leitor pela forma soberba como o autor o apresenta, seja descritivamente, seja pelo desdobrar dos diálogos. E o final da estória encerra tanta preciosidade como o tesouro que nele é revelado.
- FOGO& RITMO - Agostinho Neto,
- MEU AMOR DA RUA ONZE - Aires de Almeida Santos,
- DESEJOS DE AMINATA - Lopito Feijoo,
- MEU AMOR DA RUA ONZE - Aires de Almeida Santos,
- DESEJOS DE AMINATA - Lopito Feijoo,
- A CIGARRA DESCONTENTE - António Cardoso,
- 8:2= 23 - David Capelenguela,
- GUARDANAPO DE PAPEL - Gociante Patissa,
- CONTRAFÉ - Carlos Ferreira.
Pedidos para os emails etutanu@gmail.com ou monteiroferreira@hotmail.com
Também podem ser feitos para Rua Queiroz Ribeiro nºs 11/15 - 4920-289 Vila Nova de Cerveira ou pelo telefone 251795115.
Divulguem, por favor.
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Miguel Gomes (Texto), José Alves(Fotos)- Daniel Gociante Patissa nasceu na comuna do Monte-Belo, município do Bocoio, província de Benguela, em Dezembro de 1978. Tem licenciatura em Linguística, especialidade de Inglês, pelo Instituto Superior de Ciências da Educação da Universidade Katyavala Bwila (ex-Agostinho Neto).
É membro efectivo da União dos Escritores Angolanos. Foi o laureado do Prémio Provincial de Benguela de Cultura e Artes 2012, na categoria de Investigação em Ciências Sociais e Humanas, “pelo seu contributo na divulgação da língua local umbundu, na perspectiva das tradições orais, através do conto e novas tecnologias de informação e comunicação”.
Já editou cinco livros: Consulado do Vazio (poesia), A Última Ouvinte (contos), Não Tem Pernas o Tempo (novela),Guardanapo de Papel (poesia), e Fátussengóla, O Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas (contos). Para além da actividade como escritor, Patissa é autor de dois blogues: Ombembwa Angola (http://ombembwa.blogspot.com/) e Angola, Debates e Ideias (http://angodebates.blogspot.com/).
Durante a conversa, Gociante Patissa analisou o estado da comunicação social em Benguela, falou sobre a importância das línguas angolanas e das dificuldades de afirmação num contexto dominado pelo português. E revoltou-se com a recente perda do k, y e w.
O Gociante Patissa tem um blogue, foi radialista, tem um percurso na comunicação social e também fora desse meio. Gosta de escrever. De que forma analisa a história do debate de ideias na sociedade angolana?
Não sei se a maturidade é isso, mas sinto que vai havendo um decréscimo em termos de espaço para discussão de ideias. No tempo de guerra havia mais. Falo isso com algum conhecimento porque tive dois programas de rádio, que promoviam debates. No tempo de guerra discutia-se um bocadinho mais, mesmo reconhecendo que por vezes se chegava ao excesso. Agora há a preocupação em ter um discurso comedido. Por aquilo que se vai ouvindo, porque também oiço a opinião dos outros, no sentido da pluralidade, os debates promovidos pela Tv Zimbo vão se destacando pela positiva. Mas o nível de discussão de ideias ainda não é o ideal. A minha grande preocupação é que caminhamos para um processo de exclusão na comunicação social.
Não sei se a maturidade é isso, mas sinto que vai havendo um decréscimo em termos de espaço para discussão de ideias. No tempo de guerra havia mais. Falo isso com algum conhecimento porque tive dois programas de rádio, que promoviam debates. No tempo de guerra discutia-se um bocadinho mais, mesmo reconhecendo que por vezes se chegava ao excesso. Agora há a preocupação em ter um discurso comedido. Por aquilo que se vai ouvindo, porque também oiço a opinião dos outros, no sentido da pluralidade, os debates promovidos pela Tv Zimbo vão se destacando pela positiva. Mas o nível de discussão de ideias ainda não é o ideal. A minha grande preocupação é que caminhamos para um processo de exclusão na comunicação social.
Falta uma perspectiva abrangente do país e das pessoas?
Sim, e mesmo quando há debates na rádio só vai ligar para participar quem tem Kz 900 para comprar saldo. Não sei qual é a alternativa que devemos criar. Sou auto-didacta em termos de comunicação social. Há muitos autores que defendem que a rádio deve reflectir a vivência da comunidade. Não é que se defenda a banalidade. Não. Mas em termos de método deve ser assim.
