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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Ensaio: Dialectos, variações regionais e algumas barreiras entre os ovimbundu

Gociante Patissa, Lobito 11 Janeiro 2013

Em Angola, é comum usar o termo dialecto para designar as línguas nacionais de origem africana, remetendo-as implicitamente ao papel de subalternas da língua portuguesa. Por desconhecimento ou por preconceitos, é ponto assente que tal fenómeno é, mais do que problema linguístico, uma questão social e de políticas de Estado.

A caminho de quatro décadas de independência, urge esbater tal herança pejorativa da colonização portuguesa, de si célebre pelo investimento na fragilização da identidade cultural dos indígenas de então. Como defende MCCLEARY, Leland (2007: 11), “a sociolinguística não usa a palavra dialecto nesse sentido pejorativo. Para a sociolinguística, dialecto quer dizer, simplesmente, uma variação regional”.

Observemos que, segundo Fernandes & Ntondo (2002), citados em KAVAYA, Martinho (2002: 54), formam o grupo Ovimbundu, os va Viye, Mbalundu, Sele, Sumbi, Mbwei, Vatchisandji, Lumbu, Vandombe, Vahanya, Vanganda, Vatchiyaka, Wambu, Sambu, Kakonda, Tchicuma, e este grupo corresponde ao maior etnolinguístico angolano (acima de 4.500.000 pessoas) e comunica-se na língua Umbundu.

No contexto de poligamia, partilhamos várias vezes o mesmo tecto com outras mulheres de meu pai. Culturalmente, as “sepakãi” (rivais) são vistas como “irmãs mais-novas” de nossa mãe, a primeira esposa (sendo isso mais determinante do que a idade cronológica para o estatuto de “Ukãi watete” ou “ndona yukulu”, a principal do patriarca).

Se no princípio tratávamos por “tias” as outras esposas, uma posterior reprimenda do pai viria a fazer-nos mudar. (Não existindo designação correspondente a meio-irmão, as crianças de outros lares seriam nossas primas?) Passamos a trata-las por “mãmã” e a progenitora de “mãi”. Na verdade, não se tratou de invenção alguma nossa, pois é “mãmã” qualquer prima ou irmã da nossa verdadeira mãe, como seria “papai”, o nosso, e papa [pa:pa], seus primos e irmãos. Curioso é que mesmo que sejam do primeiro grau, irmã ou prima do nosso pai é “tia”, bastando apenas que não sejam do mesmo género.

Em 1992, a passar uma temporada na comuna do Monte-Belo, que dista cerca de cem quilómetros a leste do Lobito, senti-me intrigado por uma resposta, quando pretendia saber a ementa do jantar, mais concretamente o que seria acompanhante para o pirão de milho, que é invariavelmente a base das principais refeições no meio rural. “A mãmã, tulya la nye?” (Com que vamos comer?) A resposta foi: “Tulya mwenle lombelela” (literalmente, vamos comer mesmo pirão com conduto).

Ainda adolescente e com poucas noções de variações regionais, levei a resposta a mal, vendo nela um corte rude, que em Umbundu dizemos “oku tesula”. Foi nessa ocasião que passei a saber que a “tia”, oriunda da Chila, comunidade fronteiriça entre Va Cisanji (Bocoio, província de Benguela) e Va Sele (província do Kwanza-Sul), tinha percepção diferente, como adiante explica SAYANGO, Avelino:

Nas áreas do Huambo, Bié e Kaluquembe, o termo ombelela é usado para designar qualquer tipo de conduto que acompanha o pirão. Assim tanto serve para designar carne de vaca ou de porco, de ave, como feijão, ervilha, ovos preparados de várias maneiras, folhas de mandioqueira, de abóbora, cogumelos etc. Nas mesmas áreas, o número oito diz-se “ecelãlã” e o número nove “ecea”. Pelo contrário, nas áreas Hanya, Cisanji e Cilenge, o termo “ombelela” tem um sentido restrito. Designa a carne servida com pirão. Não se estende aos legumes ou verduras. Carne que se não come, não se designa por “ombelela”. Assim pode-se imaginar a decepção dum Cisanji, em casa de bieno, a quem se anunciou um almoço suculento de “ombelela” ao encontrar na mesa um prato de pirão com simples folhas de mandioca! (Sayango, Avelino, 1997: 8)

Por outro lado, "sekulu yange" significa, em Benguela, meu marido, ao passo que no Huambo é normal um menino dizer "sekulu yange", pois estará simplesmente a referir-se ao seu avô. Ainda na senda das diferenças, podemos acrescentar outra que tem que ver com tabús. O município do Bocoio, dos Va Cisanji, situa-se no centro, tendo a oeste o Lobito, setenta quilómetros, e a leste o Balombo, também à mesma distância. Se para os Va Mbalombo, a expressão “oku tutumunlã ketako” significa sacudir a poeira da região das nádegas, já para os Vacisanji tal seria um profundo disparate, porque interpretariam como sendo sacudir os órgãos genitais.

As barreiras que ora abordamos são de natureza semântica, susceptiveis que são de criar constrangimentos entre falantes do Umbundu, do mesmo jeito que o fenômeno ocorre em qualquer outra língua da humanidade.

Obras Citadas

 Kavaya, M. (2002). Educação, Cultura e Cultura do ‘Amém’: Diálogos do Ondjango com Freire em Ganda / Benguela / ANGOLA. Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal de Pelotas, como requisito parcial à obtenção . Rio Sul, Brasil: Pelotas.
McCleary, L. (2007). Curso de Licenciatura em Letras-Libras. São Paulo, Brasil: USP.
Sayango, A. (1997). O Meu Pai (Vol. 1). Luanda, Angola: Barquinho – Livraria Evangélica.

Um comentário:

Angola Debates e Ideias- G. Patissa disse...

Sim, cara Bete Scg , a comunicação é o essencial papel de uma língua. Penso que o contexto brasileiro difere um pouco do angolano, sobretudo porque aqui as línguas nacionais de matriz africana sempre tiveram vida, apesar do combate do regime racista e fascista colonial. A questão é chamar atenção para maior investimento no sentido de sistematização e cientificidade para que elas estejam efectiva e definitivamente enquadradas no sistema formal de ensino. Se é de longe inquestionável o papel unificador da língua portuguesa (que é língua primeira de milhares de angolanos), é por outro lado mau que se negligenciem as demais (igualmente língua primeira de muitos milhões de autóctones), mantendo-as, subjectivamente, como secundárias da língua oficial. Há inclusive deputados, políticos e académicos - quase sempre, coincidentemente, estudiosos que não dominam uma única língua de matriz africana - que defendiam que bastava nos preocuparmos com o que eles chamam de português angolano, porquanto este incorpora termos e construções emprestadas das línguas Bantu. Temos um confusão ortográfica, entre o convencional (do Centro de Investigação das Civilizações Bantu, mais conhecido porUmbundu evangélico) e o católico (padrão colonial, baseado na proximidade sonora com o português, o que distorce determinados fonemas que não existem na língua europeia). Quanto a mim, era já tempo de se notarem avanços nesse campo. Penso que falta vontade política, e o digo como quem se licenciou em linguística, na especialidade de Inglês, numa universidade estatal em Angola, com professores angolanos, formados também em universidades angolanas e por angolanos. Um bom domingo