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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Crónica: SE O MEU AVÔ VIESSE A JERUSALÉM


Nascido em 1916, foi-lhe impingido o ano de 1922 pelo registo civil, que entendeu ser a data que mais se adequava à sua aparência física. Esta é das tramas que tornam interminável a vivência de Manuel Patissa, meu avô paterno e patriarca da família. O que por ora interessa é olhar para o velho sob dois primas, o antropológico e o religioso.

Quis o meu pai que eu fosse “sando” (xará) do pai dele, o que me dá um certo estatuto. Entre os ovimbundu, ser xará de alguém é mais do que replicar o nome. O ritual começa com “oku katwala onduko kusando” (levar o nome ao xará, que é quando o casal entrega oferenda simbólica à casa da pessoa escolhida e oficializa o apadrinhamento para toda a vida). Espera-se que o casal dedique à criança tratamento proporcional à consideração devida à (ao) “sando”. Maus-tratos e excessos no exercício da autoridade paterna são passíveis de multa, e mesmo renúncia do nome para casos mais graves. Ora, sendo eu pai do meu pai, não me podiam incumbir tarefas como lavar a loiça, sobretudo a partir do momento em que o “sando” foi morar connosco. Yes!

Escapa-me um sorriso, maldoso talvez, quando recordo duas cenas. O bairro da Santa Cruz, no Lobito, é algo representativo em termos de denominações religiosas, e com isso a repetição em ser abordado para conversão. Meu avô atendia qualquer evangelista.

Certa vez, dois Testemunhas de Jeová deixaram folhetos e remissão à bíblia, conforme sua doutrina. Dias depois, voltaram para seguimento. O pai leu? Teriam questionado. Sim, responderia o velho. E então, que conseguiu interpretar? Sereno, o velho disse: entendi mesmo que é assunto de Marcos 13:22, surgirão falsos profetas (…) para enganar, se possível, os escolhidos. Provavelmente ofendidos, nunca mais passaram.

Numa outra ocasião, o velho foi abordado por pregadores da Igreja Apostólica, cujos membros usam barba comprida, cabelo rapado, bengalas e dançam (descalços e de batinhas brancas) sobre fogueira durante o culto. Depois de os despachar, o avô veio resmungar connosco. Então a pessoa vai-me dizer que é apóstolo? Eu também não sou? Apóstolo não é quem segue os ensinamentos de Deus e prega o evangelho?

O que os pregadores não sabiam era que tentavam converter um catequista da IESA (Igreja Evangélica Sinodal de Angola), que dedicou toda a vida louvando e cuidando de sinagogas. Em seu entender, os pregadores da cidade gostavam de batalhas fáceis, indo a quem já tinha igreja, ao invés de salvar os bêbados, ladrões e outras almas perdidas, de modo a mostrar-lhes o caminho de Jerusalém (pronúncia Umbundu, /ye-lu-salãi/).

Mas que ideia teria de Jerusalém? Bem, se o meu avô viesse a Jerusalém, ouviria que apóstolo não é necessariamente quem prega o evangelho, porquanto o novo testamento, parte considerável de sua doutrina, não tem valor nenhum para os donos da terra, não o leem; saberia que os judeus não saem à rua para conquistar fieis; ouviria que para os hebreus, maioria demográfica e ideológica, Jesus Cristo não é reconhecido como o Messias, que o novo testamento tem mais mistérios do que revelações; perceberia que a tão almejada Jerusalém não imagina sequer que a sua igreja existe. Mas não há dramas, porque se o meu avô viesse, seria um milagre, que ele também já não está em vida.

Gociante Patissa, Jerusalém 13 Fevereiro de 2013

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