Um pouco à imagem de um velho jargão: o jornalismo também serve para dar voz a quem não tem voz.
Naturalmente. Acho até que os canais de telenovelas só têm o impacto que têm porque uma boa camada da população não se sente representada nos programas oficiais.
Na sua opinião, revêem-se melhor nas historietas ficcionadas?
Não só, também precisam de se ocupar de alguma forma. As pessoas têm de alimentar o seu imaginário. E a novela faz isso. Tem de se fazer um trabalho mais profundo, respeitando o princípio de que a própria comunicação é uma arte.
Os bons escritores contam histórias ricas, falam sobre as pessoas, são humanos. Jornalismo não é só isso mas também precisa dessa perspectiva. Estamos a falhar nalguma coisa?
É possível. Depois há também a questão de não haver estudos de audiência. Os que existem são pequenos e mal divulgados. Também não há concorrência no sector da comunicação social, as linhas editoriais são fracas, às vezes dá a ideia que não faz diferença ter bons programas. Não sei bem o que podemos fazer mas é preciso chegar um bocadinho mais perto das pessoas. Não no sentido de apenas trazer, mas de colher também. Costumo sempre dizer que (e agora já temos números oficiais) vivem em Luanda 6,5 milhões de pessoas e, se calhar, num fim-de-semana não se vendem mais de 50 mil jornais nas bancas e nas ruas da cidade. São números mesmo muito baixos.
Que conclusão podemos tirar daqui? As pessoas não compram porque não se revêem no que é publicado?
É preciso recuar e entender a vertente antropológica. A população angolana é maioritariamente Bantu, com uma forte tradição oral. Os hábitos de leitura são ainda um desafio. Se já temos um povo que por essência tende a ler pouco, e se depois a história que se retrata é do outro, parece haver pouca proximidade afectiva. A comunicação social tanto é carrasco, como é a vítima também. É um círculo vicioso. Os jornais acabarão por ser os mais prejudicados em termos comerciais. Uma vez estava a falar com um livreiro, o senhor Grilo, que tem um espaço no Mercado de Benguela. Havia lá um livro, uma compilação de anedotas, e perguntei: “Então os nosso livros?”. “As vendas estão um bocadinho fracas”, respondeu. Voltei à carga: “E o livro de anedotas?” “Também está a apanhar poeira”. Julgo que a rádio é, actualmente, o meio mais potente, acessível e barato. Há várias razões que concorrem para essa importância. Devemos pensar melhor nas vantagens das emissões de rádio em línguas nacionais. No fundo isto está ligado à nossa história: a consolidação da caminhada, da independência e de nós próprios enquanto nação contou muito com a comunicação social, especialmente a rádio.
Como analisa a circulação e acesso à informação fora de Luanda?
O cenário parece ser mesmo muito pobre. As províncias estão praticamente excluídas deste processo porque apenas têm a internet e a voz oficial do Estado (TPA, Jornal de Angola eRádio Nacional e afins). Os cidadãos que vivem fora de Luanda não têm acesso à diversidade. É um quadro preocupante, tanto do ponto de vista do consumo da informação, como da sustentabilidade da profissão de jornalista. A história das profissões ligadas à intelectualidade tem de ser vista de dois galhos: os que existem e os que têm de existir. Ao nível da imprensa escrita, que é onde temos mais debilidades, a situação é complicada. Olhando para a realidade de Benguela, tivemos o Kessongo, do jornalista Ramiro Aleixo (actual director do semanário Agora), ou o Cruzeiro do Sul, do Ismael Mateus. Agora há apenas o intermitente Chela Press. Se olharmos para Benguela como segunda capital, é preocupante que, tirando as rádios, não se produza mais nenhuma informação local.
Voltamos ao velho problema: como se vai investir em algo que não tem retorno económico?
Pois, realmente não é fácil. Se calhar o Estado deveria pensar em subvencionar a comunicação social e reactivar o parque industrial ligado ao sector. Todo o papel é importado. Eu colaboro com o Jornal Cultura e, sem grande justificação, por vezes o número de páginas é reduzido. Será que é falta de papel? É preocupante. Houve agora um apoio ao sector da literatura mas se calhar também temos de pensar em medidas concretas para fomentar a produção de informação. A rádio e televisão têm outra dinâmica e enchem o coração das pessoas mas são sectores fechados à concorrência. A visão que existe é sempre a mesma. Isso cria uma sobrecarga noutros sectores do sociedade. Quando há concursos públicos de emprego apenas a educação e a saúde têm vagas massivas. E aquelas pessoas formadas em outras especialidades vão todas para o professorado tendo, ou não, vocação. Fazem falta mais rádios e eu sei que, pelo menos, duas pessoas de Benguela têm projectos de investimento nesse sentido. É preciso abrir o espaço público aos cidadãos. A rádio, em muitos países africanos, é quase uma instituição. É possível. No meio está a virtude. É sempre preciso encontrar este elemento de equilíbrio. Às vezes eu penso que há um pouco de receio dos excessos.
