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quinta-feira, 22 de julho de 2010

À guisa de ensaio: "Por que não aprender com a dívida"?

Retomo a questão: por que não aprendemos com a dívida?


“Dívida”, enquanto termo isolado de qualquer contexto, é aparentemente ambíguo, definido pelo Dicionário Universal (Texto Editores, 2006) como “aquilo que se deve; obrigação”.

Para a habitual reflexão digestiva pós-jantar, interessa abordar o “fenómeno dívida” no campo das relações sociais numa perspectiva de angolano do grupo étnico Ovimbundu, também de origem Bantu. Em Umbundu, o termo é "ofuka", que implica específicamente dívida material (em bens ou dinheiro, passe a redundância), sendo que pagamento é "ofeto".

É consabido que cada língua veicula uma cultura, o que entre outras formas é visível nas parábolas, máximas e provérbios. Nesta ordem de ideias, diríamos que, entre os Ovimbundu, a dívida tem conotação negativa, seja entre indivíduos ou entre colectividades. Ou digamos, a advertência proverbial contra a dívida é mais sonante do que o seu enaltecimento, senão vejamos os seguintes provérbios:

- “Pesinsa panyale ongolo, pukamba panyale ofuka” (o joelho dá cabo da esteira, a dívida dá cabo da amizade); e ainda
- “Olevalisa eye onjaki” (aquele que empresta é brigão).

Ciente embora do inevitável subjectivismo, socorro-me da observação e background para ressaltar que, via de regra, somente no momento da devolução é que se ouve a máxima favorável à dívida, como forma de retribuir o agradecimento de quem foi favorecido:
- "Ovê, tuapandula calwa okacina kana"! (Queria dizer muito obrigado por aquela coisa!)
- “Acimwe ko! Walevalisa, wasolekisa” (De nada! Quem empresta, reserva).

Sendo também verdade que do imposto e da dívida o homem, enquanto ser social, não se livra, importa levantar algumas questões para continuar a reflexão (e por que não o debate?): que mito explica tal associação directa de dívida a problemas entre os Ovimbundu? Será algum sintoma de pouco sentido moral dado à palavra no acto do acordo de cavalheiros, já que os contratos escritos surgiram mais tarde? Será uma forma de atenuar o impacto da decepção, uma forma de “guerra avisada não mata”? Trata-se de um exercício de carácter especulativo que não pretende outra coisa senão contribuir para a reflexão, ressalte-se.

Seja qual for a resposta para as perguntas supra levantadas, não se pode negar que a dívida tem um grande potencial no desgaste das relações sociais e interpessoais, sobretudo quando o devedor não dá sinais de preocupação. Nestes casos, ou partimos para a pressão activa, ou nos resta esperar que o devedor se lembre da existência da moral e ouça a sua consciência, o que, em último caso, é que diferencia os homens de javalis, macacos e a restante variedade de animais irracionais.

Gociante Patissa, Benguela 16 Julho 2010

2 comentários:

KImdaMagna disse...

Interessante o seu exercício e realmente quando analisamos as palavras no seu sentido etimológico, aproxima nos do conhecimento. Creio que não é só um caso de semântica, mais da subjectividade dos nossos "Eus". Nas variadas línguas que conheço este problema apresenta se sempre assim.Por outro lado a Língua é sempre viva e vai enredando-se nas nuances das idiossincrasias.

A palavra dívida provém do verbo dividir ( latim dividĕre).
Fazendo o percurso etimológico
aparecem várias definições e o curioso é que podemos ver um comum sentido ( o negativo)mas também já
um determinismo nas próprias palavras da definição´: desunir;separar;discórdia; desinteligência

di.vi.dir

1.partir ou separar em diversas partes
2.desunir; apartar
3.fazer a operação matemática de divisão
4.estabelecer a discórdia
5.estabelecer a desinteligência
6.repartir algo entre diversas pessoas, dando uma porção a cada uma.

Fico curioso em saber o que apareceria por detrás da análise etimológica de "ofuka".

Mas para além da questão académica, deixe me felicitar o seu refinado e inteligente humor transmitido no seu texto. Não posso me desligar do contexto da dívida Angolana a Portugal nem do Aníbal nem do José.

Xaxuaxo

Angola Debates e Ideias- G. Patissa disse...

Oi KImdaMagna, obrigado pelo seu contributo, o qual tomei a liberdade de publicar na matéria relacionada no outro blog meu (em português). Não deixe de nos visitar!