É um receio que ainda se mantém nas altas esferas políticas e militares do país?
Certezas não tenho, mas às vezes acho que quem vem de um quadro de guerra, como nós viemos, tendo um país como temos, com esta diversidade étnica, linguística, e ainda algumas mágoas por resolver, provavelmente esse receio pode passar pela cabeça de algumas pessoas – e eu penso até que é legítimo. Mas está visto que o quadro actual também não ajuda em nada. Mesmo até na perspectiva do exercício da cidadania. É preciso que surjam novos operadores e diversificar a programação das rádios e televisões. Não é saudável que o espectro continue como está. É mesmo importante trazer diferença para o debate público. É importante estarmos sempre preparados para o lugar do contraditório.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
"Eu costumo dizer os cantores de outras
províncias, porque, às vezes, parece que só geograficamente é que somos 18
províncias, mas não, é preciso lembrar que culturalmente também somos 18
províncias. Então, por vezes corremos o risco de termos vários anos de carreira
e, quando chegamos a Luanda, sermos considerados ainda "novos
talentos" - (Edna Mateia, cantora residente no Huambo, em etrevista ao
programa «Janela berta», TPA, Luanda, 15.01.15)
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
(UMBUNDU) asapulo vetu: Ulandu wa soma Ndumba/ (PORTUGUÊS)Oratura: A lenda do soma [soberano] Ndumba
“Otembo yaviluka, Soma Ndumba vowambatisa ewe; otala
tala oloneke okuviluka”, olondaka evi onepa yocisungo cimwe cutunda syahunlu, ndo kukalela umwe
soma londuko ya Ndumba, omo lyo kusilula kotembo ofeka yetu yakala peka lya
cikolonya kaputu. Mbi kulima wa 1920, ko lonungaimbo volonyitiwe vyelimi
lyumbundu.
Eci soma Ndumba a kala, pana okuti okanyunla ovaimbo
vamwe, osyata ño lokulala ovokombe, enda po ño kamwe. Ndaño pamwe okuyi upãla
wa 40 km, olala mwele lutanlo ovokombe.omo lya nye? Wakala hen ocilema? Sicitenla
oku citambulula, ava vasapula ulandu owu ndeti vo ka vacitenla. Nda hacoko,
mekonda lyo losanji votelekela vokulala ovokombe, ndomo casesamenla
okutambulula asongwi (lo pokwenda, lo pokutyuka). Olosanji kavitendiwa vyapita
komesa yeye (ucilete ale okuti osoma kayendaida ulika).
Haimolumwe, konepa yolosanji, ka tukaveli ño calwa
soma Ndumba, omo okuti lolosipayo vo vitelekelwa olosanji nda vyukulalele. Ku vana
vacitiwa votembo okuti oNgola yayovoka ale, kacalelukile okutava ndomo osimbu
omanu vetu vainda lokutuminliwa. Ko kwange, o sipayo ha “policia” ko, omo okuti
cakala ongusu yimwe yava katekanva, vatumilinwa la cikolonya, oco vatalise
ohali vamwenle yimbo. Kucindele ka vapitinla.
Okutyukila ku soma Ndumba, usoma waye vasumbilwe calwa,
ndomo casesamenla asongwi vutundasonde. Otembo yaco yina, omwenyo uwa
vowikolonya utekwiwa lotokwa yavakatekanva, kupange wakahandangalala pwãi ofeto
yititotito. Pwãi cenda asapulo, okukala kwovindele vyotembo yina munlo
kwafetikilile pukamba, nda ño há wocili ko, lasongwi.
Eteke limwe, osipayo votuma ondaka yokuti soma Ndumba
a katute ovawe. “Ame situminliwa lomanu ndituminla”, sekulu wakumbulula. Una usongwi
wo posito, eci ayeva etambululo lya soma, watuma oco vokwate. Soma Ndumba eci akeya,
cindele wapitulula eci a tuma. Soma ka popele calwa, wapinga elisensa, okwiya
wainda oku votuma. Nda ndopo dipopya ale eci ceya okwiya ko veteke olyo, pwãi,
linga andi ndipule: nda umbanda haiko uli, nda osapi yusoma, oco pwãi Ndumba yo
kalohele andi cikolonya wolavisa ndoto?
Papita ño alivala vatito, somba Ndumba otumbuluka
lewe, tulingi tuti okawe, mbi ndo nuku yoñaña. Cikolonya utwe wotokota. Soma Ndumba,
lelyanjo lyovokulu wosilula hati: “Siti wa ndituma ewe? Eci walipapata,
limwina? Hewe ko?”. Eci cindele otambulula katuci vali, tusima tuti wasokolola
okulweya kwaye, omo okuti katukwile nda ewe wayongwile linene. Ewe ewe.
Ulandu wakawiwa la Gociante Patissa, ko songo yo
Bela-Vista, vo Lupito, 26/11/ 2011
(PORTUGUÊS)Oratura: A lenda do soma [soberano] Ndumba
“Otembo yaviluka, Soma Ndumba vowambatisa ewe; otala tala oloneke okuviluka”, em português, “mudaram-se os tempos, até o Soberano Ndumba foi forçado a carregar pedra". É essa a essência da canção que satiriza e lendária figura do soberano Ndumba, uma lenda de resistência africana durante a colonização portuguesa, no princípio do século vinte. Para ser mais preciso, como se isso lá fosse possível em lendas, reportamo-nos à década de 1920, na região centro e sul, da “nação Ovimbundu”.
Nas longas caminhadas, Ndumba revelava um inusitado sentido de exigência. Imagine-se, como contam, que num perímetro de pelo menos 40 quilómetros pernoitava umas cinco vezes. Mas para quê? Seria coxo? A isso não sei responder, nem o sabem as fontes. Podia ser apenas pelas mordomias que exigia aos anfitriões em cada aldeia (na ida e no caminho de volta). Perdia-se a conta das galinhas que chegavam à sua mesa (porque, como não devia deixar de ser, caminhava acompanhado).
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
- FOGO& RITMO - Agostinho Neto,
- MEU AMOR DA RUA ONZE - Aires de Almeida Santos,
- DESEJOS DE AMINATA - Lopito Feijoo,
- MEU AMOR DA RUA ONZE - Aires de Almeida Santos,
- DESEJOS DE AMINATA - Lopito Feijoo,
- A CIGARRA DESCONTENTE - António Cardoso,
- 8:2= 23 - David Capelenguela,
- GUARDANAPO DE PAPEL - Gociante Patissa,
- CONTRAFÉ - Carlos Ferreira.
Pedidos para os emails etutanu@gmail.com ou monteiroferreira@hotmail.com
Também podem ser feitos para Rua Queiroz Ribeiro nºs 11/15 - 4920-289 Vila Nova de Cerveira ou pelo telefone 251795115.
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domingo, 4 de janeiro de 2015
Tem muita piada, muita mesmo, o argumento
"refinado" na classe intelectual para defender esse erro
administrativo de nos continuarmos a negar a nós mesmos em nome da
"união". Em duas ocasiões diferentes, uma num programa radiofónico emitido
de Luanda para o país todo, outra noutro programa também radiofónico por
Benguela, passou-se a ideia de que "quando
escrevemos cota com a letra C [querendo dizer irmão, irmã, pessoa mais velha de
nós, e em alguns casos pai/mãe], estamos a usar o português do Brasil e de Portugal.
No português de Angola é que é com K." Mas, oh caramba!, não seria mais
inteligente explicar como a palavra surge, ao invés de andarmos a branquear as
coisas? Os portugueses e os brasileiros têm COTA, sim, com a letra C, que é
indicador estatístico (como por exemplo a cota de 30% de representação feminina
no parlamento). Agora, quando se trata de grau parentesco - e não há cá esses
avanços para trás - estamos em presença da palavra de origem BANTU, que é KOTA.
É assim em Kimbundu, é assim em Umbundu, pá! Se ao longo do processo histórico
a "cultura superior" dominante foi cega às nossas raízes, cabe-nos,
hoje que já somos (ou devíamos ser) soberanos, ensinar aspectos linguísticos na
interdisciplinaridade com a história e antropologia. Como se já não bastasse a
tendência de pronunciar o R carregado como se andássemos a expulsar uma espinha
de peixe entalada na garganta, numa incompreensível vaidade de negar a nossa
pronúncia palatina; como se já não bastasse andarmos aos sotaques mecânicos,
mesmo quando até nunca botamos o pé na Europa (e não são poucos os casos); vem
agora essa coisa de confundir influências regionais com erros de concepção ou
normatização ortográfica. Não me venham com essas leviandades de "ah, no
português do Brasil e de Portugal é com C, no nosso é que é com K", num
subtil aconselhamento do tipo "tanto faz". Quer dizer, quando convém
(como acontece com o ku-duro, as misses e o semba) evocamos orgulho ao que é
nosso. Já quando tem que ver com aspectos da nossa identidade como africanos,
reeditamos a bitola com que durante séculos fomos subjugados. Como dizemos no
bom Umbundu, "Wakambi osõi!" (Tenham mais é vergonha!)
Gociante Patissa, 4
Janeiro 2015
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
"Ukãi wa Sambayu / okwete ocali/ omunu opita vonjila/ ocisangwa ceci/ a Sambayu/ tambula ocisangwa combundi/ a Sambayu/ tambula ocisangwa/ ceci"
(cântico popular Umbundu que ouvia dos vizinhos quando entendessem improvisar momentos de diversão com alguma dança e convívio)
MINHA TRADUÇÃO: A esposa do Sampaio é hospitaleira/ quando vê alguém passar/ regala logo com um copo de quissangua/ ó Sampaio/ aceita a nossa quissangua adoçada com raízes/ ó Sampaio/ aqui tens a nossa quissangua
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
Até há pouco menos de 15 anos, ainda se via nas
principais cidades do litoral de Benguela o saudável "assalto" à meia-noite
com cantares a batucadas improvisadas, jornada que se prolongava até ao final
do dia.
O Natal, ainda mais o Ano Novo, faziam renascer o reencontro,
a reafirmação da socialização e indirectamente a capacitação para a vida do
ponto de vista antropológico, havendo a realçar a casa com...o ponto de partida
da partilha.
"Twapandula ciwa/ weh/ etali ulima wapwa" (Estamos bem agradecidos/ eh/ hoje termina o ano)
- trecho de gratidão no contexto de "se-se", um ritual popular
Umbundu (com escalões de crianças, de homens e de mulheres), que consiste em
andar de porta à porta cantando e dançando em celebração da passagem de ano. O
anfitrião corresponde regalando bens alimentares, os quais serão consumidos em
piquenique no dia seguinte.
Quando o coro é respondido com avareza, a sanção é por via do canto também:
Quando o coro é respondido com avareza, a sanção é por via do canto também:
"Ove
ku kwete cimwe/ weh/ nye watungila onjo?" (Se dizes nada ter, por
que é que construíste a casa?)
"Ha njala ko/ tucipangela onatale/ ha njala ko/
tucipangela ombowanu (não é questão
de fome/ cumprimos apenas a praxe de natal/ não é questão de fome/ cumprimos
apenas a praxe de bom ano).
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
UMBUNDU:
olombwa
viñami otekula/ osimbu okuti olosiwe vitala ohali?/ Olongato viñami otekula/
osimbu okuti ovilema vipinga osimõlã? Viñami otekula/ osimbu okuti olosuke
vifila voluwa? (...) Tulavoka Suku yokilu/ una wakulihã cilyalya olosiwe/
ovilema/ olosuke"
MINHA
TRADUÇÃO: quantos cães estás a criar/ enquanto vários órfãos passam
necessidade? Quantos gatos estás a criar/ enquanto pessoas com deficiência
andam a pedir esmola? O que mais estás a criar/ enquanto os mendigos morrem ao
relento? (...) resta-nos esperar pelo Deus do céu/ aquele que conhece o que
alimenta os órfãos/ pessoas com deficiência/ os mendigos.
domingo, 21 de dezembro de 2014
"Kalufele
waciliyonga; haye osika, haye otukula" (expressão sarcástica Umbundu para
contextos de excessos do ego) - O Kalufele sobrecarrega-se a si próprio; quer
ser o instrumentista e o vocalista ao mesmo tempo.
Lembrei-me
agora disso ao cruzar com mais uma das habituais cenas de artistas que usurpam
a função de crítico especializado e encarnam para si e respectivo produto o
centro do universo.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
Durante
um encontro familiar (no sentido alargado do conceito), um dos presentes, ao
ser confrontado por um coro de pronto protesto, disse:
"Ndalweya! Vomenlã munli anyãnhã (o que se pode traduzir para o português nos seguintes termos: "Errei. Na boca há caminhos e desvios").
"Ndalweya! Vomenlã munli anyãnhã (o que se pode traduzir para o português nos seguintes termos: "Errei. Na boca há caminhos e desvios").
Nesta expressão, estabelece-se uma relação de analogia que sugere a imagem da presença de caminhos e desvios, sendo a palavra ou a mensagem comparada a um caminhante que, por vezes a contrário do que gostaria, toma o caminho errado. Claro está que, mais do que as palavras, é o tom que determina a atitude do emissor nestas coisas de pedido de desculpas.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
"Ene akongo vosi
Kwati kolohonji
Tukayevela konyima
yomunda
Omalanga yapita
Onguluve yapita
Tukayevela konyima yomunda
Cikale olohonji
Cikale lovota
Tukayevela konyima yomunda"
ATENÇÃO: No final do dia, anuncio o resultado. Pelo menos
três pessoas vão ter um prémio de um exemplar do livro " Fátussengóla, o
Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas."
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
“A kamba lyange/ota!/ tupapaleko” (Oh, meu amigo, vamos ao menos divertir-nos)
“Ame/ pwãi/ tê ndalikapako komanu” (Eu tenho de valorizar as relações humanas)
“Halivolela” (O meu corpo está destinado a apodrecer)
“Eteke ndifa /ame / halivolela” (Quando eu morrer, tudo apodrece)
“Nda ndakaile okambisi” (Se eu fosse um peixe)
“ Nda wamiñako” (consolar-te-ia a possibilidade de reforçar a tua refeição)
“Nda ndakaile ongombe” (Se eu fosse um boi)
“Nda watyulako” (um pedacinho do meu corpo ao menos aproveitarias)
“Eteke ndifa /ame / halivolela” (Quando eu morrer, tudo apodrece)
“Unyamo wumwe/ ndamwinle owima” (Houve um ano em que vi azar)
“Ame handi sa file” (Eu não tinha morrido ainda)
“Omunu okupita Olisiyala” (Mas alguém, ao passar por mim, cuspia de escárnio)
“Ndalehã ongongo/ weh/ Ndalehã ongongo” (Eu cheirava a sofrimento/ oh/ cheirava a sofrimento)
“Oco / pwãi/ tê ndalikapako komanu” (Por isso, eu tenho de valorizar as relações humanas)
“Halivolela” (O meu corpo está destinado a apodrecer)
“Eteke ndifa /ame / halivolela” (Quando eu morrer, tudo apodrece)
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
Em Outubro de 1945, um arrolamento
extraordinário estava na iminência de ocorrer na Ombala de Tchiaia, capital de
cinco aldeolas plantadas no cimo de montanhas vizinhas, que mais se pareciam
com dedos de uma mão tentando tocar o céu: Pedreira, Kandongo, Samangula, Kawio
e Tchiaia, hoje pertencentes à comuna do Sambo, município da Tchikala
Tcholoanga, na província do Huambo.
Ia ao rubro a ansiedade na Ombala, como de
costume em véspera de arrolamento. Cada família procurava catanar a idade dos
filhos, o que contribuiria na diminuição dos impostos, o mesmo acontecendo com
o número de animais domésticos. Menos posses, melhor. O que restava fazer só
dependia da visita do Chefe do Concelho, branco português conhecido por
observar ao mínimo pormenor até mesmo os pelos de um porco. Andava intrigado o
Chefe do Concelho com a notícia do registo de dezassete óbitos em oito meses. E
de nada o convenceram as justificações das autoridades, que atribuíam tal azar
ao aparecimento do dragão, que fora visto por poucos sobrevoando o caminho do
cemitério.
Era fenómeno raríssimo no meio rural, mas
havia na aldeia uma mulher (chamada Kutala) em condições de dar conta do recado
em matérias de recenseamento. Fora logo cooptada para o posto de
secretária-tradutora-dactilógrafa da Ombala. Despachava diretamente o
expediente com o Soba.
Nascida doentia, Kutala vivera a sua
adolescência sob os cuidados de missionárias, tendo com elas aprendido as
práticas de dactilografia, costura, doméstica e o domínio da gramática
portuguesa. Mas com o desabrochar dos seios e o surgimento de sonhos eróticos —
que ela não sabia se gostava ou se odiava —, Kutala convenceu-se de não ter
vocação para madre, optando por abandonar a residência. Não era de ser
pretendida por qualquer um, dada a sua capacidade de análise crítica, embora
não fosse cheia de «não me toques».
Mbocoio, o felizardo marido da Kutala, não
gostava nada da ideia de se trabalhar com o Soba — apesar de iletrado, o Soba
era muito astuto, carismático e, dir-se-ia até, bonito. Mas foi aconselhado
pelos amigos a ver o lado positivo da coisa. Ser marido da mulher mais
influente no poder dar-lhe-ia um estatuto visível, uma gratificação até acima
do razoável. Lá o homem aceitou, mas não sem antes propor uma das irmãs da
esposa para auxiliar na lida doméstica e cuidar do Velho, o bebé do casal,
enquanto a mulher fosse trabalhar — Velho era a alcunha do bebé, uma solução
arranjada para evitar o desgaste do sagrado nome do avô paterno, que era seu
chará.
A verdade é que também não havia muito a
fazer para impedir a esposa de desempenhar tão decisivo cargo. A vontade dele
não podia estar acima do poder, fosse político, administrativo ou real. Mbocoio
era uma pessoa singular na Ombala, não impressionando ninguém com o seu corpo
atlético, peito de almofada e altura de mercenário. Era vagaroso a reagir e
cauteloso a decidir, se calhar por ser gago.
Ia o emprego no seu primeiro mês. Faltavam
dois dias para o pagamento do ordenado, quando a mulher chegou à casa e disse
ao marido:
— Ó pai do Velho, tem uma coisa para te
falar.
— Sim…?
— O Soba disse para o outro, ainda, deixar
de passar a mão na minha cara. É para evitar espinhos, porque o Chefe do
Concelho está para vir… e a cara é importante.
— Como assim?
— Bom, ele me falou que, como
escriturária-dactilógrafa da regedoria, a minha cara tem que brilhar como bebé.
E mão de homem faz borbulhas.
— Tá bem.
Não gostou nada do recado, mas suportou.
Por mais que lhe custasse travar a mão toda a vez que ela teimasse em fazer um
carinho involuntário à esposa, sujeitou-se durante semanas. Era coisa
passageira, acreditava. Mas a visita nunca mais acontecia e, para a sua
surpresa, surgia a mulher com mais um recado do Soba:
— O Soba me falou, fala no pai do Velho
ainda para deixar de me dormir em cima. — respirou fundo para buscar a coragem
de dizer o resto. — Falou a parte de sentar está a ficar rasa e as mamas estão
a ficar grande.
— Então, daqui p’ra frente é só de lado? É
isso?
— Acho que sim…
Contrariado, Mbocoio concordou. Como se
não bastasse a proibição de tocar o rosto da mulher, vinha agora mais essa de
fazer amor só de lado. Sujeitou-se, todavia, outra vez. Mais um sacrifício pela
subida da mulher no trabalho. Seria passageiro porque, pelo tempo, a visita
estaria perto de acontecer, acreditava o homem. Volvidos três penosos meses,
era ainda incerta a chegada do Chefe do Concelho. Tudo indicava que ficaria
para o ano seguinte. Mbocoio começava a acreditar que as limitações do quarto
acabariam brevemente.
Ansioso. Nutrido pela enorme esperança.
Mas a esperança é, às vezes, a mais cruel das ilusões. Desiludido, Mbocoio veio
perder a cabeça perante mais um impasse:
— Ó pai do Velho — disse outra vez a
mulher —, o Soba me apanhou a sonegar e me falou que isso tudo é cansaço de
fazer as coisas de lado. Falou então para o pai do Velho pensar bem, ficar
ainda uns dias sem fazer nada…
— Mas é para chegar aonde com essa merda
de recados? — interrompeu, colérico, Mbocoio. — Porra! Até aonde vai o poder
desta merda do Soba?
Muito gostaria a mulher que o marido
falasse mais baixo, ela que já não se sentia à vontade em abordar coisas do
quarto por causa da sua formação religiosa. Temia que os berros acordassem a
vizinhança, que era basicamente composta por familiares do marido, o que seria
um escândalo.
— Vamos falar no pescoço. — rogou,
impotente. — A essa hora, a aldeia está a dormir.
— Mas, para dormir com a minha mulher, ele
é que tem que autorizar? Merda, pá!
— Você vai chamar de merda a autoridade?
— Merda mesmo. É isso! Merda, merda
d’homem! Ele pensa que é patrão até aonde?
— Mas ele não é só meu patrão. É também
regedor da Ombala.
— Safótalá, que eu mando lixar! Estou na
minha casa!
— Mas ele também já viu muita coisa nesta vida. É mais velho, é a experiência dele.
— Mas ele também já viu muita coisa nesta vida. É mais velho, é a experiência dele.
— Ele mazé te quere…
— CHEGA! Olha que o nervo só te leva, não
te traz!
— Chega nada! Aqui na minha casa,
autoridade sou eu!
Pensou a mulher que, pelo desabafo do
outro, o problema estivesse resolvido. Errado. Mbocoio saiu disparado, fora de
hora, sujeito a todos os perigos, uma vez que a aldeia costumava ser invadida
por onças e hienas que caçavam cabritos e porcos vadios. Podia também ser
atacado por jibóias, isso, sem esquecer que naquele ano fora visto um dragão.
Tudo isso punha a pobre esposa angustiada, ela que mal podia imaginar o que
faria um gago impulsivo.
Feito bicho, Mbocoio trespassou o palácio
do Soba, que enganava a insónia consultando os antepassados. Este pôs-se em pé em
jeito de respeito, como aliás fazia sempre que recebesse visitas, por muito
estranha que julgasse uma invasão do seu território quando a noite dava lugar à
madrugada. Mas foi tudo tão rápido, que não teve tempo para saudar o visitante.
Mbocoio fitou os olhos do Soba com toda a raiva que lhe subira à cabeça. E
acertou o suposto rival com dois violentos socos da cara, até vê-lo cair para o
chão como saco de múcua, embora calado como uma ovelha, já que homem grande não
chora. Possuído pelo impulso, Mbocoio espancou o Soba, como se de pessoa
qualquer se tratasse, mas rapidamente caiu em si. Não evitou a comiseração ao
ver a mais alta autoridade da aldeia levantar-se do chão, sacudindo da calça a
sujidade, com os lábios a verterem sangue.
— Ndifila nye?(1)
Mbocoio ficou estático, articulações
bloqueadas pelo susto. Cometera o mais grave erro da história do seu povo. Era
o primeiro a agredir um Soba, e o que era pior, ao ponto de partir metade do
dente incisivo esquerdo. O Soba convocou os mais próximos conselheiros para uma
reunião de emergência. A assembleia visava evitar que o Soba, figura que só participa
dos contenciosos como juiz, aparecesse como vítima, o que fragilizaria a sua
soberania. Decisão: guardar o segredo bem fechado, dando a Mbocoio o castigo de
ser o tocador de sino da Ombala por tempo indeterminado, sendo inclusive
subordinado da esposa.
Mbocoio, que temia castigo pior dos deuses
pela agressão ao soberano, aceitou sem resistência. Quando a força toda que
resta no ser humano só chega para chorar e implorar pela vida, todas as
valentias e preconceitos reduzem-se à cinza. Mbocoio era incapaz até de se
lembrar do próprio nome.
Mas como o Soba não podia surpreender a
aldeia com um dente meio partido, foi feita uma operação de estética chamada
omeyeko, aplicando um «chanfro em V» aos dois dentes incisivos como símbolo de
nobreza.
Agora, com o doce sabor da reviravolta, o
Soba até parecia ter ganho na altura. Abandonou a sala de reuniões e, sem ir
muito além da porta, olhou à sua volta, sardónico. Mandou para o ar o fumo do
seu malcheiroso cachimbo, como que em gesto de charme, e voltou a entrar,
deixando nas mãos dos conselheiros a preocupação de propagar o fenómeno.
Contou-se que tudo acontecera durante um
sonho, decifrado como recado dos antepassados: já não bastava a circuncisão
para a honra masculina. E como o que vem do Soba é exemplo, surgiu uma nova
profissão: a de limador de dentes. Foi então que se juntou omeyeko ao ritual da
circuncisão, de tal modo que, entre a vaidade e a tradição, sorrir cerrando os
dentes passou a ser documento em Tchiaia.
São os segredos e os sacrifícios que fazem
o poder, portanto este não seria o primeiro nem o último pela revitalização da
mística da aldeia. Mbocoio continuou pouco valorizado no seu posto de tocador
de sino.
___________
(1) Que mal fiz para me matares?
Gociante Patissa, in «A Última Ouvinte», 2010,
p. 27. União dos Escritores Angolanos, 1ª Edição, Luanda (versão com base no
novo acordo ortográfico)
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
- FOGO & RITMO - Agostinho Neto,
- MEU AMOR DA RUA ONZE - Aires de Almeida Santos,
- DESEJOS DE AMINATA - Lopito Feijoo,
- A CIGARRA DESCONTENTE - António Cardoso,
- 8:2= 23 - David Capelenguela,
- GUARDANAPO DE PAPEL - Gociante Patissa,
- CONTRAFÉ - Carlos Ferreira.
- MEU AMOR DA RUA ONZE - Aires de Almeida Santos,
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Pedidos para os emails etutanu@gmail.com ou monteiroferreira@hotmail.com
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